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Essenciais
e mal administrados
A
Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério da Saúde (MS), a pedido
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
realizaram nos últimos três anos um amplo estudo sobre a
situação dos hospitais filantrópicos brasileiros.
O resultado foi divulgado no dia 8 de novembro por ocasião do seminário
"Estratégias para o Fortalecimento do Setor Hospitalar Filantrópico",
na cidade do Rio de Janeiro. O estudo mostrou que o setor, além
de mais recursos, precisa de orientação e controles mais
precisos, tanto na área assistencial quanto administrativa. "Na
maioria esses hospitais têm baixa performance gerencial", resume
Pedro Ribeiro Barbosa, da Fiocruz, coordenador do estudo.
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| Linhares:
mais atenção ao setor |
Responsável
por mais de 150 mil leitos hospitalares, 1/3 dos existentes no país,
os hospitais filantrópicos atendem 38% dos pacientes internados
pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e representam 32% dos
leitos totais no Brasil. Do total, 40% são pequenos hospitais que
possuem menos de 50 leitos e 73% menos de 100, enquanto somente 3% possuem
mais de 300 leitos. Para muitos analistas ouvidos, o governo remunera
mal os procedimentos (R$ 5,95 por consulta, por exemplo, depois do reajuste
de julho passado), e ainda - conforme a gestão, por meio dos Estados
e municípios - demora a repassar as verbas. Representantes das
comunidades que respondem por mais de 60% da administração
desses hospitais mostram muitas vezes gestões frágeis e
ineficazes.
Muitas entidades desconhecem até mesmo os direitos garantidos por
lei à filantropia, explica Antônio Brito, presidente do Conselho
Nacional de Assistência Social (CNAS), entidade responsável,
entre outras atribuições, por fixar as normas para concessão
e renovação do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência
Social (Cebas). “A exclusão da informação se
reflete no elevado número de entidades que não obtêm
o certificado de filantropia porque desconhecem as normas”. O que
explica parte dos 21% de pedidos de renovação de certificado
rejeitados no ano passado. Outra parcela de entidades, mesmo com o certificado
na mão, simplesmente deixou de pleitear as isenções
a que teriam direito. Segundo o deputado federal José Linhares
Ponte (PPB-Ceará), presidente da Confederação das
Misericórdias do Brasil (CMB), o segmento dos filantrópicos
realiza 1,8 milhão de atendimentos ambulatoriais por dia, emprega
450 mil pessoas e 140 mil médicos. Cerca de 65% da receita des-ses
hospitais vêm do SUS, que, em 2001, transferiu R$ 1,97 bilhão.
O setor suplementar de saúde, que atinge 22% da população,
movimentou 6,2 bilhões de reais para atender número equivalente
de pessoas. Diferente do que acontece com a rede pública e o setor
suplementar, os hospitais filantrópicos são enraizados capilarmente
na sociedade brasileira, com mais de 80% deles no interior. A tecnologia
empregada por essa parcela de hospitais brasileiros é pouca e defasada.
Há, ainda, uma concentração geográfica desses
recursos: a maioria dos hospitais está nas regiões Sudeste
e Sul, onde estão as unidades mais bem equipadas. Essas regiões
reúnem, também, mais hospitais com equilíbrio financeiro,
os de maior porte e, ainda, os que têm mais pessoal por leito. As
capitais dos estados detêm mais recursos do que o interior.
“O parque de equipamentos está obsoleto”, diz o deputado
José Linhares.“Esperamos que seja aberta uma linha subsidiada
de recursos para os equipamentos que devem ser ofertados a custo zero
ou com juros pequenos”. As condições de investimento
do setor filantrópico são limitadíssimas, já
que 2/3 dos hospitais são micro ou pequenas organizações
do ponto de vista financeiro. Como agravante, o estudo da ENSP/Fiocruz/MS
identificou nos balanços dos hospitais que menos da metade, 46%
da amostra, apresentou saldo financeiro positivo.
