Junho
DE 2005
NÚMERO 47
ANO 4
Capa | Saúde Geral | Contato

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HUMANIZAÇÃO
 
Felipe Mello

Felipe Mello
Diretor da ONG Canto Cidadão

Amenizar ao invés de humanizar

Envelhecer é um processo natural, evolução lógica da existência. Adoecer é um processo natural, fruto do desgaste da máquina humana. Ser hospitalizado é um processo natural, fundamental para que a doença seja devidamente entendida e tratada, em busca da continuidade do processo natural de envelhecimento. Direcionar, no ambiente hospitalar, o processo conhecido como humanização à criança e ao adolescente não é um processo natural, tampouco salutar. Na verdade, trata-se de um fenômeno relacionado à cultura ocidental, que em larga escala prioriza a atenção aos pequenos, em detrimento daqueles que já percorreram um longo caminho.

Não se trata de defender a ausência ou diminuição de cuidados a um determinado segmento da população, mas sim empregar o bom senso para ajustar a intensidade e freqüência de atenção às necessidades apresentadas por quem é cuidado. Em termos pragmáticos, a observação vem mostrando que as iniciativas de humanização hospitalar têm como foco prioritário as alas pediátricas, com a organização de verdadeiros espetáculos circences e artísticos para as crianças internadas. Ninguém discute a positividade desse tipo de esforço, sendo estupidez e miopia a sua condenação. A questão é a proposição de uma reflexão baseada em números e sentimentos.

Em termos numéricos, observa-se que a grande maioria da população hospitalar – incluindo-se profissionais e visitantes – é formada por adultos e idosos. Estatísticas coletadas em diversos centros de saúde apontam que a relação é de aproximadamente 85 a 90% de adultos e idosos e 10 a 15% de crianças e adolescentes. Mesmo em instituições de saúde focadas no atendimento pediátrico, a maior parte de seus freqüentadores é adulta. Ainda assim, diuturnamente surgem novas e, diga-se de passagem, louváveis, ações direcionadas às crianças e adolescentes hospitalizados, enquanto que ainda rareiam empreendimentos sociais e humanitários que tenham como foco o adulto e, especialmente, o idoso internado, assim como os profissionais da saúde, mesmo que todos, indistintamente, sejam e estejam passíveis de sofrer com o implacável estresse hospitalar.

Além dos números, a visitação hospitalar contínua proporciona uma capacidade de observar com esmero e tecer comentários acerca dos sentimentos e sensações que fluem pelos corredores, obviamente emanados de corações e almas teme-rosas que repousam sobre leitos, muitas vezes áridos, de hospitais públicos periféricos, em muitos dos quais a visita familiar é artigo de luxo. A ausência de acompanhantes é fator que atinge em grande escala os idosos, que em determinados casos ficam meses sem receber qualquer tipo de atenção externa, ficando restritos aos procedimentos médico-hospitalares. Ao chegar perto desses senhores e senhoras que permanecem dias e noites internados, é possível verificar um misto de angústia e medo, decorrentes da consciência do momento vivido. Nisso reside mais um argumento para rever a forma como são conduzidos os processos de humanização hospitalar, uma vez que o idoso, freqüentemente, tem plena consciência do que está se passando, enquanto que a criança é poupada do completo entendimento.

Exatamente pelos motivos expostos é que os conceitos e práticas de humanização hospitalar precisam ser atualizados. Mais do que um atendimento ao paciente acamado, notadamente o infantil, o movimento deve contemplar uma intervenção ambiental, no qual todos aqueles que freqüentam o hospital se tornem “alvo” de ações amenizadoras. Assim, por quê não amenizar em vez de humanizar? Afinal, cria-se uma profunda in-flexão de cunho filosófico quando o objetivo é humanizar o que já é humano. E se a resposta é dizer que o comportamento de fulano ou sicrano é desumano, há uma fuga da raiz do problema, que é a ambivalência bem e mal que está visceralmente associada ao ser humano.

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