O paciente em primeiro lugar

Exemplos da regiões Norte e Sudeste mostram como os investimentos de organizações sociais podem mudar a realidade do atendimento na saúde pública cabeca

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma parceria público-privada na saúde tem como principal objetivo somar forças em prol daqueles que procuram por atendimento na rede pública. Além disso, quando iniciativa privada e governo se unem elas assumem, entre outros compromissos, o de fortalecer os serviços prestados e o de educar a população quanto ao seu papel na prevenção das enfermidades que os fazem buscar ajuda médica. Nos Estados do Rio de Janeiro e do Pará, esses resultados são alcançados através de um gerenciamento feito em 360 graus, cuja elaboração e aplicação tem uma única finalidade: a de proporcionar o melhor atendimento para o paciente.

Na opinião de Joan Costai-Font, professor associado de política econômica do Instituto Europeu da London School of Economics (LSE), a descentralização da gestão do sistema público de saúde viabiliza o atendimento focado nas necessidades de cada região. “Hospitais de países grandes como o Brasil devem ser administrados próximos ao paciente”, acredita o especialista que também é pesquisador do LSE na área de Saúde.

Pará: aproximação com os usuários

A questão da mobilidade era um dos fatores que dificultavam o acesso ao sistema público de saúde no Pará, onde o atendimento se concentrava em Belém, capital do estado. Isso começou a mudar no início do milênio com a construção de hospitais em outras regiões, a exemplo do Hospital Regional do Sudoeste do Pará (HRSP) que fica em Marabá, no sudeste paraense.

Voltado ao atendimento de média e alta complexidades, referência em traumato-ortopedia, o HRSP iniciou a parceria entre a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (SESPA) e a Pró-Saúde em outubro de 2006. Além do avanço no atendimento, a unidade investe no sentido de agregar mais qualidade aos serviços prestados. Um exemplo é a conquista da certificação Green Kitchen pela cozinha do hospital, por seus procedimentos sustentáveis. Em 2007 foi criado, na região sudoeste, o Hospital Regional Público da Transamazônica (HRPT), já no sistema de cogestão entre governo e Pró- Saúde – um dos sete hospitais públicos no País a receber o título de Acreditado II.

Ampliando a oferta de atendimento para os casos de alta complexidade, o governo do Pará construiu em Santarém o Hospital do Baixo Amazonas (HRBA) em 2006, que passou a ser gerenciado pela Pró-Saúde dois anos depois. É ali que a dona de casa Maria José Cruz de Sousa, 58 anos, realiza sessões semanais de quimioterapia para tratar um câncer. “Antes tínhamos que ir para outro local, muitas vezes sem condição financeira, ficando longe da família”, comenta ela. HRPT

HRBA

Em Ananindeua, região metropolitana de Belém, está instalado o Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), que recebe casos de média e alta complexidades e atende cerca de três milhões de habitantes. A unidade também atua em outras vertentes para ampliar e otimizar os serviços prestados. Uma delas é o Centro de Tratamento de Queimados (CTQ), único a atender os portadores de queimaduras na região Norte. Outra é o projeto “Classe Hospitalar”, uma parceria entre as secretarias de estado da Saúde e Educação para oferecer atividades escolares durante o período em que crianças e jovens estejam internados. Clara Leite Correa, 8 anos, paciente do HMUE há 4 anos, afirma que a liberdade de fazer atividades lúdicas, como desenhar e pintar, e o bom relacionamento com os colegas que participam do projeto, acaba tornando o local por vezes mais agradável que a própria escola.

Em fevereiro de 2014, o governo do Pará entregou o Hospital Público Estadual Galileu (HPEG), também em Ananindeua. Com perfil de público majoritariamente adulto, com 97% dos casos de traumato-ortopedia, a unidade serve como um hospital de retaguarda para os demais da região.

Os projetos com foco em humanização são um dos diferenciais no atendimento do Galileu. Um deles, o Âncora, faz do familiar um instrumento fundamental para a melhora do paciente (vide mais detalhes no box). O diretor operacional do Pará, Marcelo Bittencourt, explica como funciona a definição do parente. “A família elege quem tem a melhor condição para acompanhar, cuidar e ser treinado. Por isso que se chama “Âncora”: a família se apoia naquela pessoa para ela ser a referência”, comenta. Na avaliação de Hélio Franco de Macedo Junior, assessor especial do governo do estado para assuntos da saúde, a resolubilidade é o que legitima a escolha pela cogestão público-privada, com a administração por meio de Organizações Sociais de Saúde. “Um dos pressupostos do Sistema Único de Saúde é ter o serviço mais próximo de onde as pessoas moram e, de lá para cá, esses hospitais têm enviado pouquíssimos pacientes para Belém.São gerências que têm demonstrado na prática a vantagem de terem sido contratadas”, ressalta Junior.

Segundo o diretor operacional da Pró-Saúde no Pará, Paulo Czrnhak, mais um exemplo da efetividade na parceria entre governo e Pró- Saúde deverá se confirmar com o Hospital Oncológico Infantil (cujo funcionamento está previsto para o último trimestre do ano).