Os
hospitais filantrópicos precisam, para serem vistos como tal, atender
a no mínimo 60% de pacientes pelo SUS e, no entendimento dos gestores,
os valores repassados precisam de reajustes urgentes. Segundo José
Alberto Monteclaro César, presidente da Federação
das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Filantrópicos
do Estado de São Paulo (Fesehf), o pagamento por serviços
prestados ao SUS mal cobre os honorários médicos e gastos
com medicamentos e materiais. "E os demais gastos?", indaga
Monteclaro, lembrando os custos com funcionários e manutenção.
Para o presidente da Fesehf, os 40% que podem oferecer ao atendimento
particular e planos médicos não cobrem as despesas de um
hospital. "Salvo as santas casas de última geração,
que oferecem serviços de alta complexidade, porque seus 40% de
atendimento particular ou convênio rendem mais, com exames e especialidades
caras, como na Santa Casa de São Paulo, por exemplo". Os demais,
segundo Monteclaro, não conseguem trabalhar sem acumular dívidas.
"Os subsídios repassados pelos governos federal e estadual,
ainda que tenham melhorado se comparados a outros mandatos, são
muito pequenos e não minimizam a situação".
No final do ano, a coisa complica ainda mais já que, normalmente,
aumenta o número de atendimentos e há os gastos com décimo-terceiro
salário.
"A
maioria dos hospitais filantrópicos depende do SUS e o total do
faturamento caiu em quase 10% de 1997 para 1999, mesmo com aumento de
demanda nesse período", diz Pedro Barbosa. Ao mesmo tempo,
os avanços da medicina exigem maior uso de tecnologia, ou seja,
mais recursos. "Há grande necessidade de novos horizontes
para esses hospitais, especialmente os pequenos e menos complexos, que
dificilmente suportarão as novas exigências assistenciais
só com base no SUS".
Enquanto
o governo recém-eleito define sua política para a saúde
- entre as tendências mais estatizantes e mais liberalizantes -,
o setor faz suas reivindicações. "Estamos elaborando
uma carta ao novo presidente recomendando mais atenção para
o setor hospitalar filantrópico e valorização do
seu papel social", revela Linhares. "Não queremos privilégios,
mas precisamos receber corretamente o pagamento justo pelos serviços
prestados".
Isso
significa, entre outras coisas, o ajuste do teto do atendimento de cada
hospital. Na visão de Monteclaro, muitas vezes o hospital precisa
atender além do limite fixado por necessidade das comunidades em
que está inserido. “Nesses casos, o SUS simplesmente não
paga os serviços. O reajuste deve ser feito segundo as necessidades
locais”.
O Programa Nacional de Incentivo à Parceria entre os Hospitais
Filantrópicos e o Sistema Único de Saúde (Integrasus),
criado em 2000, liberou R$ 145 milhões no ano passado e outros
R$ 420 milhões foram disponibilizados por meio do Programa de Fortalecimento
e Modernização das Entidades Filantrópicas de Saúde
Integrantes do SUS (Reforsus), que já disponibilizou 420 milhões
de reais para apoiar cerca de 90 entidades do setor.
Monteclaro sugere
que o novo governo mantenha esses programas e, também, adote algumas
medidas tomadas no Estado de São Paulo nos últimos anos:
“Um bom exemplo é a Fundação de Remédios
Populares, da Secretaria da Saúde, que torna os tratamentos mais
eficazes, pois o paciente recebe a medicação. Outro é
implantação da central de vagas informatizada, para evitar
que os pacientes se desloquem por vários hospitais em busca de
atendimento”. O governo paulista destinou, anualmente, valores equivalentes
a uma folha de pagamento para cada hospital, a fundo perdido, recomendando
a sua aplicação em novas ferramentas gerenciais.
É bem provável que as reivindicações do setor
despertem o interesse dos políticos. Afinal, segundo artigo recente
do consultor de empresas Stephen Kanitz, os políticos estão
começando a perceber a importância – inclusive eleitoral
– do terceiro setor, que mostrou sua força nas eleições
de 2002. Kanitz, que criou o site filantropia.org.br e o prêmio
Bem Eficiente, acredita que a vitória de Luiz Inácio Lula
da Silva deveu-se, em grande parte, ao fato de ele ter valorizado o terceiro
setor mais do que seus opositores. “Posso garantir que a força
política do terceiro setor veio para ficar”, diz. Kanitz,
aliás, é o mentor da criação do Partido do
Terceiro Setor (P3S), para o que precisa de 450 mil assinaturas.
