Desbravador dos mistérios do cérebro

Pioneiro da neurocirurgia no Brasil e reconhecido mundialmente, Paulo Niemeyer Soares é um dos grandes nomes da neurocirurgia.

“Um mal que trago comigo e que destruiu em mim o encanto da vida.” Esta foi a definição dada pelo escritor Mário de Alencar para a enfermidade da qual era portador, em uma carta enviada ao colega Machado de Assis, em 1907. Os dois escritores, que fizeram parte do grupo de fundadores da Academia Brasileira de Letras, compartilhavam discretamente em suas correspondências o medo, o sofrimento e o constrangimento de viverem com uma doença carregada de estigmas e preconceitos na sociedade do final do século XIX e início do XX: a epilepsia.* Cinquenta anos os separaram da criação de uma técnica cirúrgica revolucionária, que poderia ter mudado suas vidas. Em 1957, Paulo Niemeyer Soares realizou sua primeira amígdalohipocampectomia, procedimento cirúrgico que visa tratar as crises temporais dos pacientes diagnosticados com epilepsia do lobo temporal, uma das formas mais frequentes da doença e que responde pouco ao tratamento medicamentoso.

Por conta desse método, o neurocirurgião brasileiro que dá nome ao Instituto Estadual do Cérebro do Rio de Janeiro ganhou reconhecimento
internacional. “A técnica de ressecção do hipocampo, criada por Paulo Niemeyer Soares, é conhecida mundialmente e é usada até hoje. Graças a ele, a produção científica brasileira nesta área tem destaque internacional”, diz a Dra Magda Lahorgue Nunes, professora-titular de neurologia da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que foi presidente da Liga Brasileira de Epilepsia (LBE) entre 2002 e 2004, instituição da qual Paulo Niemeyer foi um dos fundadores. “Quando se fala da cirurgia de epilepsia, sempre se fala dele, porque a técnica que ele criou na década de 1950 ainda é uma das melhores do mundo”, explica o Dr. Jaderson Costa da Costa, professor-titular de neurologia da Faculdade de Medicina da PUCRS e diretor do Instituto do Cérebro da PUCRS. “Tudo começou com o Dr. Paulo Niemeyer, e todo mérito é de pioneiros como ele, que fizeram um grande esforço inovador em uma época de poucos recursos, em que não havia a infraestrutura necessária para descobertas tão significativas”, completa o neurocirurgião, que presidiu a LBE entre 1992 e 1993. (Leia mais sobre a LBE na pág. 17). Feitos históricos Pessoa com características excepcionais, Paulo Niemeyer Soares era precoce, ousado e autodidata.

Com apenas 16 anos foi aprovado no vestibular da Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro (hoje pertencente à UFRJ). Aos 24 anos, o então médico já realizava a primeira transfusão de sangue conservado no país, em uma época em que a prática corrente era a transfusão direta. Incansável, o interesse pela cirurgia do sistema nervoso foi apurado enquanto fazia residência em cirurgia-geral em prontos-socorros do Rio de Janeiro e de Niterói e, ao mesmo tempo, atuava como monitor e assistente das cadeiras de técnica operatória e cirurgia experimental, da Faculdade Nacional de Medicina e da Escola de Medicina e Cirurgia do Instituto Hahnemanniano (que faz parte da UFRJ). Durante essa experiência, desenvolveu diversos trabalhos de pesquisa, entre eles um sobre a cirurgia do sistema nervoso simpático e seu efeito sobre a circulação colateral. A partir desse estudo, o médico descreveu a técnica de angiografia da aorta por cateterismo, que era feita com uma sonda vesical (material disponível na época), usada para injetar contraste na aorta. Foi por pouco que ele não realizou o primeiro cateterismo de artérias cerebrais. Sem medo de inovar, acabou se aprimorando como neurocirurgião de maneira autodidata. Em 1942, foi convidado a criar um Departamento de Neurocirurgia na Santa Casa da Misericórdia e, em 1945, inaugurou o primeiro América Latina destinado
à traumatologia neurológica, no Hospital de Pronto Socorro do Rio de Janeiro.

Workaholic assumido, Paulo Niemeyer realizou mais de 1.500 cirurgias ao longo de quase 70 anos de profissão. Ele sempre afirmava que seus hobbies eram estudar e trabalhar, especialmente na sala de cirurgia. Foi nesse ambiente que orientou centenas de residentes e contribuiu para a formação de várias gerações de neurocirurgiões brasileiros –seu maior orgulho. No dia 10 de março de 2004, estava em seu consultório, fazendo o que mais gostava, quando foi surpreendido por um rompimento em sua válvula mitral. Não resistiu e morreu, 30 dias antes de completar 90 anos. Deixou uma contribuição indelével para o estudo da neurociência brasileira que até hoje auxilia muitas pessoas.

