Administrador
de empresas e presidente do Conselho da Pró-Saúde.
UTI
na emergência
Recentemente,
um assunto dominou toda a mídia nacio-nal, com a morte de vários
pacientes em hospital público de Fortaleza, no Ceará, por
alegada falta de leitos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Gritas
de toda parte, ameaças do Ministro da Saúde, explicações
das entidades representativas, enfim, um assunto que consumiu muita tinta
de jornal, muitas horas de televisão, muito tempo de autoridades
e de representantes do setor.
Porém,
o essencial não foi perguntado, e muito menos respondido: por que
se chegou a essa situação?
Se formos responder a tal pergunta invariavelmente iremos concluir que
os fatos noticiados não são novidade e têm origem
muito distante de uma sala de UTI. Em primeiro lugar, deve-se destacar
que o Brasil não atinge o percentual de 10% recomendado pela Organização
Mundial de Saúde (OMS) para leitos de UTI. Mas, esse não
é um ponto fundamental para solução da crise em pauta,
pois, mesmo que ultrapassasse esse percentual, o país poderia continuar
a ter problemas de falta de leitos para o tratamento intensivo. E por
que isso? Com exceção dos casos de pacientes que adentram
uma UTI em razão de acidentes, o restante é de pessoas que
têm o agravamento de sua saúde ao longo da própria
vida e, se nos aprofundarmos nessa análise, veremos pacientes que
chegaram aos hospitais extremamente debilitados por não terem tido
oportunidade de passar por uma etapa preventiva, ou, se a tiveram, não
puderam mantê-la por falta de condições em adquirir
os medicamentos recomendados.
Outro ponto a ser destacado é a extrema deficiência de leitos
semi-intensivos. Se esses existissem na quantidade necessária,
evitariam a sobrecarga da UTI (que nem sempre é a solu-ção
mais indicada) e conseguiríamos equilibrar as internações
dentro dos critérios de gravidade na escala correta. Com isso,
nos deparamos com situa-ções em que temos na unidade de
tratamento intensiva pacientes ocupando espaço que deveria estar
reservado a alguém que efetivamente necessitasse dele. Pessoas
que ali se encontram pelo fato de o hospital não possuir outra
forma de acomodá-las.
É válido lembrar que a UTI não é um local
milagroso e que dependendo de todas as circunstâncias que motivaram
a internação nesse setor, ainda assim, o paciente sucumbe
independente dos cuidados, equipamentos, me-dicação etc.,
que possam ser oferecidos.
Assim, concluímos que UTI é um setor essencial e necessário
na rede hospitalar. Mas, uma política bem desenvolvida com medicina
preventiva, medicamentos acessíveis à população,
desenvolvimento de leitos semi-intensivos, tudo isso revestido de ações
que remunerem os hospitais pela sua produção, em valores
reais, quer pelo Sistema Único de Saúde (SUS), quer pelos
planos de saúde, fariam seguramente com que se evitasse o aumento
de leitos para tratamento intensivo. Muitos pacientes que hoje ali são
instalados não o seriam pela simples razão de não
necessitarem dos cuidados de uma UTI.
Se conseguirmos avançar em direção às diretrizes
preconizadas, teremos no futuro uma UTI como devem ser: locais em que
se receberão pacientes para podermos nos dedicar a sua cura sem
pressa, utilizando-se de tecnologia cada vez mais especializada. Acima
de tudo, com humanidade.
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