Volume alto nos fones de ouvido pode provocar surdez

Especialista revela o que pode ser feito para evitar a PAINPSE, problema que atinge não apenas trabalhadores expostos continuamente a ruídos ocupacionais, mas também quem tem o hábito de ouvir música em volumes elevados, como os adolescentes e jovens.

Cerca de 9,7 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência auditiva. Isso representa 5,1% do total de 190,7 milhões de pessoas que vivem no País. De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levantados pelo Censo de 2010, a deficiência auditiva severa foi declarada por mais de 2,1 milhões de pessoas. Destas, 344,2 mil são surdas e 1,7 milhão têm grande dificuldade para ouvir.

Uma das ocorrências mais comuns é a Perda Auditiva Induzida por Níveis de Pressão Sonora Elevados (PAINPSE). O problema pode atingir trabalhadores de diversos ramos de atividade, como as indústrias siderúrgica, metalúrgica, gráfica e têxtil. No entanto, o doutor Edson Ibrahim Mitre, presidente do Departamento Científico de Otorrinolaringologia da Associação Paulista de Medicina, alerta que a PAINPSE pode resultar da exposição a qualquer som de alta intensidade, até mesmo da música que escutamos em nossos celulares e demais dispositivos sonoros. “Todos esses fatores oferecem potencial risco de lesão acústica que, em alguns casos, é irreversível. ”

O trauma acústico que pode levar à PAINPSE também decorre de uma situação eventual, como o barulho do estouro de um rojão em um estádio de futebol ou a permanência prolongada em um local onde há uma furadeira em funcionamento.

É importante notar que existe a chamada alteração transitória de limiar auditivo. Por exemplo, quando uma pessoa vai a uma festa em que há música em alto volume, é comum que saia de lá com a sensação de que está ouvindo menos. Porém, no dia seguinte, quando as células nervosas da audição repousaram, ela volta a escutar normalmente. No entanto, Mitre explica que, se isso ocorrer com frequência – por exemplo, alguém que trabalhe com festas – pode se transformar na morte das células nervosas da audição, o que é irreversível e só pode ser corrigido com o uso de aparelhos auditivos.

 

Alguns cuidados par a prevenir o problema da PAINPSE

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O problema é que, hoje, mesmo os adolescentes de 12 ou 13 anos já apresentam perdas auditivas devido ao uso intenso de fones de ouvido.

“Vejo isso não apenas em meu consultório, mas nos de muitos colegas, onde chegam pacientes cada vez mais jovens. ” Segundo Mitre, os fones do tipo plug, que ficam inseridos no canal auditivo, são as piores escolhas. “Quanto mais próximo do canal auditivo, maior a intensidade sonora e o risco de lesão. Agora voltaram a ser usados os fones de concha, sob o argumento de que a qualidade sonora é melhor, mas nós, como profissionais, enxergamos como mais adequados. ”

O médico explica que, no Brasil, não existe legislação em relação à saída máxima de som. E qual é esse limite? “Qualquer intensidade sonora maior que 80 decibéis (dB) oferece risco. Eu faço campanha com meus filhos. Oriento e eles repassam essas informações aos amigos. Fico apavorado quando entro no elevador e alguém está ouvindo fone tão alto que nós podemos escutar”, diz Mitre.

É importante ficar atento aos sinais de que você pode estar com um problema auditivo. Os mais frequentes são: sensação de ouvido abafado, diferença de capacidade auditiva entre os dois ouvidos e zumbido agudo ou parecido com o barulho de chuva. “A lesão acontece de maneira gradual e nem sempre a pessoa se dá conta. Na maioria dos casos de lesão ocupacional, quem percebe são os familiares, ou porque a pessoa não escuta o que falam ou porque o volume da televisão está cada vez mais alto. A insônia e a irritabilidade podem ser outros sinais. Mas é muito raro a pessoa dizer que não está escutando. A maioria somente nota isso quando percebe um chiado ou zumbido. ”

Para os mais jovens, um sinal pode ser a piora no desempenho escolar. “Hoje, as escolas exigem testes de audiometria, mas fazem isso no primeiro ano e, depois, quando o problema pode realmente se manifestar, não é mais feito. Acredito que isso deveria ser alvo de uma campanha de saúde pública, nós fazemos algumas pela Sociedade Brasileira de Otologia, mas é preciso ampliar esse alcance. ”

 

Graus de perda auditiva

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Fonte: site da disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (adaptado).