|
Carlos
E. Ferreira |
Presidente da Federação Brasileira dos Hospitais (FBH)
Saúde é cidadania
| A vitória
de Luiz Inácio Lula da Silva trouxe um mar de esperança para
os brasileiros. Em particular, para os mais humildes. No primeiro pronunciamento,
ao ser eleito, ele anunciou seu projeto mais importante: o “Fome Zero”.
Eu, aqui do meu canto, fiquei aguardando as novidades para a área
de Saúde. Não sei se alguém já contou ao nosso
futuro presidente que cerca de 70% de todos os atendimentos médicos
da população brasileira são feitos por quase quatro
mil casas de saúde, hospitais e ambulatórios da rede privada,
das santas casas ou entidades filantrópicas. Se não contou,
é bom contar. Essas instituições estão passando
pelo pior momento de sua existência, fruto de uma aguda crise financeira.
Estigmatizadas como responsáveis por desvios de recursos (que nem
de longe quero contestar, mas só lembrar que em qualquer setor existem
os bons e os maus e, no nosso meio, os bons constituem uma maioria esmagadora),
é oportuno registrar que todas elas assumem uma enorme responsabilidade
social. Atendem milhões de pessoas e salvam inúmeras vidas.
Então, qual seria a origem de uma crise que poderá levar o
sistema que apóia o poder público na área de saúde
a um colapso generalizado? A resposta
começa pelo tratamento dado pelo Ministério da Saúde
às instituições do setor nos últimos oito
anos. Especialmente após a implantação do Plano Real.
Entre julho de 1994 a maio de 1999, os custos na área de saúde
aumentaram em 109%. No mesmo período, foi concedido um reajuste
ao setor de apenas 25%. E o mais grave: a capacidade de internação
da rede conveniada caiu de 30 a 40%. A própria Comissão
de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados apontou,
em 1999, uma defasagem dos valores remunerativos da tabela do Sistema
Único de Saúde como responsável pela degradação
sistemática do atendimento médico-hospitalar do país.
Durante uma audiência, em Bra-sília, o então Ministro
José Serra recusou-se a negociar reajustes e declarou que não
faria concessões. Logo depois, seria divulgada a “Pesquisa
sobre o Perfil do Endividamento dos Hospitais do Brasil”, encomendada
pela FBH. De um universo de 4.049 instituições privadas,
foram analisadas 206 unidades que atendem ao SUS em todo o país:
as dívidas acumulavam R$ 250 milhões e correspondiam a 5,76
meses de faturamento dos mesmos hospitais, em março de 2001. Ainda
segundo a pesquisa, 76% da receita obtida pelas instituições
consultadas eram provenientes de pagamentos do SUS. |