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Luciana
Andrade da Silva Triste realidade Desligo o telefone. Sorrio. Talvez para não chorar diante da situação alarmante pela qual passa a saúde nacional. E eu não estou falando da saúde pública. Do outro lado da linha, uma atendente de convênio. Uma moça simpática que me solicitou o quarto relatório para liberação do procedimento cirúrgico para minha paciente, uma senhora com fratura de punho há “apenas” duas semanas. Desta vez, a jovem atendente queria uma descrição detalhada do mecanismo de trauma que teria levado a digna senhora a apresentar fratura tão grave. Tentei argumentar que não estava presente no momento da queda, que sabia apenas o que a paciente tinha me relatado, que isso não era obrigação médica etc. Tudo em vão! A doce moçoila insistia que só desta maneira poderia ser descartada uma doença de base. Doença de base? É. Consta que a paciente fazia reposição de cálcio, tinha exame que mostrava osteoporose e fazia acompanhamento com ortopedista. Indignação completa de minha parte. Quer dizer que uma mulher com mais de 60 anos, que faz uma densitometria óssea que mostra osteoporose, que faz reposição de cálcio, tem que tomar todo cuidado do mundo para não cair e ter uma fratura de punho grave, pois pode não ter cobertura do seu convênio particular devido a uma doença de base? Preexistente? Então,
nós mulheres (todas teremos certo grau de osteoporose na terceira
idade) estamos descobertas pelos nossos planos de saúde em caso
de trauma com fratura? Para minha surpresa, em 24 horas o procedimento estava liberado. Teriam sido os meus outros três relatórios ou a descrição tragicômica da queda da paciente aos responsáveis pela liberação? Prefiro apenas sorrir. Lembro-me de um colega. Caminhava ele pelos corredores do hospital, indignado com a suspensão do seu procedimento médico – retirada de uma prótese infectada – em uma paciente de mais de 80 anos internada há mais de dois meses, acompanhada diariamente pela equipe multidisciplinar de saúde. Ele encontra uma enfermeira que assim se identifica e se diz representante de um convênio. Ela lhe comunica que o procedimento não será liberado e que o melhor agora é dar alta à paciente. Vocês podem achar que estou exagerando, mas é essa a realidade com a qual estamos convivendo diariamente: profissionais com pouca ou nenhuma qualificação na área médica especializada, ordenando conduta aos médicos dos pacientes! Incluem-se nesse grupo médicos de seguradoras que aprovam, recusam e discutem condutas e procedimentos que muitas vezes sequer co-nhecem, esquecendo-se de algumas regras do Código de Ética Médica. À beira de um leito, outro colega ortopedista diante de um caso grave que acompanhava havia três meses e cujo auditor do convênio vinha interferindo e solicitando alta do paciente diariamente. O colega apresentou o auditor ao paciente como sendo quem conti-nuaria o seu tratamento, pois, afinal, o cidadão parecia conduzir o caso melhor que ele. O colega saiu do quarto, deixando a família em polvorosa e o auditor atordoado. O caso estava passado. Agora, o auditor podia dar a alta no momento em que quisesse, assinando o prontuário! Que medicina é essa? O que estamos fazendo? E aquela tão estudada, explicada e discutida relação médico-paciente? Chega o momento do grande público, aquele mais interessado, o paciente, ter co-nhecimento das situações a que estamos sendo submetidos. Quem
sabe a união do médico com o paciente possa alterar essa
verdadeira batalha que se trava por trás das cortinas desse grande
palco que é o hospital. contato: www.ombro.med.br |