A consciência dessa nova realidade pode impedir o Brasil de viver
a mesma experiência da vivida em Portugal, o berço histórico
das santas casas: na Revolução dos Cravos, em 1974, todas
as santas casas foram desapropriadas. “Agora”, conta Monteclaro,
“o governo quer devolvê-las para a sociedade e não
há quem aceite recebê-las”.
Nenhum programa ou ajuda governamental poderá sanar uma deficiência
constatada na amostra do estudo da ENSP/Fiocruz/MS: a grande maioria dos
hospitais (83%) foi classificada no nível incipiente de desenvolvimento
gerencial. São raros os casos de uso de instrumentos avançados
de gestão. Poucos hospitais do setor utilizam algum sistema de
avaliação – os que o fazem são de grande porte.
Pedro Barbosa entende que uma das formas para melhorar a gestão
do setor filantrópico pode ser a integração de redes
colaboradoras entre hospitais: “O Ministério da Saúde
já desenvolveu, com sucesso, uma experiência desse tipo e
notou que o contato com entidades mais bem administradas ajuda as outras
a se aprimorarem”. Mesmo com o modelo de gestão questionado,
o deputado José Linhares acredita que ainda o setor filantrópico
é a melhor solução para a saúde no Brasil,
hoje. “Seria um desastre se eles desaparecessem”.
O modelo de administração tripartite – governo, capital
privado e comunidade – é, no entanto, defendido como a fórmula
mais moderna de prestação de serviços de saúde
que existe. O consultor de empresas Jair Moggi, da Adigo Consultores e
presidente do Instituto EcoSocial, não tem dúvida que a
fraternidade deveria orientar a vida econômica. “Nas duas
últimas décadas do século passado, os Estados perderam
poder em todo o mundo. O segundo setor, formado pelo capital privado,
expandiu-se e globalizou-se, mas está aderindo às práticas
da responsabilidade social de forma mais lenta do que as sociedades necessitam.
É por isso que a gestão compartilhada, com intensa fiscalização
das comunidades, é uma alternativa avançada de gestão”.
Os
líderes do setor têm consciência que mesmo que os cofres
do governo não se mostrem tão acessíveis há
um importante recurso que o setor hospitalar filantrópico possui
e não está sendo bem utilizado. “A participação
das comunidades na administração dos hospitais filantrópicos,
em especial as santas casas, é uma das mais importantes riquezas
desse setor e precisa ser mais ativa”, diz Monteclaro. É
bem provável que o crescimento do interesse da sociedade faça
aumentar, também, as doações e subvenções
que, hoje, não passam de, respectivamente, 1% e 3% das receitas
do setor.
O estudo do BNDES teve o mérito de pôr na mesa os problemas
de forma clara. Espera-se agora encontrar os caminhos para resolvê-los.
Como diz o coordenador do estudo, não há como ignorar o
papel estratégico do setor hospitalar filantrópico no Brasil.
Os
fora-da-lei
Para
o jurista Ives Gandra Martins, advogado da Confederação
das Misericór-dias do Brasil, bastaria o governo cumprir a Constituição
para que os hospitais filantrópicos não tivessem nenhum
problema financeiro. “Segundo a lei, uma entidade que não
remunere a sua diretoria, aplique todos os recursos na instituição
e tenha estrutura regular, tem direito ao certificado de filantropia”.
Portanto, as demais exigências – como destinar 60% do atendimento
ao SUS, por exemplo, – são, na opinião do jurista,
inconstitucionais.
A situação resultante, diz Gandra Martins, é que
o governo tem uma das mais altas taxas tributárias do mundo –
mais de 30% do PIB –, não gasta o que deveria com saúde
e ainda quer repassar essa responsabilidade para o setor filantrópico.
