MAIO
DE 2004
NÚMERO 44
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EM ÚLTIMA ANÁLISE
 
Paulo R. Mergulhão

Presidente da Pró-Saúde

Diagnóstico BRASIL

 

 

Não fosse a coragem dos empresários da saúde, o País não sobreviveria a uma simples gripe

Nunca estiveram tão presentes, nos discursos das autoridades públicas de nosso país, as comparações entre a situação da saúde e da economia. Apenas um exemplo: recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou, em uma de suas falas improvisadas, que o Brasil na área econômica “já apresentava melhoras”, tinha “deixado a UTI”, e “já caminhava pelos corredores do hospital”.

Na área das finanças, a Nação tem se valido do tratamento intensivo da saúde econômica na aplicação de remédios amar-gos e uma perfeita organização hospitalar para abrigar um paciente chamado Brasil que, de agonizante, já dá seus primeiros passos de convalescente. Com direito até a um diretor médico geral, o Dr. Pallocci.

Mas da metáfora para a realidade encontramos muito pouco do que querem fazer parecer uma unanimidade nacional. A saúde hospitalar brasileira, mesmo servindo de comparação para a economia nos discursos oficiais, vem sendo tratada como algo de pouca importância. Se não, vejamos. O governo – faça-se justiça, não é de hoje – tem investido pouquíssimo na área da saúde, algo em torno de 3,5% do PIB. Comparativamente, os Estados Unidos – país considerado modelo nos serviços médicos – aplicam 13,4%. E olhem a diferença de PIB. Até países com PIB menores, como Portugal, tem maiores investimentos percentuais do que o padrão brasileiro.

Não fosse a determinação e coragem dos empresários da área da saúde, a população de nosso país não sobreviveria nem aos efeitos de uma simples gripe. Nos hospitais públicos – em sua maioria sucateados ou simplesmente mal geridos – não temos uma saúde pública condizente com o que determina nossa Constituição (“saúde para todos, um direito do cidadão”). Tratamento hospitalar digno tem se constituído num privilégio cada vez mais elitizado, pois poucas pessoas podem pagar os convênios, cada vez mais caros, que dão direito a hospitais considerados “classe A” (Sírio-Libanês, Albert Eistein, entre outros). Os médicos, muitas vezes, se negam a atuar naqueles hospitais credenciados pelos convênios mais acessíveis ao bolso do cidadão.

E aí fica a questão. Quem está certo: a rede hospitalar privada, que se aprimora e investe em equipamentos caros, infra-estrutura e treinamento, obrigada a repassar os custos para os usuários, diferenciando o seu atendimento para quem pode pagar; ou os hospitais que se limitam a criar estruturas mais modestas para atender os conveniados de menor poder aquisitivo?

E mais. Os hospitais melhor aparelhados somente se reequipam porque, em sua maioria, são filantrópicos, com direito a incentivos patronais, portanto não-lucrativos, o que lhes impõe o dever de repassar suas receitas em melhoria do atendimento e assistencialismo.
É evidente que os hospitais mais modestos só sobrevivem graças a filantropia (como atesta o exemplo das santas casas e outros hospitais filantrópicos). Aos hospitais privados não-filantrópicos fica a tarefa de prestar os melhores serviços possíveis ao paciente, tentar ser lucrativo ou então desistir de funcionar.
A conclusão é que enquanto a economia brasileira já está, segundo as autoridades públicas, a caminho de melhorar, aguardando “alta”, o setor hospitalar está cada vez mais doente, a caminho da UTI.

Contato: presidente@prosaude.org.br

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