Advogado
especialista na área da saúde
Nascem
pobres demais
Não é raro encontrar famílias com renda de até
um salário mínimo com quatro, cinco, até dez filhos.
Contrariamente, quanto mais alta for a renda da família, menos
filhos ela tem. O Censo 2000 mostra que mulheres com formação
universitária têm média de 1,4 filho. As analfabetas
têm 5,6. Algo está errado. Como as famílias mais pobres
sustentarão tantos filhos? E não falo apenas em comida.
E a educação? É justo simplesmente colocar pessoas
no mundo sem a obrigação de dar-lhes sustento? Parece muito
simples parir e entregar o rebento ao Estado, como se a mãe nada
tivesse a ver com seu futuro, concedendo ao ente político sua paternidade
e a transmutando a obrigação de mantê-lo.
Recentemente, vimos nos jornais que, na última década, as
pessoas ricas ficaram mais ricas e as pobres ainda mais pobres. Estamos
remando contra a maré e agravando o problema da distribuição
de renda. Não estamos evoluindo. A constatação disso
é muito fácil: basta assistir a qualquer programa vespertino
de televisão para ver as barbaridades sociais cometidas pelas pessoas
contra seus semelhantes, alguns premidos pela própria situação,
alguns por falta de vergonha mesmo.
Famílias pobres têm mais filho por falta de educação,
por falta do conhecimento de métodos anticoncepcionais e, quando
os conhece, não têm dinheiro para comprá-los. A desigualdade
social é o câncer do Brasil. E resolver isso não é
fácil nem rápido. Precisa da maldita “vontade política”.
Aliás, não será esse nosso verdadeiro câncer?
O Estado deveria cumprir seu papel e dar educação ao povo.
Entretanto, sabemos que quanto menos educada for a população
mais fácil será seu controle e manipulação.
Os políticos também sabem disso. O que fazer então?
Rezar parece-me apropriado.
Prevê a Constituição Federal: “Fundado nos princípios
da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento
familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado
propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício
desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições
oficiais ou privadas”. (sic - art. 226, § 7o.). Quer outra
hipocrisia, talvez ainda maior? Basta ler o parágrafo oitavo do
mesmo artigo da CF: “O Estado assegurará a assistência
à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando
mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações”.
Que tal? O Estado deveria cumprir suas obrigações legais,
independentemente da ave ou do corpo celeste que ocupar o governo. Mais
importante seria a ação dos cidadãos no sentido de
exigir que o Estado assim proceda, o que definitivamente não acontece.
Por outro lado, não podemos ser acomodados a ponto de ficar esperando
em casa, sentados, inertes, amorfos e acomodados, que o Estado decida
tudo por nós: nos alimente, nos eduque, nos provenha, nos dê
cartõezinhos de PVC que autorizam o recebimento de alguns reais,
como se fôssemos imbecis e incapazes ao ponto de nada produzir nem
contribuir. Claro que existem alguns que querem justamente isso. Entretanto,
prefiro ser ingênuo a ponto de acreditar que o número de
pessoas que pensam assim é menor que os que não pensam (ingenuidade
tem cura?).
Enquanto
a sociedade permanece apática e estéril, ela tem que administrar
depósitos de jovens menores de 18 anos (em São Paulo são
chamados de Febem, sigla que quer dizer, pasme, Fundação
Estadual do Bem-Estar do Menor, que funciona como espécie de “curso
de especialização” do mal), que muitas vezes não
conhecem nem pai nem mãe e foram criados por padrastos violentos
ou pela própria rua, ou nem foram “criados”, e de prisões
(estas sim, verdadeiros cursos de mestrado) abarrotadas de pessoas que
utilizam o discurso fácil da falta de oportunidade e que vêem
no homicídio, no estupro e no latrocínio, a “oportunidade”
tão almejada. Não podemos generalizar nem pensar igual ao
burro, que usa abas que o impede de enxergar lateralmente, mas também
não podemos ignorar a verdade dos fatos.