Gandra Martins está apelando ao Supremo Tribunal Federal contra
as normas para obtenção do certificado de filantropia.
A sugestão que ele dá para que o governo disponha de mais
recursos para a saúde pode estar na reforma previdenciária
e correção das distorções atuais. “Na
média, cada um dos três milhões de aposentados do
setor público custou ao País, em 2002, R$ 14,6 mil, enquanto
o custo médio dos 21 milhões de aposentados do setor privado
foi de R$ 656”. Isso quer dizer, segundo Gandra Martins, que um
grupo de três milhões de aposentados do serviço público
se apropriou de R$ 53 bilhões da receita de tributos paga por 170
milhões de brasileiros, valor bem maior do que os R$ 44 bilhões
gastos com saúde, educação e segurança em
todo o País. “Diante dessa realidade, fica a pergunta: quem
está fora da lei?”, pergunta o jurista.
Os números
da pesquisa
- Universo pesquisado:
1.414 unidades, de 2.258 assumidas como potenciais hospitais filantrópicos,
compreendidos nos cadastros do DATASUS - Ministério da Saúde
e do Conselho Nacional de Assistência Social - CNAS.
- Número
de leitos total: 134.239.
- Divisão
por leitos e região: 40,31% possuem menos de 50 leitos, enquanto
somente 3,25 % possuem mais de 300 leitos. Cerca de 75% dos hospitais
concentram-se nas regiões Sudeste (49 %) e Sul (25%).
- Localização:
80% dos hospitais e 65% dos leitos estão localizados no interior
do país. Os números apontam que 904 (64%) dos 1.141 hospitais
localizados no interior possuem menos de 100 leitos. Por outro lado,
12 dos 18 hospitais com mais de 600 leitos situam-se nas capitais. Nota-se
que 36% localizam-se em cidades com menos de 20 mil habitantes e quase
82% em municípios com menos de 200 mil habitantes.
- Certificados: 15
% dos hospitais não possuem Cebas válidos. O Nordeste
tem a maior concentração de certificados não-válidos:
12%.
- Origem: 25% mencionaram
serem católicos e 16%, sociedades comunitárias.
- Por isenção
tributária: 95% têm isenção de Imposto de
Renda. Por outro lado, 14% relataram não possuir isenção
da cota patronal do INSS. Em torno de 96% (1.084) dos 1.122 hospitais
que relataram isenção da cota patronal possuem Cebas válido.
- Volume de faturamento:
75% são micro ou pequenas entidades, com receitas brutas anuais
abaixo de R$ 700 mil (micros) e entre R$ 700 mil e R$ 6,1 milhões
(pequenas). Cerca de 2,5% foram classificados como de grande porte,
com receitas anuais acima de R$ 35 milhões.
- Fontes de apoio
externas: Para quase uma centena de hospitais que responderam à
pergunta, as principais fontes de apoio externo são as fundações
privadas sem fins lucrativos, associações de moradores
e associações religiosas.
- Volume de faturamento: 75%
são micro ou pequenas entidades, com receitas brutas anuais abaixo
de R$ 700 mil (micros) e entre R$ 700 mil e R$ 6,1 milhões (pequenas).
Cerca de 2,5% foram classificados como de grande porte, com receitas
anuais acima de R$ 35 milhões.
- Fontes de apoio externas:
Para quase uma centena de hospitais que responderam à pergunta,
as principais fontes de apoio externo são as fundações
privadas sem fins lucrativos, associações de moradores
e associações religiosas.
- Direção:
A direção superior em 60% dos hospitais é exercida
por pessoal do quadro próprio. A direção exercida
por empresa operadora especializada terceirizada foi mencionada por,
somente, 44 hospitais.
- Isolados: 54% disseram
não existir outro hospital em seu município.
- SUS: 54% mencionaram aumento
do volume dos serviços prestados aos SUS.
Conclusão:
setor é importante para o SUS
O estudo confirma
a importância do setor filantrópico para a política
pública de atenção hospitalar no país e que
deve ser conferido ao segmento especial atenção quando da
formulação de políticas públicas de saúde.
