De pai para filho

Assim como o pai, Paulo Niemeyer Filho vem expandindo as fronteiras da neurocirurgia. Na direção médica do IECPN, comanda um projeto inovador que introduz a excelência no serviço público de saúde do Rio.

 

O álbum de fotos na mesa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho retrata a construção de um sonho. “Foram tiradas com o celular,” diz o Dr. Paulo, ao folhear as páginas que remontam as diversas etapas da construção do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer (IECPN), do qual é diretor médico. Foram dois anos de obras sobre a estrutura do antigo prédio do Instituto de Traumato-Ortopedia, no centro do Rio de Janeiro, até a inauguração em junho de 2013. “O pessoal trabalhava dia e noite”, diz, apontando uma foto noturna da obra com luzes acesas. “Às vezes eu vinha com o então secretário de Saúde Sérgio Côrtes conferir a obra à meia-noite”, conta. Tamanha dedicação se justifica. O hospital que leva o nome de seu pai, o neurocirurgião Paulo Niemeyer Soares, morto em 2004, é um projeto desafiador: dar ao sistema público de saúde do Rio de Janeiro um centro de neurocirurgia com tecnologia de ponta. É o que ele está conseguindo fazer graças ao modelo de gestão da Pró- Saúde, que qualificada como uma OSS (Organização Social de Saúde) mantém um contrato de gestão com o Governo do Estado do Rio. “Foi muito bonito quando o governador Sérgio Cabral visitou a obra para dar autorização para a inauguração. Ele reuniu todos os operários e teve uma conversa com eles. Disse que este hospital que eles estavam fazendo com tanto capricho, no qual havia tanto investimento emocional e físico de todos, não era para quem tinha plano de saúde. Era para todos os cariocas. E para eles, inclusive.” Nesta entrevista, o Dr. Paulo Niemeyer Filho conta como vem conseguindo, a exemplo do pai, estender as fronteiras da neurocirurgia no Brasil.

 

“Às vezes, você tem um sonho e, quando menos espera, não é mais sonho: por meio da ciência, é possível encontrar o tratamento e a cura.”
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Qual foi a importância do seu pai na sua carreira?
Meu pai foi o pioneiro na neurocirurgia. Na época dele existiam três ou quatro neurocirurgiões no Brasil. Ele foi o primeiro de todos. Foi o homem que modernizou a neurocirurgia brasileira ao introduzir a microcirurgia em uma época na qual só havia a neurocirurgia tradicional, a olho nu. Além disso, em 1954 ele desenvolveu uma técnica de cirurgia para epilepsia que é a mais usada no mundo até hoje. Quando eu era garoto, não tinha essa dimensão, mas tinha uma admiração enorme por ele, porque as pessoas ligavam no meio da noite e ele tinha de sair de casa para atender. Era um mito, um ídolo dentro de casa. Por isso nunca tive dúvidas sobre querer fazer neurocirurgia. Adorava aquilo.

Em que você ampliou o legado dele?
Acho que no ensino, do qual ele gostava muito. Sou professor da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-RJ, no curso de especialização em neurocirurgia. Formamos muitos neurocirurgiões, gente do Brasil inteiro. Em uma realidade muito diferente. Meu pai trabalhava em uma época em que não existia centro de terapia intensiva. Então, quando vejo um hospital como o IECPN, fico imaginando que ele adoraria ver isso aqui funcionando. Ele trabalhava em condições precárias e não poderia imaginar que um dia existiria um espaço assim.

O que está ocorrendo hoje em neurociências no Brasil?
A neurociência vem tendo um desenvolvimento muito grande no Brasil. Em 2015, o Congresso Mundial de Neurociências vai ser no Rio. Na verdade, está forte no mundo todo. O presidente norte-americano Barack Obama há pouco tempo fez uma doação de US$ 100 milhões para a iniciativa BRAIN, para o mapeamento das funções cerebrais. É uma das áreas que mais recebe investimento para pesquisa atualmente. Como um hospital de neurocirurgia, podemos fazer a pesquisa aplicada. Já há muita coisa sendo feita com células tronco injetadas na fase agudados acidentes vasculares cerebrais na tentativa de regenerar o tecido cerebral, de diminuir a sequela neurológica. São pesquisas em andamento que pretendemos retomar aqui.

Neste cenário, qual é a importância de uma iniciativa como o IECPN para a saúde pública?
É muito importante esse tipo de iniciativa, porque na neurocirurgia, e na neurologia de uma maneira geral, os casos podem ter sequelas incapacitantes. O paciente pode ficar sem falar, sem enxergar, sem andar. Essas doenças de alta complexidade cirúrgica devem ser concentradas em um centro especializado. É importante que se tenha um centro de referência gratuito que possa oferecer à população uma tecnologia de ponta, e profissionais treinados para esses casos mais complexos. Por exemplo, teremos aqui um Gamma Knife. É um aparelho caríssimo, que é impossível ter na clínica privada. Só uma instituição pública pode ter um aparelho desses, e ele é fundamental para os casos mais graves de lesões cerebrais profundas as quais é necessário fazer uma radiocirurgia. Tenho certeza de que isso vai ser replicado em outros Estados. Se temos institutos de cardiologia e de ortopedia, devemos ter um do cérebro, que é uma especialidade tão importante quanto as outras.

Na sua opinião, qual o grande desafio em neurociência atualmente?
Acho que o mais importante é o que a gente chama de neurocirurgia reparadora, que usa a célula-tronco. Tivemos a neurocirurgia convencional, a que retira os tumores, os aneurismas. Depois tivemos um desenvolvimento muito grande, a neurocirurgia funcional, que interfere nas funções. Opera-se um doente para que ele pare de tremer, por exemplo.  A próxima etapa será dominar as células-tronco. Atualmente pode-se injetar a célula-tronco,mas não se pode garantir que ela vai chegar ao cérebro e ter a função desejada. Este é o grande desafio, é poder reparar as sequelas neurológicas de acidentados, de um paciente que está hemiplégico [tipo de paralisia que atinge um dos lados do corpo] por causa de um acidente vascular cerebral, ou que não está enxergando. Esse é o desafio dos anos que vêm pela frente, que talvez não sejam tantos. Às vezes, você tem um sonho e, quando menos espera, não é mais sonho: por meio da ciência, é possível encontrar o tratamento e a cura.