MAIO
DE 2004
NÚMERO 44
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CRÔNICAS MÉDICAS
 
Stanley Baptista de Oliveira

Médico e Escritor


A Casa Velha


A janela aberta para o quintal, os pés de carambola, o morro do cemitério lá no fundo, o passado que se foi
ó quem já morou numa casa velha sabe os encantos e mistérios que ela possui. Fecho os olhos e relembro a casa onde morei na infância, em Carangola, na rua Quinze de Novembro. Eu era garoto, mas essa casa não me sai da lembrança. Guardo na memória todos os detalhes da casa: o portão de ferro, pesado, que rangia ao abrir. Depois do portão, a escada larga e bem acabada que levava à varanda de ladrilhos, cercada por uma grade de madeira pintada de marrom. Um pé de pitanga, ao lado, dava sombra e frescor à varanda. Abro a grande porta e entro na casa. Como toda casa velha, construída por volta de 1910, tem o pé-direito alto. O teto é de madeira envernizada, o chão, de tábua corrida, encerada, brilhando. Ao lado do pequeno corredor, à direita, está a sala de visita com sofás de palhinha e pequenas almofadas no assento. Um piano, coisa chiquíssima que existia em todas as casas de pessoas de algumas posses e de bom gosto. Só enfeite. Quase ninguém tocava piano. As janelas dessa sala estão sempre fechadas. Entra pouca claridade pelo vidro acima das venezianas. A semi-obscuridade e o silêncio da sala são repousantes. Vários enfeites e louças caras dentro de uma cristaleira. Lembro-me da licoreira cor-de-laranja, em formato de um avião.

Em frente da sala, à esquerda do corredor da entrada, está o escritório, com uma grande mesa cheia de gavetas e tampa de vidro. Um cofre. Estantes cheias de livros de advocacia. A máquina de escrever Remington. O porta-tinteiro, que era uma miniatura de automóvel, parecia um brinquedo, mas, abrindo a tampa do motor, lá estava o tinteiro, Parker Quinck. As canetas, de pena de aço, ficavam repousando nos estribos do carro.
Seguindo pelo corredor, chego a um cômodo escuro, pouco iluminado. É preciso acender a lâmpada para ver mais estantes cheias de livros encapados com papel pardo, os títulos escritos à mão, com letra bonita, nas lombadas. Romances, biografias, enciclopédias, “O Tesouro da Juventude”. Dali, passo para outro cômodo com armários cheios com roupas de cama, de linho, cheirando a naftalina. Abro uma porta e entro no quarto de casal, enorme, bem iluminado. O sol entra pelas duas janelas que dão de frente para a rua. Um guarda-roupa com o espelho do lado fora. A cama de casal com a cabeceira arredondada. Debaixo da cama, o urinol, o penico. Nas casas velhas não existia o banheiro perto dos quartos. No meio da noite, para desapertar a bexiga ou para outras precisões usava-se o urinol, que podia ser de porcelana, enfeitado com florzinhas pintadas, ou de metal esmaltado, sempre na cor branca. Muitas vezes, durante a noite, eu escutava o barulho de alguém urinando no penico. Barulho de cachoeira – chóóóóó..... –, depois o barulho do penico sendo empurrado para debaixo da cama.
Saio do quarto de casal, passo pelas estantes com os romances. Subo uma escada com dois degraus e entro na sala de jantar, com a mesa sempre enfeitada com uma toalha de crochê. O guarda-louças cheio de pratos bonitos. Uma cadeira de balanço de palhinha. O rádio. Ah, o rádio, acho que Phillips, junto ao qual a família reunia-se, à noite, para ouvir, no Repórter Esso, as notícias da guerra na Europa. A grande janela que se abria para o quintal, onde existiam duas frondosas árvores, pés de carambola. Lá no fundo do quintal, o rio e, do outro lado do rio, a rua da Estação, a Estrada de Ferro Leopoldina e os armazéns de café, de onde vinha o cheiro forte característico. Nessa sala de jantar abriam-se as portas de dois quartos.

Sinto saudades do assoalho daquela casa velha, de tábua corrida, que era encerado uma vez por semana pelo Romualdo, um mulato forte e meio afrescalhado. Os móveis eram arrastados dos seus lugares e o Romualdo, descalço, pisando em grossas palhas de aço com seus pés enormes, raspava o chão. Depois varria a poeira, passava um pano úmido, secava e passava cera Parquetina. A seguir, com escovão, um instrumento antidiluviano, pesado, com um cabo de madeira e uma base com escova de pêlos grossos, Romualdo dava lustro ao assoalho, que ficava brilhando igual a um espelho. Nada de aspirador de pó ou enceradeira elétrica, que isso, naqueles mil e novecentos e quarenta, eram coisas de americano ou ainda não haviam sido inventadas. Saudades das grandes portas que se abriam para a sala de jantar, com duas bandeiras, a fechadura e chave enormes, a maçaneta redonda, de porcelana.

Saindo da sala de jantar, passo para a sala de almoço. Casa velha é assim, sala de almoço e sala de jantar. Na sala de almoço, a mesa comprida, as cadeiras de palhinha, o guarda-comidas, a geladeira de madeira. Sim, geladeira de madeira. Todas as manhãs, a empregada colocava uma barra de gelo, que era comprada na leiteria, num compartimento que se abria por cima da geladeira. Na parte de baixo ficavam o leite, a manteiga, frutas e alguns outros poucos alimentos, porque o móvel era muito pequeno. Nessa sala de refeições abriam-se várias janelas e cinco portas: a porta que se comunicava com a sala de jantar. A porta que levava, por meio de uma escada de madeira, ao porão e ao quintal. A porta do quarto de hóspedes. As portas do banheiro e da cozinha.

O banheiro, com o piso azulejado, a pia com uma torneira cheia de rococós, o vaso sanitário, a caixa de descarga com uma corrente niquelada, o caixotinho onde jogava o papel higiênico usado e, supremo luxo, a banheira. Poderia escrever uma crônica somente sobre a banheira, mas vamos resumir o assunto. Banheira grande, gorda, branca, com pés de ferro, que se enchia com água quente, vinda da serpentina (um cano que saia da caixa-d’água e passava por dentro do fogão, onde se aquecia). Depois, abrindo a outra torneira, a gente temperava a água do banho. Eram demorados banhos de imersão naquela água morna. Acabado o banho, abria-se a tampa do fundo da banheira, a água escoava, fazendo um barulhinho gostoso. Nas beiradas da banheira ficava a marca da sujeira do corpo que havia passado para a água.

Vamos acabar com as lembranças da casa velha de piso de cimento vermelho. O fogão também de cimento vermelho. As trempes de ferro batido. O fogo feito com lenha. Os panelões de ferro ou de pedra-sabão. Pregado na parede, o moedor de café. O cheiro de café moído. O cheiro da lingüiça que defumava por cima do fogão. A lâmpada dependurada num fio grosso onde os mosquitos dormiam à noite. O interruptor grandão. A janela aberta para o quintal, os pés de carambola, o rio, a estrada de ferro do outro lado do rio, os armazéns de café, o morro do cemitério lá no fundo, o passado que se foi, a casa velha da minha infância.

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