Consultor, professor
de Lingua portuguesa e advogado em São Paulo
Fi-lo
porque qui-lo
Em nome da gramática, nem sempre a colocação
pronominal correta é a mais bonita
Amigos, colocação pronominal é coisa de gente grande.
Pilretes aqui não entram! “Fi-lo porque qui-lo”, dizia
o nosso ex-presidente Jânio Quadros. O homem da “vassourinha”
tinha lá os seus defeitos, pois não! Em verdade, seus críticos
mais acerbos e contumazes insistiam e insistem que ele os possuía
em profusão. Exagero por certo, mister reconhecer que os homens
haverão de mostrar-se sempre como um ser dividido. Metade claro,
metade escuro. Ora santo, ora demônio. Duas partes diferentes de
uma mesma maça que convivem no todo. Enfim, um vinho com boas e
más safras. Aliás, permitam-me meus leitores, esta última
metáfora não deveria estar presente no texto. Mas, diabos,
agrada-me esta imagem que trago recorrente.
Voltemos ao assunto. Jânio, ha-vemos de reconhecer, e eis uma de
suas virtudes, conhecia “a última flor do Lácio, inculta
e bela” como poucos. Célebres eram as suas tiradas gramaticais
durante os debates de que ele participava e que antecediam os pleitos.
Azucrinava seus pobres adversários políticos não
lhes contestando as idéias político-administrativas, mas
corrigindo-lhes o vernáculo.
- O senhor está a proferir diatribes, disse-lhe certa vez um oponente,
sugerindo que estivesse a falar mentiras.
- Diatribes, caro senhor, respondeu-lhe o “vassourinha”, é
uma crítica contundente; escrito ou discurso violento e injurioso.
Portanto, convém que Vossa Excelência consulte um dicionário
antes de pronunciar-se.
E o coitado do fulano ficava sem saber onde enfiar a cara. A vergonha
e a derrota estampadas no rosto rubicundo. Assim era Jânio. Em Direito
diríamos que não lhe importava discutir o mérito
da questão, satisfazia-se em examinar-lhe o aspecto processual.
Invariavelmente, saia-se muito bem. Seus concorrentes que o digam!
Elegeu-se prefeito da cidade de São Paulo, governador de estado.
E o presidente mais votado da história do Brasil. Todavia, renunciou,
dirão alguns algozes. É verdade. Bem, o fato pode ser facilmente
creditado ao rol de suas fraquezas.
O senhor está fugindo do assunto, afirma o meu complacente e já
inquieto editor. Dar-lhe-emos razão. Façamos a sua vontade.
O que quero dizer é o seguinte. A frase “fi-lo porque qui-lo”,
em que pese a excelência gramatical de seu autor, apresenta grave
defeito de colocação pronominal. Erro, desatenção,
licença poética do escritor. Não sei. Prefiro creditá-la
àquela faceta falível a que todos nós, pobres mortais
como Jânio, estamos sujeitos.
Expliquemos a questão. A partícula “porque”,
no contexto em que se insere, é conjunção subordinativa
causal. Ela, como todas conjunções subordinativas, exerce
força atrativa sobre o pronome oblíquo e dessa forma nos
obriga ao emprego da próclise. Logo o correto haverá de
ser: fi-lo porque o quis.
Concordo, leitor, lá se foi o encanto da frase. Ficou feio. Paciência.
Nem sempre o belo é o correto. Entretanto, mister ressaltar que
a colocação pronominal do início do período:
“fi-lo” é corretíssima. Justifica-se pela impossibilidade
de iniciar-se uma oração, qualquer que seja, através
de um pronome complemento. Lemos amiúde e ouvimos notadamente na
linguagem oral cotidiana frases como estas: “Me diga a verdade”;
“Me faça um favor”. Infelizmente são construções
gramaticais incorretas que devem ser evitadas a todo custo. Pronuncie
com a sobriedade dos justos: “Diga-me a verdade”; “Faça-me
um favor”.
Há ainda outros casos que implicam o uso imperativo da próclise.
