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Médico e Escritor
De repente, minha casa foi invadida por formigas, dessas pequenininhas. Elas estão em cima da mesa da cozinha, na pia, dentro do armário onde minha mulher esconde os "tiragostos", no armário de mantimentos, no açucareiro, em todos os lugares onde exista algo comestível. A princípio não me preocupei com estes insetos pequeninos, limpos, ordeiros, silenciosos. Uns bichinhos até simpáticos os desta espécie pequetita (segundo me disseram, da raça lavapés), insetos da ordem dos himenópteros, da tradicional família dos formicídeos, com o nome latino de Solenopsis Saevissima. Mas, vejo agora no meu livro de zoologia que a pessoa que me ensinou estava errada, apesar de toda sua erudição: estas formigas pequeninas são da raça argentina, designadas como Iridomyr-mex Humilis, especializadas no ataque às cozinhas das casas (as da raça "lavapés atacam plantas, especialmente batatas e tubérculos, como ensina meu livro).
Dias depois, a empregada ensinou uma técnica que vem dando certo lá no Bela Vista (N.E: bairro de João Monlevade, cidade de Minas Gerais): colocar folhas de tomateiro espalhadas no caminho das formigas. Minha casa ficou parecendo um sacolão-verdurão de tantas folhas de tomateiro e salsa espalhadas pela cozinha e copa. Não valeu de nada. -Vê se toma uma providência, gritou minha mulher para mim, até então indiferente ao problema. -Ah, deixa pra lá. Formiga faz bem para as vistas, respondi. Um dia, a Marília, minha mulher, apelou para uma solução roceira: enfiou os pés das mesas da cozinha e da sala de jantar dentro de vistosos e coloridos potes de plásticos, de diferentes marcas de margarina, cheios de água. As mesas pareciam estar calçadas com botinas de cores e tamanhos diferentes, na maior jequice. Coisa brega mesmo. Misteriosamente, apesar da barreira de água, as formigas continuavam aparecendo em cima das mesas, atacando as comidas protegidas por plásticos e panos. Como podem as formigas, que nem narizes têm, encontrar o caminho das comidas? - Que horror. As formigas estão dentro do saleiro, reclamou minha mulher. Será que elas estão ruins das vistas e pensaram que era açúcar? Pois, até mesmo dentro do forno microondas estavam as formiguinhas, dentro do prato de comida, rodando e curtindo, como num parque de diversões. Que fazer? Ah, surgiu uma idéia nova, brilhante, que duas vizinhas, vítimas da invasão das formigas, aprenderam com Maria Amélia do Celso Costa: colocar no caminho das formigas anticoncepcional moído e misturado com açúcar. Segundo elas, o anticoncepcional em pó iria tornar as formigas estéreis e acabaria com a raça ruim delas. Mas, seria preciso que toda vizinhança usasse o tal remédio. Durante algum tempo, na minha casa era pozinho branco de Micronor moído misturado com açúcar em tudo quanto era canto. As mulheres sorriam satisfeitas com essa extraordinária descoberta científica da Maria Amélia, que iria derrotar as formigas. Dias depois, Marília, assustada, quase em pânico, varria e lavava o chão, limpando todos os lugares onde havia colocado o pozinho exterminador. -Que houve? -Ficamos sabendo que, enquanto as formigas estivessem comendo o pó com anticoncepcional, elas não ovulariam, estariam sem fertilidade. Mas, depois, se parassem de usar o anticoncepcional, elas passariam a ter filhos gêmeos, isto é, formigas gêmeas, e isso, de repente, iria aumentar a população delas, igual aconteceu com aquela mulher no Paraná que teve seis filhos de uma só vez. Voltou, então, a colocar folhas de tomateiro e salsa espalhadas pela casa e passou a colocar todas as comidas em cima da geladeira, o único lugar da casa onde as formigas não conseguiam chegar. Agora, tem mais comida em cima da geladeira do que dentro, onde já existem formigas argentinas hablando espanhol e comendo presunto. Em cima da geladeira está igual boteco de esquina, com pão, bolo, biscoitos, queijo, açucareiro, saleiro. Hoje, comecei a ficar preocupado porque a mesa do meu escritório, até então sempre atulhado de livros, está cheia de formigas comendo migalhas de uns salgadinhos que andei comendo ontem, enquanto rascunhava esta crônica. Que fazer contra essa invasão de formigas argentinas? Só resta dançar um tango, como recomenda o poeta. |