Junho
DE 2005
NÚMERO 47
ANO 4
Capa | Saúde Geral | Contato

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Economista, coordenadora acadêmica do MBA em Economia e Gestão das organizações de Saúde da PUC=SP
Médico, coordenador técnico do MBA em Economia e Gestão das Organizações de Saúde da PUC-SP
MBA
 
Maria Cristina Amorim e Eduardo Perilo





Se oriente, doutor

Você entra em uma agência bancária, dirige-se ao funcionário sentado à mesa na qual há uma plaqueta com a palavra ‘informações’ e pergunta, por exemplo, pelos seus extratos de conta corrente que há três meses não lhe são enviados e que, após suas reclamações por telefone, prometeram-lhe que estariam disponíveis na agência naquela data. O funcionário que lhe atende não sabe da história (você tem que explicar), não sabe onde poderiam estar os papéis e, naturalmente, passa a bola para outro que, por sua vez, também não sabe do que se trata, obrigando-o a repetir a explicação e, naturalmente, também não sabe de nada. Lá pela quarta vez, indignado e irritado, dizem-lhe: “ok, vamos pedir novamente, e dentro de uma semana o senhor passe outra vez aqui, para retirar os extratos”.

Muitos bancos gastam fortunas com marketing para tentar convencer clientes efetivos e potenciais do quando serão felizes se utilizarem os serviços e coisa e tal e, no entanto, reduzem funcionários, não investem na qualificação das pessoas, cometem todas as barbáries com o cliente. Ora, os bancos estão entre as empresas mais lucrativas da economia brasileira, beneficiários que são das elevadíssimas taxas de juros garantidas pelo governo. Podem se dar ao luxo de tratar mal o cliente. Além disso, o cliente rico é tratado de forma especialíssima, no tal de private bank.

Muitos médicos têm atitude parecida à dos bancos de varejo, relativamente à condução de suas atividades profissionais. Não, não estamos sugerindo que tratam mal seus pacientes. Tratam mal seus negócios: controle de custos para além do corte de despesas, análise da economia para definir as estratégias de longo prazo da carreira? “Ah, não, isto não é comigo! Eu tenho que ser um bom médico, estar atualizado com a tecnologia”. Diferentemente dos bancos, o profissional não tem para quem empurrar a responsabilidade pelas ações que definirão seu futuro e não se beneficiam de conjuntura econômica favorável. Os gastos com o consultório consomem todos os recursos, nada sobra para a qualificação em negócios, que afinal, não é assunto para médicos.

Há muito sabemos que a vida em sociedade não permite neutralidade de posicionamento. Poucas afirmações são tão ingênuas quanto a célebre “não entendo de política e não me meto nisso”. Entender não entende mesmo, ou não diria tal coisa, mas está metido na vida política, goste ou não, da pior forma possível: pela omissão, que deixa espaço à pilantragem. Da mesma forma a evolução da economia capitalista, gostemos ou não, transforma quase tudo em mercadoria e negócio, demandando crescentemente conhecimentos especializados. Não basta trabalhar, é preciso saber investir o dinheiro ganho com o trabalho. Você já notou a profusão de produtos para aplicações financeiras? Lembra-se quando só havia caderneta de poupança e certificados de depósitos bancários (CDB)? Você já parou para pensar que quanto maior o “mico” de um produto financeiro, maior a comissão do gerente?

Parodiando o genial Gilberto Gil (hoje, sua excelência, o Ministro da Cultura), “se oriente, rapaz”! Não dá mais para evoluir profissionalmente sem entender de economia, de política, de gestão. Em tempo, o conhecimento nestas áreas não é inacessível e complicado, por mais que o vocabulário técnico às vezes nos sugira.

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