MARÇO/ABRIL
DE 2003
NÚMERO 40
ANO 4
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Economista, doutora pela PUC-SP e coordenadora do MBA para organizações da PUC-SP
Médico, mestre em administração pela PUC - SP, coordena-dor técnico do MBA para organizações de saúde da PUC-SP
MBA
 
Maria Cristina Amorim e Eduardo Perilo


O futuro da gestão da saúde no Brasil

Pesquisas recentes sobre prospecção permitem afirmar: o futuro será construído de repetições e de inovações. A criatividade está em combinar elementos conhecidos de forma inédita (Howard Gardner. Estruturas da mente. Editora Artes Médicas). As surpresas, por sua vez, são eventos de baixa probabilidade de ocorrência (Carlos Matus. Guia teórico. Editora da Fundación Altadir), mas que precisam ser levadas em consideração nos estudos de tendências a médio e longo prazos. Resultados preliminares apontam cinco grandes tendências que influenciarão significativamente a gestão das organizações de saúde no Brasil.

Para prever o futuro da gestão de saúde é necessário atentar aos movimentos da sociedade, da política, da cultura, das empresas de outros seto-res, da economia do Brasil e do mundo, e utilizar metodologia adequada para dar sentido a essas informações. A velha frase "na saúde é diferente" apenas oculta a inútil tentativa de desqualificar o que não se entende ou não se deseja. Quaisquer que sejam as peculiaridades da saúde, esta não se descola das regras gerais da economia capitalista e do capitalismo, cujo desenvolvimento se dá de forma heterogênea. O segmento da saúde no Brasil sofre pressões nacionais e internacionais para ajustar-se aos procedimentos de gestão da terceira revolução industrial. Percebe-se isso no empenho de muitas organizações para a padronização dos serviços (protocolos médicos, por exemplo) para aumentar a produtividade do trabalho e da qualidade dos processos, para o maior controle financeiro etc. O setor bancário brasileiro passou por processo semelhante há cerca de dez anos, e é sempre possível aprender com experiências de outros segmentos.

Vamos às cinco grandes tendências. A primeira é a inovação tecnológica, irreversível. A economia capitalista estrutura-se sobre a geração crescente de lucro, e este, por sua vez, depende do aumento incessante da produtividade. A função da tecnologia é aumentar a produtividade do trabalho hu-mano e diferenciar o produto. Fazendo uso da metáfora, o lucro é o motor do capitalismo, e a tecnologia é seu combustível. Sim, há o uso indevido de tecnologia na área da saúde, a sobreposição do uso dos recursos (como nos exames por imagem), evidenciando antes a insuficiência de qualificação profissional e de disfunções dos sistemas operacionais, do que a suposta inadequação da tecnologia. Dito de outra forma: se a fonte pagadora cobra do médico um número elevado de consultas por dia, é muito provável que ele demande mais exames para identificar o que não teve tempo para examinar ou perguntar. Assim, as organizações da saúde dificilmente sobreviverão sem investimentos na aquisição de tecnologia para as atividades-fim e atividades-meio, devidamente acompanhados de investimentos em capital humano, na qualificação das pessoas. Pouco adian-tará um equipamento de última geração se o profissional não for qualificado para bem operá-lo e entender as necessidades do paciente-cliente.

A segunda tendência é a divisão internacional da produção em nível mundial: países ditos de primeiro mundo (ou do Norte) especializam-se na produção de bens e serviços intensivos em conhecimento, enquanto os de terceiro mundo (ou do Sul) especializam-se em artigos e serviços para consumo de massa. As empresas do Norte não terão dificuldades para impor seus padrões de procedimentos, controles, produtos, serviços, preços, etc. Moral da história, independentemente do porte e da capitalização das empresas brasileiras, estas terão que se igualar às estrangeiras. Como? Só há um meio, a associação entre empresas e com centros nacionais e internacionais de pesquisa. A velha receita do produto competitivo às custas dos baixos salários pagos está com os dias contados, ou destinada a atender consumidores de baixa exigência de qualidade.

A terceira tendência é o estresse dos sistemas e recursos naturais. Acesso a locais limpos e não agredidos pelas diferentes fontes de poluição, consumo de água potável, produção, coleta e destino do lixo, entre outras, serão operações caras e complicadas. Perceinternacional da produção em nível mundial: países ditos de primeiro mundo (ou do Norte) especializam-se na produção de bens e serviços intensivos em conhecimento, enquanto os de terceiro mundo (ou do Sul) especializam-se em artigos e serviços para consumo de massa. As empresas do Norte não terão dificuldades para impor seus padrões de procedimentos, controles, produtos, serviços, preços, etc. Moral da história, independentemente do porte e da capitalização das empresas brasileiras, estas terão que se igualar às estrangeiras. Como? Só há um meio, a associação entre empresas e com centros nacionais e internacionais de pesquisa. A velha receita do produto competitivo às custas dos baixos salários pagos está com os dias contados, ou destinada a atender consumidores de baixa exigência de qualidade.

A terceira tendência é o estresse dos sistemas e recursos naturais. Acesso a locais limpos e não agredidos pelas diferentes fontes de poluição, consumo de água potável, produção, coleta e destino do lixo, entre outras, serão operações caras e complicadas. Perceba-se que a maioria dos bancos só empresta recursos quado há garantias ambientais. Empresas de saúde qu não instituírem os chamados processos limpos, no mínimo pagarão muito caro por isso.

Um quarta tendência é a maior complexidade e interdependência das organizações, e das ações entre elas empreendidas. De um lado, nas sociedades democráticas, avançam os direitos do consumidor e do cidadão. De outro, as empresas ampliam as terceirizações. Tudo isso coroado pela expansão e barateamento da tecnologia da informação e da comunicação, diluindo as fronteiras entre negócios privados e controle social, entre acontecimentos locais e forâneos. Conclusão: o nível de controle social e governamental tende a aumentar em dimensões muito mais amplas do que a exercida pelas agências reguladoras nacionais e a administração das organizações exigirá profissionais especializados em gestão.

A quinta tendência, as transformações nas relações de trabalho. Vivíamos um mundo de empregadores e assalariados, rodeados por alguns “por conta-própria”. Hoje temos poucos profissionais altamente qualificados (não importa se assalariados ou não), e um vasto mar de desqualificados funcionalmente. As conseqüências? Muitos trabalhadores com baixa qualificação à procura de emprego produzem um efeito geral de rebaixamento dos salários. A tentação para as empresas é ficar com o profissional baratinho, muitas vezes arregimentado às margens da lei, sem no entanto perceber o risco de inserir-se no círculo vicioso da mão-de-obra de baixo custo, desqualificada, de baixa produtividade, alheia à tão necessária criatividade. Resulta em produto sem qualidade, remunerado a preço vil. Na seqüência, não se investe em gestão, em qualificação, e sucede um contínuo declínio do desempenho organizacional.

Que espaços restarão às organizações que, desconsiderando as mudanças no capitalismo global, não incorporarem de forma planejada e sistemática as inovações de gestão? Que tipo de consumidor comparará serviços ou produtos de empresas cujas atitudes sejam lesivas ao ambiente, desrespeitando a cidadania e negando sua resonsabilidade social?

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