Mamãe bem-informada

O período de gestação pode gerar muitas dúvidas e medos em algumas mulheres. Por isso, buscar orientação adequada é tão importante quanto realizar os exames do pré-natal. Dessa forma, a gestante poderá aproveitar ao máximo o momento do nascimento de seu filho

Rosemeire Sartori de Albuquerque, doutora em Saúde da Mulher pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e docente do curso de obs- tetrícia da Universidade de São Paulo (USP), defende que a mulher deve ser orientada para que possa fazer suas próprias escolhas em relação ao seu parto. A enfermeira obstetra e membro da diretoria do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, de São Paulo (SP), reconhe- ce que estamos vivendo um período de mudanças com relação ao tema e afirma que, apesar de ainda ter que melhorar em alguns pontos, o SUS (Sistema Único de Saúde) é uma fonte de bons exemplos nessa área.

Dra Rosemeire Sartori de AlbuquerqueQuais são as vantagens do parto normal?

Devemos começar do princípio que o parto deve ser normal. O corpo da mulher está preparado para isso. Só não deveria acontecer o parto normal em caso de compli- cações. No parto normal, a mulher não é submetida a um procedimento cirúrgico, ela vivencia o momento, participa. Ela tem a possibilidade de receber e acolher o bebê dela assim que nasce, se ele tiver nascido em boas condições. E ela não é submetida, na maioria das vezes, a nenhum procedimento que requeira repouso. Isso quer dizer que assim que ela terminar de dar à luz, já pode sair, andar, tomar banho, se alimentar e cuidar do seu bebê.
Quais são os medos da gestante em relação ao procedimento? A mulher brasileira teme a dor, ela tem medo de não tole- rar o processo de parturição. Por isso é preciso trabalhar bastante durante o pré-natal, para fazê-la entender o que é a gestação e o trabalho de parto. E saber que o corpo dela está preparado para o processo de nascimento, só que tem limiar de dor. É aí que vem a competência da equipe, que deve estar preparada para entender até onde a parturiente está tolerando aquele incômodo, porque ela pode ser submetida a uma analgesia. Mas, a maioria, quando preparada, não quer os analgésicos, porque sabe que isso vai limitar a sua verticalização e para favorecer o nascimento pela via transvaginal, é importante fazer a verticalização, que é colocar a mulher em pé, sentada. Então tudo isso, todo esse manejo, favorece o trabalho de parto normal. Há alguns anos, deixávamos a parturiente em jejum, no leito, em repouso. Hoje, não. Estimulamos a alimentação, andar, ficar muito no chuveiro para ativar a circulação e melhorar a oxigenação materno-fetal. Alémde ficar verticalizada, porque o peso do bebê favorece a sua descida.

Quais são os maiores mitos envolvendo o parto normal?

Com relação a mulher ser jovem e não poder fazer o parto normal, isso é um grande mito. Ser jovem não é indicação de cesárea. Pelo contrário. Quando você sub- mete uma mulher jovem a um procedimento cirúrgico, a uma cesárea, você está colocando -a em risco. Porque ela ainda tem uma vida reprodutiva longa e a chance do próxi- mo parto ser uma cesárea é grande e o terceiro ainda maior. Então, é preciso pensar bem no primeiro parto. O que temos que levar em conside- ração não é idade, mas, sim, o tipo constitucional — se ela tem a bacia formada, se o seu corpo está bem delimitado. É diferente do que se pensava há alguns anos, que ser jovem era indicação de cesárea. Assim como uma mulher de 30 anos pode ter uma bacia não obstétrica e ter a indica- ção de cesárea, porque se ela tiver um bebê maior, não terá condições para um parto normal.

E quando dizem que uma mulher que já fez a cesárea não pode ter um próximo parto normal?

Primeiro, precisamos desco- brir o real motivo da cesárea. Se ela tem um problema pélvico, então, sempre terá, porque o osso não vai mudar. Portanto, provavelmente, os partos subsequentes serão cesáreas. Se foi uma distócia funcional, ou seja, a contra- ção que não foi efetiva, não evoluiu para o parto normal, não quer dizer que no próxi- mo ela terá o mesmo pro- blema. Também temos que considerar o intervalo entre os partos. Acima de dois anos, é menos perigoso submetê-la a um parto normal depois de uma cesariana. Porém, duas cesáreas anteriores, já é bastante prudente que não se submeta esse útero a um trabalho de contração, porque há um risco de rotura uterina (rompimento de uma camada do útero). A cesárea é indica- da por sofrimento fetal, por risco materno ou do bebê e se ela já teve duas ou três cesáreas anteriores. Então, não é porque ela veio com só uma cesárea anterior que vamos indicar o que chamamos de cesárea iterativa. Não existe mais isso.

Você acha que a mulher ser esclarecida sobre tudo isso antes, facilita?

Sou docente do curso de obstetrícia da USP e percebo que estamos vivendo um pe- ríodo de mudanças. No pas- sado, fomos muito interven- cionistas e agora nós temos que tomar cuidado com o que fazemos. Eu sempre defendo que nós nunca tivemos que ser tão verdadeiros com a mulher. Não podemos ser ex- tremistas, ou seja, não pode- mos deixar de ajudar a mulher durante o parto, mas também não podemos partir sempre para a cesárea. Temos que achar um meio termo. Mas é importante ressaltar que a mulher tem que ser informa- da. Já existe uma parcela de gestantes que, mesmo tendo convênio médico, procura o SUS, ou o Leonor, por exem- plo, porque sabe que temos o centro de parto normal. São gestantes que sabem o que querem para o processo de parto. Ela sabe que aqui vai ser respeitada na sua vontade e que só vamos fazer uma ce- sárea se houver uma compli- cação. É isso que o SUS tem de grande diferencial.

No Sistema Único de Saúde (SUS), o que pode ser feito para melhorar os índices de parto normal?

O recomendado pela Orga- nização Mundial da Saúde é que apenas 15% dos partos sejam cesáreas. No SUS, estamos em torno de 30%. Mesmo assim, o número é bem melhor do que na rede privada, que em alguns hospitais a taxa de cesáre- as chega a quase 90% dos partos. Para melhorar ainda mais esse índice, temos que qualificar o pré-natal. Nós conseguimos aumentar o nú- mero de consultas pré-natal, mas ainda não o qualificamos. Muitas vezes, a mulher chega à maternidade com exames não realizados, ou realizados parcialmente, ou realizados, mas sem o resultado. Ela também chega desinformada. Precisamos preparar melhor a mulher para o parto para que ela participe desse processo. Outro ponto que poderia melhorar é informar com antecedência onde vai nascer o bebê dela. Então, quando chegar a hora do parto, ela não precisaria ficar peregri- nando pelos hospitais, por que isso atrapalha. Esse mo- delo já existe em alguns locais do Brasil e o SUS paulista está trabalhando para que isso aconteça também em São Paulo.

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