Não me venham com discursos intelectuais, ideológicos, sociológicos,
que são muito bonitos no papel mas que, na prática, não
têm qualquer aplicação, são absolutamente virtuais
e em nada contribuem de forma eficaz. Aliás, eficácia, que
é o poder de uma causa produzir determinado efeito, segurança
de um bom resultado ou efeito útil (Houaiss), é algo que
há algumas décadas não se vê neste País,
infelizmente, por mais boa vontade que poucos, pouquíssimos, têm.
Quando surgem idéias para sairmos do marasmo e da situação
estática que vivemos elas são bombardeadas de forma impiedosa.
E o pior: quem critica não sugere outra coisa. Apenas critica,
permanecendo confortavelmente sentados em seus pufes.
Em recente artigo, a Ministra da Secretaria Especial de Políticas
para as Mulheres, Emília Fernandes, sugeriu que para participar
do programa Bolsa-Família, que visa entregar dinheiro (de R$ 15
a R$ 95, de acordo com a renda per capita e número de filhos) para
“todo o grupo familiar” das famílias mais pobres (www.fomezero.gov.br),
as pessoas deveriam cuidar do seu planejamento familiar (como manda a
CF) e não ter mais que três filhos. Coitada. Quase teve que
implorar por desculpas públicas, tamanha a saraivada de críticas
que recebeu, em contrapartida a alguns tímidos apoios. Chegaram
a alegar violação dos corpos e dos direitos humanos. Ela
acabou por retirar a proposta de vinculação das duas coisas.
E o que aconteceu? Nada. O debate foi sumariamente encerrado. Ela não
encontrou eco no governo, em nenhum dos seus níveis. Os ferrenhos
críticos recolheram-se a suas tocas. A Igreja fez de conta que
não era com ela. Os políticos tinham escândalos que
dão mais mídia para cuidar. E os menos aquinhoados continuam
a parir, pois as mulheres precisam dar crias a seus maridos, como prova
de amor.
Planejamento
familiar não é limitar o número de filhos por pessoa.
Não sejamos hipócritas. É instruir a comunidade sobre
a responsabilidade, amplíssima, de colocar um filho no mundo. Como
disse o médico Dráuzio Varella em lúcido artigo (Carta
Capital): “A falta de recursos para programas abrangentes de planejamento
familiar é desculpa irresponsável! Sai muito mais caro abrir
escolas, hospitais, postos de saúde, servir merenda, dar remédios
e arranjar espaço físico para esse mundo de crianças.
E, mais tarde, construir uma cadeia atrás da outra para enjaular
os mal-comportados”.
O Ministério da Saúde acena com o lançamento de programa
de planejamento familiar. Tomara que ele não esmoreça diante
das adversidades que virão. O problema é polêmico
e complexo. Aliás, tudo o que é difícil de fazer
torna-se “polêmico”. Viver em sociedade é complexo.
Homogeneizar pensamentos nela é invariavelmente uma luta inglória.
Há a Igreja. Há sociólogos. Há advogados.
Há médicos. Há juízes. Há políticos.
Porém, se nada for feito, estamos fadados a ser um País
de famintos, com preocupante agravamento da crise social.
Há 34 anos ouço que o Brasil é o país do futuro.
Onde é que está esse futuro que nunca chega? Por mais que
a expectativa de vida aumente, será que vai dar tempo de eu ver
este “futuro”? Nosso presente: de oitava economia do mundo,
há pouquíssimos anos, caímos para 15º lugar.
Não pense o leitor que sou pessimista ou partidário do “quanto
pior, melhor”. Não sou contra nada. Sou a favor de tudo,
desde que justificável. Sou otimista por natureza. Até demais,
às vezes. Mas não aceito, sob nenhuma condição,
ser incluído na definição de hipócrita, que
é “aquele que demonstra uma coisa, quando sente ou pensa
outra, que dissimula sua verdadeira personalidade e afeto, quase sempre
por motivos interesseiros ou por medo de assumir sua verdadeira natureza,
qualidades ou sentimentos que não possui; fingido, falso, simulado”
(Houaiss).
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