Entre eles podemos citar a força atrativa executada pelas palavras
de cunho negativo (não; nunca; nem; nenhum; ninguém...)
em orações como os exemplos: “Não me venha
com promessas vãs.”; “Nunca me diga uma mentira, menino.”
Os advérbios igualmente nos obrigam a tal colocação:
“Aqui se trabalha muito.”; “Hoje me livrarei de meus
infortúnios.”.
Os pronomes relativo, demonstrativo, indefinido, também figuram
como partículas gramaticais exigentes da próclise: “A
pessoa a que me refiro morreu.”; “Este nos falou de seus mais
íntimos desejos.”; “Alguém nos viu no teatro
ontem.”. E assim por diante.
As orações ditas optativas, ou seja, exprimem um desejo,
tradicionalmente se expressam através da próclise: “Deus
nos guarde.”; “Macacos me mordam.”. E venhamos e convenhamos,
este último é insólito, mas é um desejo.
Agora falemos um pouco a respeito da mesóclise. Muitos a criticam
por julgarem-na, erradamente, anacrônica colocação
de pronome. Algo do tempo do onça. Não partilho dessa opinião.
Em verdade, considero-a estética construção gramatical.
Uma pequena escultura plástica e altiva a valorizar o seu empregador.
Parece-me que aquele que dela se utiliza escapa, por breves instantes,
do limbo da mediocridade e adentra o restrito e seleto círculo
dos bem-aventurados de espírito e dos bem-falantes do idioma pátrio,
é claro. “Dir-te-ia a verdade, se o merecesse.”. De
fato. Ter o diáfano direito à verdade é uma conquista
e um privilégio.
A fim de que façamos jus ao emprego da tmese, necessário
o verbo no futuro. Ora do presente, ora do pretérito. “Poder-me-ia
presentear com um aumento de salário.”. “Dar-te-ei
porque fazes jus.”. Não há que discutir. Merecido
e concedido.
Há casos em que, embora a forma verbal apresente-se no futuro,
notamos na oração a figura de uma partícula gramatical
atrativa da próclise. Qual é a forma correta? “Não
me darias um copo com água.”. Ou “Não dar-me-ias
um copo com água.”. Como proceder?
Em tais casos, a força da palavra atrativa mostra-se superior à
beleza escultural da mesóclise. O correto é “Não
me darias um copo com água.”. Assim haverá de ser
sempre quando se fizer presente termo determinante da próclise
como o advérbio; os pronomes citados; a palavra de cunho negativo
e assim por diante.
Por fim, há ainda uma questão final. Obviamente meus leitores
hão de compreender a ausência de pretensão desta humilde
coluna de, em tão curto espaço, esgotar tal complexo assunto.
Busca-se, a bem da verdade e como soe ocorrer, apresentar algumas dicas
pertinentes ao tema que se examina no momento. Bem, deixemos de milongas
e vamos a ele. E se a oração não evidenciar forma
verbal no futuro (caso da mesóclise), nem termo que implica uso
obrigatório da próclise? Lembro-me de um exemplo, direi,
emblemático, visto que comum: “Ele me entregou o livro.”.
Ou “Ele entregou-me o livro.”.
Não façamos disso uma tragédia. A vida já
é, por si mesma, uma peça de enredo complicado. Facilitemos,
pois, o seu curso. A colocação, em tais casos, é
livre. Pode-se dizer sem medo de enrolar a língua: “Ele me
entregou o livro.”. Ou “Ele entregou-me o livro.”. Contudo,
há uma ressalva. A ênclise é exemplo de colocação
pronominal, caso não haja preceito gramatical a impedir-lhe o emprego,
clássica. Melhor, pois. “Ele entregou-me o livro.”.
Grandes escritores da língua portuguesa, reconhecidos pela pureza
gramatical como Machado e Vieira, assim o professam. Tenha em mente, meu
estimado leitor, use-a. O ouvinte ficará impressionado.
Recordo-me novamente do presidente com arroubos de caudilho: “Bebo
porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”.
Fecho os olhos e vejo-o cavalgando em enfeitado e reluzente cavalo. De
madeira. E tenho dito.
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