É impossível ignorar o tamanho do setor, sua participação
no volume de internações pelo SUS e presença em todo
o território nacional, principalmente no interior.
No
plano gerencial, o setor se apresenta fortemente defasado "em relação
a padrões gerenciais contemporâneos", como diz o estudo.
"Certamente estas atuais condições, se não comprometem
seus resultados, muito certamente põem em risco o futuro de boa
parte do parque", avaliam os técnicos da pesquisa.
A
realidade gerencial, quando associada à baixa complexidade nas
estruturas de atenção, o pequeno porte de leitos e os resultados
econômicos negativos na maior parte dos hospitais estudados, permite
prever, segundo o estudo, "comprometimentos inevitáveis para
o setor no futuro, caso medidas de ajuste não sejam adequadamente
implementadas".
Para
hospitais menores o desafio é a migração para projetos
gerenciais e assistenciais mais ajustados. Tal processo não ocorrerá
sem incentivos e políticas indutoras, combinando novas exigências
assistenciais do SUS para investimentos em tecnologia médico-assistencial
equipamentos, instalações e recursos humanos.
Antônio Ermírio: boa gestão é mais importante
que novas verbas
Diferentemente
da maioria dos administradores de filantrópicos, Antônio
Ermírio - o maior industrial brasileiro e presidente do Hospital
Beneficência Portuguesa, em São Paulo - acha mais importante
fazer esforços para administrar bem do que ficar pedindo mais verba
ao governo. "Quem tem uma boa administração, tem direito
a recursos. Controlando os gastos, é possível manter um
hospital, como nós mantemos a Beneficência. O que não
é correto é um gestor relapso reclamar por mais dinheiro".
Antônio Ermírio crê que a saída para a saúde
no Brasil é o setor filantrópico. "Paciente particular
é uma categoria em extinção. A tendência mundial
é socializar completamente a medicina, com os setores público
e privado colaborando. Essa mudança é ainda mais necessária
no Brasil, onde há muitos pobres". Há 32 anos, o empresário
faz parte da vida do hospital. O HBP atende a mais de 60% dos pacientes
pelo SUS, utilizando alta tecnologia, e não possui dívidas.
"A dedicação e a boa administração são
os segredos”, diz. “É preciso verificar o caixa todos
os dias, controlar as cotas fixadas pelo Ministério da Saúde,
gastar só o necessário, ver se há falta de material,
essas coisas que só se têm quando há dedicação
e envolvimento profundo”.
Isso não quer dizer que Antônio Ermírio esteja satisfeito
com as políticas oficiais: “Eu não posso dizer a um
paciente que ele não vai ser atendido porque já esgotei
as cotas. Mas, quando eu ultrapasso as cotas, o Ministério da Saúde
bloqueia toda a minha verba”. Há ainda as contas que são
glosadas, diz: “Eles nem explicam por que estão glosando.
Recusam-se a pagar e pronto. Outro dia, tivemos uma glosa por parte da
Secretaria da Saúde de R$ 1,8 milhão”. É por
isso que o empresário, além de dar uma jornada por semana
na administração do hospital, ainda tem, na agenda, o compromisso
de ir duas ou três vezes por mês ao Ministério e à
Secretaria de Saúde para reclamar o que tem direito.
Mas mudar as regras atuais não é sua luta principal. “Dá
trabalho, mas é perfeitamente possível sobreviver com a
legislação atual. Acho que o mais importante, para fazer
filantropia corretamente, é seguir as normas que existem. Quando
elas mudarem, a gente volta a conversar. A Beneficência atende a
mais de 1,5 milhão/ano. É o único hospital filantrópico
do mundo a fazer cirurgias do coração para pacientes do
sistema público. Fatura mensalmente R$ 21 milhões, com uma
folha de pagamentos de R$ 8 milhões. Possui cerca de 1.700 leitos,
200 de UTI, 58 salas de cirurgia e 5.000 funcionários.
[topo] |