MAIO
DE 2004
NÚMERO 44
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COMUNICAÇÃO
 
Richard Mascaro

Consultor, professor de Lingua portuguesa e advogado em São Paulo

Fi-lo porque qui-lo

Em nome da gramática, nem sempre a colocação
pronominal correta é a mais bonita

 


Amigos, colocação pronominal é coisa de gente grande. Pilretes aqui não entram! “Fi-lo porque qui-lo”, dizia o nosso ex-presidente Jânio Quadros. O homem da “vassourinha” tinha lá os seus defeitos, pois não! Em verdade, seus críticos mais acerbos e contumazes insistiam e insistem que ele os possuía em profusão. Exagero por certo, mister reconhecer que os homens haverão de mostrar-se sempre como um ser dividido. Metade claro, metade escuro. Ora santo, ora demônio. Duas partes diferentes de uma mesma maça que convivem no todo. Enfim, um vinho com boas e más safras. Aliás, permitam-me meus leitores, esta última metáfora não deveria estar presente no texto. Mas, diabos, agrada-me esta imagem que trago recorrente.

Voltemos ao assunto. Jânio, ha-vemos de reconhecer, e eis uma de suas virtudes, conhecia “a última flor do Lácio, inculta e bela” como poucos. Célebres eram as suas tiradas gramaticais durante os debates de que ele participava e que antecediam os pleitos. Azucrinava seus pobres adversários políticos não lhes contestando as idéias político-administrativas, mas corrigindo-lhes o vernáculo.

- O senhor está a proferir diatribes, disse-lhe certa vez um oponente, sugerindo que estivesse a falar mentiras.
- Diatribes, caro senhor, respondeu-lhe o “vassourinha”, é uma crítica contundente; escrito ou discurso violento e injurioso. Portanto, convém que Vossa Excelência consulte um dicionário antes de pronunciar-se.

E o coitado do fulano ficava sem saber onde enfiar a cara. A vergonha e a derrota estampadas no rosto rubicundo. Assim era Jânio. Em Direito diríamos que não lhe importava discutir o mérito da questão, satisfazia-se em examinar-lhe o aspecto processual. Invariavelmente, saia-se muito bem. Seus concorrentes que o digam!

Elegeu-se prefeito da cidade de São Paulo, governador de estado. E o presidente mais votado da história do Brasil. Todavia, renunciou, dirão alguns algozes. É verdade. Bem, o fato pode ser facilmente creditado ao rol de suas fraquezas.

O senhor está fugindo do assunto, afirma o meu complacente e já inquieto editor. Dar-lhe-emos razão. Façamos a sua vontade.

O que quero dizer é o seguinte. A frase “fi-lo porque qui-lo”, em que pese a excelência gramatical de seu autor, apresenta grave defeito de colocação pronominal. Erro, desatenção, licença poética do escritor. Não sei. Prefiro creditá-la àquela faceta falível a que todos nós, pobres mortais como Jânio, estamos sujeitos.

Expliquemos a questão. A partícula “porque”, no contexto em que se insere, é conjunção subordinativa causal. Ela, como todas conjunções subordinativas, exerce força atrativa sobre o pronome oblíquo e dessa forma nos obriga ao emprego da próclise. Logo o correto haverá de ser: fi-lo porque o quis.

Concordo, leitor, lá se foi o encanto da frase. Ficou feio. Paciência. Nem sempre o belo é o correto. Entretanto, mister ressaltar que a colocação pronominal do início do período: “fi-lo” é corretíssima. Justifica-se pela impossibilidade de iniciar-se uma oração, qualquer que seja, através de um pronome complemento. Lemos amiúde e ouvimos notadamente na linguagem oral cotidiana frases como estas: “Me diga a verdade”; “Me faça um favor”. Infelizmente são construções gramaticais incorretas que devem ser evitadas a todo custo. Pronuncie com a sobriedade dos justos: “Diga-me a verdade”; “Faça-me um favor”.