Conheça alguns projetos  que valorizam a humanização

HRSP

HRBA2

HEPEG

HMUE

HRPT2

Rio de Janeiro: profissionalização das UTIs

No Rio de Janeiro, de acordo com o diretor operacional da Pró-Saúde no Estado, Lafaete Teixeira, o trabalho nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) é o principal projeto nos hospitais públicos. Quando a Pró-Saúde iniciou a cogestão do primeiro hospital, em janeiro de 2013, o desafio foi fazer com que as UTIs funcionassem de maneira eficaz e harmoniosa. “Elaboramos um diagnóstico da situação e, de maneira geral, mantivemos as lideranças, mas adequamos a equipe médica à Regulamentação n. 07/2010 da Anvisa, que determina o quantitativo que uma unidade desse tipo deve ter”, informa o diretor médico das UTIs, Ederlon Rezende.

RJ1

A UTI Pediátrica do Hospital Carlos Chagas (foto) nasceu com o modus operandi da Pró-Sáude

As mudanças foram percebidas no Hospital Estadual Rocha Faria (HERF), localizada no bairro de Campo Grande, zona oeste carioca. Administrado pela Pró-Saúde desde 2012, o hospital tornou-se o primeiro da rede estadual a ser credenciado na Iniciativa Hospital Amigo da Criança, desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Um dos projetos nesse sentido é o Jovem Mãe, voltado a gestantes de até 18 anos, que orienta práticas que podem facilitar o parto e cuidados com o bebê. Participante do programa, a estudante Larissa dos Santos, de 14 anos, elogiou as orientações sobre amamentação e as visitas periódicas dos médicos da equipe.

Atendendo casos de alta complexidade, o Hospital Estadual Getúlio Vargas (HEGV), no bairro da Penha, intensificou a eficiência na prestação da assistência imediata – com destaque para a cirurgia vascular, cujo número de pacientes socorridos cresceu, de acordo com a administração do hospital. Além disso, a unidade criou um mecanismo para buscar atender os anseios dos moradores das comunidades da Penha e do Alemão. A administração da Pró-Saúde incluiu no Conselho Diretivo o líder comunitário Luís Cláudio dos Santos, que faz a ponte entre a população e o hospital. “Antes havia várias barreiras nesse contato com a direção do hospital, mas hoje as portas estão abertas”, garante ele. Localizado em Marechal Hermes, o Hospital Estadual Carlos Chagas (HECC) registrou melhora geral no desempenho, além de inaugurar as UTIs Pediátrica e de Adultos. “A Pró-Saúde viabilizou uma série de programas que nos ajuda a coletar os dados de modo seguro e, com isso, é possível oferecer uma saúde melhor”, afirma Rodrigo Barros, coordenador médico da UTI Adulto. Criando proximidade com os usuários, a equipe da UTI Pediátrica do HECC promove reuniões para explicar aos responsáveis pela criança o quadro de saúde e a proposta terapêutica. “Todos os procedimentos recebem a minha autorização, eles me explicam tudo e fico mais segura”, afirma Priscila Oliveira da Silva, que acompanha o filho de um ano, Eduardo, internado desde maio deste ano. Referência em maternidade de alto risco, o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes (HEAPN), na região metropolitana, apresentou ganhos expressivos em pouco mais de dois anos de gestão compartilhada. Um dos diferenciais do atendimento é a “Enfermaria da mãe”, espaço de descanso entre uma amamentação e outra. Outro é o Centro do Trauma, um dos poucos do gênero disponíveis no Rio de Janeiro. Os pacientes do HEAPN com quadro de saúde estabilizado, mas ainda impossibilitados de voltar para casa, são enviados para unidades de retaguarda, como o Hospital Estadual Anchieta (HEAN), no bairro do Caju, que atende várias especialidades. Vítima de um acidente de moto, Jonathan Oliveira dos Santos, de 17 anos, é um participante ferrenho dos projetos de humanização oferecidos pela unidade, sobretudo o de música, que traz artistas voluntários semanalmente. HEAN EXCELENCIA COMPROVADA NO IEC Por sua vez, o Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer (IEC), na região central da capital, realizou, em dois anos, mais de duas mil cirurgias em uma especialidade que até então tinha o seu atendimento disperso pelas unidades hospitalares do Rio de Janeiro: a neurocirurgia. A unidade também investe emações lúdicas para auxiliar na recuperação dos usuários. O grupo “Trupe da Alegria”, por exemplo, visita mensalmente o hospital com o objetivo de levar mensagens positivas a pacientes e acompanhantes. A agilidade e o permanente investimento em melhorias é o que faz da parceria público-privada uma escolha estratégica de acordo com Felipe Peixoto, secretário de Saúde do Rio de Janeiro. “Os mecanismos utilizados pelas OSS permitem uma gestão moderna e eficiente, aumentando o número de usuários atendidos e a qualidade dos serviços de saúde pública”. Segundo ele, atualmente 47 unidades da rede estadual operam sob o sistema de OSS, sendo 30 unidades de pronto atendimento.

Conheça algumas das ações especiais com foco na humanização

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