JUNHO/JULHO
DE 2003
NÚMERO 41
ANO 4
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ENTREVISTA
 
Bruno Hoffmann

Fusões em alta

"Para os hospitais e uma boa opçao, para os pacientes depende do ponto de vista"

A área da saúde está passando por transformações importantes nas últimas décadas. Mas, um fenômeno surge principalmente nos Estados Unidos: as fusões de hospitais. Há grupos gigantescos naquele país que procuram, por esse meio, diminuir os custos e otimizar os serviços. A professora em MBA da Universidade de Pittsburgh, Esther Gal-Or, israelense radicada nos EUA desde 1977, é uma estudiosa, entre outros temas, da organização de mercados de saúde e fusão de hospitais. Ph.D. pela Northwestern Universitary, Esther passou três dias em São Paulo no final de maio para uma série de aulas em cursos de MBA. Notícias Hospitalares aproveitou essa rápida estada e entrevistou a professora na sala de reunião de um grande hotel da cidade, onde a professora falou sobre a questão das fusões e fez uma análise do panorama da admi-nistração hospitalar nos EUA.

NH - Quais as mudanças que os serviços de saúde têm passado nas últimas décadas?

Esther Gal-Or - Na questão dos convênios, dos pequenos aos grandes, houve grandes mudanças. Perceberam-se transformações significativas nos hospitais. Notamos que muitos hospitais fizeram fusões. Por exemplo, em Pittsburgh esses grupos dominam quase 80% do mercado. Eles compraram hospitais em volta da cidade e também consultórios médicos. Forma-ram grandes grupos.

NH - A fusão surge como uma nova tendência no ramo hospitalar?

Esther Gal-Or - Sim. Isso está acontecendo principalmente devido ao sistema de reembolso entre os hospitais e convênios.

NH - Quais são os pré-requisitos para implantação de modelos de fusão na área da saúde?

Esther Gal-Or - É como em qualquer outro. Nos EUA, há um órgão regulador que avalia a fusão. Então, quando uma empresa sugere uma fusão, ela é avaliada em duas dimensões: custo e eficiência e o que isso trará de vantagens à comunidade. Os hospitais precisam convencer esse órgão de que todos vão ganhar com a fusão. Depois, recebe ou não a apro-vação. Muitas vezes é aprovada somente parte da fusão.

NH - O Brasil tem um bom mercado para o modelo de fusão?

Esther Gal-Or - Temos que vê-la por dois aspectos. Para os hospitais, obviamente, é uma boa opção, devido ao poder de mercado que se conquista e à redução de custos. Para os consumidores, porém, ainda não é claro que seja vantajoso. Depende do ponto de vista. Por isso, é necessário que qualquer tipo de fusão passe pela avaliação de um órgão regulador.

NH - Os administradores hospitalares estão preparados para enfrentar essas mudanças?

Esther Gal-Or - Eles têm que estar preparados. Não é somente para melhorar a barganha. É para economia de dinheiro. Por exemplo, há um equipamento para diagnósticos, o MRI (scanner de ressonância magnética por imagem), cujo uso é muito caro. Um MRI pode servir tanto para uma ci-dade com 300 mil habitantes quanto para uma com meio milhão de pessoas. Então, as fusões existem para reduzir custos. Pois um MRI apenas pode dar conta de uma determinada população. Perde-se a necessidade de vários apare-lhos desses operando. As duas principais razões dessas fusões são a economia, pois não há necessidade de du-plicar os investimentos, e a melhora da barganha junto aos convênios. Em determinados casos, os hospitais negociam com o convênio qual seria o preço de uma operação, e o cirurgião, separadamente, também negocia com o mesmo convênio. Quando se trata de um grupo de hospitais, o convênio sabe que todos pertencem ao mesmo grupo. Então, os hospitais pedem um preço maior para ceder a sala de operação.

NH - Qual deve ser a interferência governamental na área da saúde privada?

Esther Gal-Or - Não deve haver interferência de nenhuma espécie. No caso dos EUA, o governo se preocupa apenas com o medicare (para pessoas acima de 65 anos) e o medicaid (para pessoas de baixa renda). O governo pode pressionar para que essas pessoas paguem menos aos convênios. Mas, salvo esses dois casos, o governo não deve ter nenhum outro tipo de interferência na saúde privada.

NH - Qual o percentual de pessoas sem cobertura médica pública nos EUA?

Esther Gal-Or - Há uma controvérsia. Cerca de 15% da população estão fora do medicaid. São os pobres que trabalham, que os desqualificam entre os miseráveis. Um outro grupo são de pessoas na faixa dos 20 anos, pois se supõem que não ficarão doentes, então não caem nem no grupo do medicare nem do medicaid. Eles têm ajuda, mas de uma maneira muito cara. Quando há necessidade, eles são encaminhados aos centros emergenciais. Quem trata desses centros são os médicos em residência. Esse é um modelo muito ineficiente, pois pessoas com pequenos problemas, como um resfriado, vão para esses centros de emergência. Desse modo, cria-se uma fração de pacientes que ninguém paga. Esse é o motivo do aumento de pagamento aos convênios, pois, quem pode, paga também por essa parcela que é atendida gratuitamente.

NH - O Brasil investe cerca de 5% do PIB na área da saúde e os EUA, 12%. Como a Sra. analisa essa diferença?

Esther Gal-Or - Nos EUA, os custos na área da saúde são muito altos. Os norte-americanos exigem acesso à tecnologia de ponta, não estão interessados na racionalização da saúde. Então, há motivos para o investimento por lá ser de 12%. Comparado a outros países, os EUA estão no topo em questão de medicina.

NH - O serviço de homecare americano vem passando por um momento de crise?

Esther Gal-Or - Em parte. O homecare atende, na maioria dos casos, o medicare. O governo é um pouco avarento. O orçamento e o repasse governamental para o serviço vêm diminuindo e por isso o homecare deve ter passado por um período de baixa. Espera-se muita coisa do homecare, pois o dinheiro vem do governo. O orçamento do governo vem diminuindo e isso afeta o reembolso do medicare.

NH - O sistema hospitalar dos EUA ainda é o mais avançadao mundo?

Esther Gal-Or - Depende. Se a pessoa faz parte do nào-segurados, certamente nào. Mas se é segurado, receberá o melhor tratamento do mundo. Por exemplo, no Canadá há a medicina social, providenciada pelo governo. Caso alguém precise de um cirurgia de catarata, o paciente espr alguns meses por ela. Mas, como são vizinhos dos EUA, pacientes atrassam a fronteira e fazem a cirugia o EUA. Mas, insisto, nos EUA há uma forte diferença entre os que são segurados e os que nào sào. O mercado da saúde e difícil, apresenta muitas imperfeições. Como os pacientes não pagam o total da conta, devido ao seguro, os médicos passam a dar tratamentos excessivos. Se alguém tem uma doença, médicos fazem milhões de testes, e isso aumenta o preço do tratamento. Por outro lado, se nào fizessem isso o tramento nào seria tão bom quanto é atualmente.

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