5Dr. Paulo Niemeyer Filho, com o pai, Dr. Paulo Niemeyer Soares, na Santa Casa do Rio.

TRAJETÓRIA de Paulo Niemeyer Soares

  • 1914 – 14 de abril Nasceu no Rio de Janeiro
  • 1930 –  Aos 16 anos, é aprovado no vestibular para a Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, onde forma-se aos 22 anos
  • 1938 – Realiza a primeira transfusão de sangue conservado no país –até então, só se fazia transfusão direta
  • 1939 – Começa a trabalhar como cirurgião geral residente em prontos-socorros do Rio e de Niterói. É o primeiro colocado no concurso público para cirurgião-geral do Hospital de Pronto Socorro do Estado do Rio de Janeiro, que teve 270 candidatos.
  • 1942 – É convidado a criar o Departamento de Neurocirurgia da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro.
  • 1943 – Opera casos de neurinomas do acústico, preservando os nervos faciais e acústicos com o uso do microscópio cirúrgico.
  • 1945 – Cria o primeiro serviço de neurocirurgia da América Latina, no Rio de Janeiro, e começa a se dedicar à neurocirurgia funcional.
  • 1946 – Realiza as primeiras eletrocorticografias, trabalho de grande repercussão internacional na época.
  • 1949 – Recebe o prêmio Antonio Austregésilo, da Academia Nacional de Medicina, pela publicação do trabalho “Angiografia Cerebral Percutânea”.
  • 1949 – É um dos fundadores da LBE.
  • 1950 – Cria o Serviço de Neurocirurgia da Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio de Janeiro, que se torna centro de referência nacional de neurocirurgia.
  • 1953 – Publica os primeiros casos de aneurismas e más formações arteriovenosas cerebrais operados no Brasil, diagnosticados pelo método angiográfico.
  • 1955 – Realiza, pela 1º vez na América do Sul, uma cirurgia estereotáxica para o tratamento de Parkinson, o que lhe rendeu citações internacionais.
  • 1957 – Desenvolve uma nova técnica cirúrgica, chamada de amígdalo-hipocampectomia, que visa tratar as crises temporais nos casos de epilepsia.
  • 1971 – Depois de fazer um estágio na Suíça, realiza a primeira anastomose extra-intracraniana temporal superficial-cerebral média do Brasil, introduzindo no país a microneurocirurgia.
  • 1974 – Passa a utilizar o microscópio cirúrgico na amígdalo-hipocampectomia e realiza a 1ª cirurgia transesfenoidal da hipófise.
  • 1981 – É eleito membro honorário da Academia Nacional de Medicina.
  • 1991 – Recebe medalha de honra pela contribuição à neurocirurgia na América Latina, no Congresso Latino- Americano de Neurocirurgia, em Miami.
  • 1997 – Recebe, na Holanda, a medalha de honra da World Federation of Neurosurgical Societies.
  • 2004 – 10 de março – sente-se mal em seu consultório e morre no hospital, 30 dias antes de completar 90 anos.
  • 2013 – Hospital construído pela Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro recebe o nome de Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer e passa a ser gerido pela Organização Social de Saúde, Pró-Saúde.

 

LBE busca desmistificar doença

Conhecida desde a Antiguidade, a epilepsia foi, durante muito tempo, associada a forças sobrenaturais e à possessão espiritual ou demoníaca. Até as primeiras décadas do século XX, muitos médicos ainda associavam essa enfermidade à loucura, e os pacientes eram submetidos a tratamentos com anticonvulsivos e sedativos, ou eram internados em hospitais psiquiátricos para evitar o constrangimento da família diante das constantes crises e da discriminação.

Por tudo isso, sempre foi um diagnóstico de difícil aceitação. Para tentar desmistificar a doença, em 15 de maio de 1949, foi criada a Liga Brasileira de Epilepsia (LBE), que teve como primeiro presidente o neurocirurgião Paulo Niemeyer Soares. Associação civil sem fins lucrativos, reúne médicos e outros profissionais dedicados à saúde das pessoas com epilepsia. Sua missão é promover recursos para o ensino e a pesquisa, destinados a prevenção, diagnóstico e tratamento. De acordo com o Dr. Jaderson Costa da Costa, da PUCRS, as finalidades da instituição são dar assistência aos profissionais e melhorar com epilepsia, difundindo entre os leigos mais conhecimento sobre a doença, contribuindo, assim, para diminuir o preconceito.

Entre as atividades da LBE está a promoção de reuniões anuais e, a cada dois anos, a instituição oferece prêmios para os melhores trabalhos de médicos, pesquisadores e estudantes participantes dos encontros. Um dos prêmios, entregue desde 2004, leva o nome de Paulo Niemeyer e reconhece o mérito em neurocirurgia. A próxima edição será em abril de 2014.