A Língua
representa, como diz o filósofo, a nossa forma de enxergar o mundo.
É, pois, em decorrência, um primordial instrumento de apreensão
da realidade e, para nós trabalhadores, uma valiosa ferramenta
de trabalho. É através dela que manifestamos os nossos pensamentos,
nossas impressões; orientamos, aprendemos. Enfim, comunicamo-nos
com nossos semelhantes. O objetivo essencial desta coluna será
sempre colaborar a fim de que os nossos amigos e profissionais que atuam
na área da saúde aprimorem o seu vocabulário; ampliem
o conhecimento da língua; aperfeiçoem a sua expressão
lingüística. Creio que, assim agindo, estaremos, modesta e
humildemente, como há de ser sempre, contribuindo para melhorar
a nossa e a vida das pessoas com quem interagimos.
Por
fim, quero atestar, deixaremos em nossa coluna um espaço reservado.
Uma cadeira cativa. Para que nossos leitores e amigos manifestem-se, enviando
a este articulista sugestões e perguntas que, bem-vindas, por certo,
só engradecerão o nosso trabalho.
Escolhemos
como primeiro tema, comentar os pronunciamentos iniciais do Ministro da
Saúde, o médico Humberto Costa. E, na esfera estadual, do
recentemente empossado, Secretário de Saúde, Luís
Roberto barradas Barata, no jornal "O Estado
de S. Paulo". Os depoimentos mostram, e não poderia ser diferente,
domínio da expressão verbal e da gramática. Contudo,
curiosamente, percebemos, em meio à fala do Ministro e do Secrtário,
um dado comum muito interessante.
Apesar de empregarem
vocabulário aprimorado, construções ramticais vem
arquitetdas, nossas persoagens permitem a interferência de expressões
de notório perfil popular. Vejamos. Indagado por "O Estado"
a respeito da lei que regulamenta os planos de saúde, o Ministro
respondeu: "Tem muito problema nessa área." Sustituir
o verbo "haver" pelo "ter" não caracteriza
grave erro gramtical. Todavia, "ter" não significa "exitir",
sentido que se atribuirá ao "haver" na presente oração.
A troca, é nossa dca, deve ser evitada a todo custo. Diga com a
propriedade (de um ministro): há muitos problemas nessa área.
Assim estaremos pelnamente aptos a resolvê-los.
Há outra passagem presente
na mesma resposta do Ministro em que se pronuncia:”Não é
boa a relação entre médicos e operadoras, e nos preocupa
a saúde financeira dos planos”. Nota-se a presença
da conjunção coordenada “e”, que não
representa fator atrativo da próclise. Modalidade de colocação
pronominal que nos obriga o emprego do pronome antes do verbo da oração.
A construção correta é: “e preocupa-nos”.
O brasileiro gosta de usar o oblíquo antes do verbo. Diria que
é uma escolha cultural. Entretanto, assim precederemos quando a
norma gramatical o exigir. Infelizmente, não é o caso da
situação apresentada. Desculpe-nos o Ministro.
Caso tivéssemos uma conjunção subordinativa, a história
seria diferente. “Embora nos tivesse visto, nada disse”; “como
lhe disse, irei amanhã; “se o vir, dá-lhe o eu recado”.
Orações, quanto à colocação pronominal,
corretas visto que as palavras: “embora”; “como”;
“se”, são exemplos de conjunções subordinadas.
A conjunção subordinada é o único caso de
próclise da nossa língua? Não! Mas essa é
uma história que contarei em outra ocasião.
Passemos ao exame do pronunciamento do Sr. Secretário de Saúde.
Inquirido pelo repórter de “O Estado” quanto à
qualidade do serviço de atendimento do SUS, o Dr. Barradas apontou
a existência de algumas falhas. Frisou, particularmente, a que se
refere ao primeiro contato do usuário com o sistema. Sugere o Secretário
que esse seja efetuado por estagiários bem treinados para a tarefa.
Afirma: “Esses estagiários teriam a função
de conversar com o paciente, contar para ele o que vai ocorrer em um exame,
por exemplo”. Note-se a utilização do pronome “ele”
na passagem “contar para ele”. A sua função
primordial é atuar como sujeito do verbo da oração.
Aliás, obrigação que se estende aos demais dessa
categoria: eu, tu, ela, nós, vós, eles (as). Isso posto,
a condição de objeto ou complemento do verbo será
exercida pelos “pronomes pessoas do caso obliquo”: me , mim,
te, ti, lhe, o, a e outros. Portanto, a oração estará
correta se, ao invés de empregarmos o pronome “ele”
como complemento do verbo “contar”, utilizarmos o correspondente
objeto de tal pronome. O “lhe”. Teremos então: “Contar-lhe”.
Posteriormente, ao ser interrogado sobre a “expectativa para a dengue”,
o Secretário fez menção ao grande esforço
empreendido pelos municípios no combate à doença
e sua esperança de que “o número de criadouros de
mosquito diminua bastante e qu a gente não tenha um grande surto
neste verão”. Marca indelével do coloquialismo o uso
da expressão “a gente”, certamente, mais formal e correto;
porém, admito, menos solidário teria sido o Secretário
se tivesse dito: “e que nós não tenhamos um grande
surto”. O termo “gente” largamente utilizado por nós,
sem dúvida, tem a propriedade inerente de aproximar os falantes,
acentuar-lhes a intimidade. Mas, mister que se diga, é expressão
a ser evitada, mesmo que, assim agindo, ressaltemos a distância
que nos separa de nossos ouvintes.
Resta uma pergunta ser respondida antes de finalizarmos o nosso primeiro
encontro. Por que pessoas com ótima formação cultural,
como nossos Ministro e Secretário, cometem, às vezes, alguns
deslizes gramaticais?
Creio que os “escorregões” lingüísticos
foram perpetuados porque a intenção primeira e vital dos
entrevistados foi efetivar a comunicação. Empregaram-se,
por conta, expressões de gosto duvidoso, mas aptas a facilitar
e contato com os leitores, objetivo essencial dos depoentes.
Situação análoga ocorre quando, por força
da dinâmica de nossa atividade profissional, se faz necessário
o diálogo com nossos colegas de trabalho. Aceitemos, pois, os coloquialismos,
as gírias, os neologismos. Entretanto, apostemos igualmente na
capacidade de aperfeiçoamento de nossa expressão lingüística.
O resultado, por certo, será o enriquecimento profissional e pessoal.
Até o nosso próximo encontro. |