Há ainda outros casos que implicam o uso imperativo da próclise. Entre eles podemos citar a força atrativa executada pelas palavras de cunho negativo (não; nunca; nem; nenhum; ninguém...) em orações como os exemplos: “Não me venha com promessas vãs.”; “Nunca me diga uma mentira, menino.” Os advérbios igualmente nos obrigam a tal colocação: “Aqui se trabalha muito.”; “Hoje me livrarei de meus infortúnios.”.

Os pronomes relativo, demonstrativo, indefinido, também figuram como partículas gramaticais exigentes da próclise: “A pessoa a que me refiro morreu.”; “Este nos falou de seus mais íntimos desejos.”; “Alguém nos viu no teatro ontem.”. E assim por diante.
As orações ditas optativas, ou seja, exprimem um desejo, tradicionalmente se expressam através da próclise: “Deus nos guarde.”; “Macacos me mordam.”. E venhamos e convenhamos, este último é insólito, mas é um desejo.

Agora falemos um pouco a respeito da mesóclise. Muitos a criticam por julgarem-na, erradamente, anacrônica colocação de pronome. Algo do tempo do onça. Não partilho dessa opinião. Em verdade, considero-a estética construção gramatical. Uma pequena escultura plástica e altiva a valorizar o seu empregador. Parece-me que aquele que dela se utiliza escapa, por breves instantes, do limbo da mediocridade e adentra o restrito e seleto círculo dos bem-aventurados de espírito e dos bem-falantes do idioma pátrio, é claro. “Dir-te-ia a verdade, se o merecesse.”. De fato. Ter o diáfano direito à verdade é uma conquista e um privilégio.

A fim de que façamos jus ao emprego da tmese, necessário o verbo no futuro. Ora do presente, ora do pretérito. “Poder-me-ia presentear com um aumento de salário.”. “Dar-te-ei porque fazes jus.”. Não há que discutir. Merecido e concedido.

Há casos em que, embora a forma verbal apresente-se no futuro, notamos na oração a figura de uma partícula gramatical atrativa da próclise. Qual é a forma correta? “Não me darias um copo com água.”. Ou “Não dar-me-ias um copo com água.”. Como proceder?
Em tais casos, a força da palavra atrativa mostra-se superior à beleza escultural da mesóclise. O correto é “Não me darias um copo com água.”. Assim haverá de ser sempre quando se fizer presente termo determinante da próclise como o advérbio; os pronomes citados; a palavra de cunho negativo e assim por diante.

Por fim, há ainda uma questão final. Obviamente meus leitores hão de compreender a ausência de pretensão desta humilde coluna de, em tão curto espaço, esgotar tal complexo assunto. Busca-se, a bem da verdade e como soe ocorrer, apresentar algumas dicas pertinentes ao tema que se examina no momento. Bem, deixemos de milongas e vamos a ele. E se a oração não evidenciar forma verbal no futuro (caso da mesóclise), nem termo que implica uso obrigatório da próclise? Lembro-me de um exemplo, direi, emblemático, visto que comum: “Ele me entregou o livro.”. Ou “Ele entregou-me o livro.”.
Não façamos disso uma tragédia. A vida já é, por si mesma, uma peça de enredo complicado. Facilitemos, pois, o seu curso. A colocação, em tais casos, é livre. Pode-se dizer sem medo de enrolar a língua: “Ele me entregou o livro.”. Ou “Ele entregou-me o livro.”. Contudo, há uma ressalva. A ênclise é exemplo de colocação pronominal, caso não haja preceito gramatical a impedir-lhe o emprego, clássica. Melhor, pois. “Ele entregou-me o livro.”. Grandes escritores da língua portuguesa, reconhecidos pela pureza gramatical como Machado e Vieira, assim o professam. Tenha em mente, meu estimado leitor, use-a. O ouvinte ficará impressionado.

Recordo-me novamente do presidente com arroubos de caudilho: “Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”. Fecho os olhos e vejo-o cavalgando em enfeitado e reluzente cavalo. De madeira. E tenho dito.

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