MARÇO/ABRIL
DE 2003
NÚMERO 40
ANO 4
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PS da Comunicação
 
Richard Mascaro
Consultor, professor de Língua portuguesa e advogado em São Paulo

Os erros nas falas do Ministro e do Secretário

A Língua representa, como diz o filósofo, a nossa forma de enxergar o mundo. É, pois, em decorrência, um primordial instrumento de apreensão da realidade e, para nós trabalhadores, uma valiosa ferramenta de trabalho. É através dela que manifestamos os nossos pensamentos, nossas impressões; orientamos, aprendemos. Enfim, comunicamo-nos com nossos semelhantes. O objetivo essencial desta coluna será sempre colaborar a fim de que os nossos amigos e profissionais que atuam na área da saúde aprimorem o seu vocabulário; ampliem o conhecimento da língua; aperfeiçoem a sua expressão lingüística. Creio que, assim agindo, estaremos, modesta e humildemente, como há de ser sempre, contribuindo para melhorar a nossa e a vida das pessoas com quem interagimos.

Por fim, quero atestar, deixaremos em nossa coluna um espaço reservado. Uma cadeira cativa. Para que nossos leitores e amigos manifestem-se, enviando a este articulista sugestões e perguntas que, bem-vindas, por certo, só engradecerão o nosso trabalho.

Escolhemos como primeiro tema, comentar os pronunciamentos iniciais do Ministro da Saúde, o médico Humberto Costa. E, na esfera estadual, do recentemente empossado, Secretário de Saúde, Luís Roberto barradas Barata, no jornal "O Estado de S. Paulo". Os depoimentos mostram, e não poderia ser diferente, domínio da expressão verbal e da gramática. Contudo, curiosamente, percebemos, em meio à fala do Ministro e do Secrtário, um dado comum muito interessante.

Apesar de empregarem vocabulário aprimorado, construções ramticais vem arquitetdas, nossas persoagens permitem a interferência de expressões de notório perfil popular. Vejamos. Indagado por "O Estado" a respeito da lei que regulamenta os planos de saúde, o Ministro respondeu: "Tem muito problema nessa área." Sustituir o verbo "haver" pelo "ter" não caracteriza grave erro gramtical. Todavia, "ter" não significa "exitir", sentido que se atribuirá ao "haver" na presente oração. A troca, é nossa dca, deve ser evitada a todo custo. Diga com a propriedade (de um ministro): há muitos problemas nessa área. Assim estaremos pelnamente aptos a resolvê-los.

Há outra passagem presente na mesma resposta do Ministro em que se pronuncia:”Não é boa a relação entre médicos e operadoras, e nos preocupa a saúde financeira dos planos”. Nota-se a presença da conjunção coordenada “e”, que não representa fator atrativo da próclise. Modalidade de colocação pronominal que nos obriga o emprego do pronome antes do verbo da oração. A construção correta é: “e preocupa-nos”. O brasileiro gosta de usar o oblíquo antes do verbo. Diria que é uma escolha cultural. Entretanto, assim precederemos quando a norma gramatical o exigir. Infelizmente, não é o caso da situação apresentada. Desculpe-nos o Ministro.

Caso tivéssemos uma conjunção subordinativa, a história seria diferente. “Embora nos tivesse visto, nada disse”; “como lhe disse, irei amanhã; “se o vir, dá-lhe o eu recado”. Orações, quanto à colocação pronominal, corretas visto que as palavras: “embora”; “como”; “se”, são exemplos de conjunções subordinadas.

A conjunção subordinada é o único caso de próclise da nossa língua? Não! Mas essa é uma história que contarei em outra ocasião.

Passemos ao exame do pronunciamento do Sr. Secretário de Saúde. Inquirido pelo repórter de “O Estado” quanto à qualidade do serviço de atendimento do SUS, o Dr. Barradas apontou a existência de algumas falhas. Frisou, particularmente, a que se refere ao primeiro contato do usuário com o sistema. Sugere o Secretário que esse seja efetuado por estagiários bem treinados para a tarefa. Afirma: “Esses estagiários teriam a função de conversar com o paciente, contar para ele o que vai ocorrer em um exame, por exemplo”. Note-se a utilização do pronome “ele” na passagem “contar para ele”. A sua função primordial é atuar como sujeito do verbo da oração. Aliás, obrigação que se estende aos demais dessa categoria: eu, tu, ela, nós, vós, eles (as). Isso posto, a condição de objeto ou complemento do verbo será exercida pelos “pronomes pessoas do caso obliquo”: me , mim, te, ti, lhe, o, a e outros. Portanto, a oração estará correta se, ao invés de empregarmos o pronome “ele” como complemento do verbo “contar”, utilizarmos o correspondente objeto de tal pronome. O “lhe”. Teremos então: “Contar-lhe”.

Posteriormente, ao ser interrogado sobre a “expectativa para a dengue”, o Secretário fez menção ao grande esforço empreendido pelos municípios no combate à doença e sua esperança de que “o número de criadouros de mosquito diminua bastante e qu a gente não tenha um grande surto neste verão”. Marca indelével do coloquialismo o uso da expressão “a gente”, certamente, mais formal e correto; porém, admito, menos solidário teria sido o Secretário se tivesse dito: “e que nós não tenhamos um grande surto”. O termo “gente” largamente utilizado por nós, sem dúvida, tem a propriedade inerente de aproximar os falantes, acentuar-lhes a intimidade. Mas, mister que se diga, é expressão a ser evitada, mesmo que, assim agindo, ressaltemos a distância que nos separa de nossos ouvintes.

Resta uma pergunta ser respondida antes de finalizarmos o nosso primeiro encontro. Por que pessoas com ótima formação cultural, como nossos Ministro e Secretário, cometem, às vezes, alguns deslizes gramaticais?

Creio que os “escorregões” lingüísticos foram perpetuados porque a intenção primeira e vital dos entrevistados foi efetivar a comunicação. Empregaram-se, por conta, expressões de gosto duvidoso, mas aptas a facilitar e contato com os leitores, objetivo essencial dos depoentes.

Situação análoga ocorre quando, por força da dinâmica de nossa atividade profissional, se faz necessário o diálogo com nossos colegas de trabalho. Aceitemos, pois, os coloquialismos, as gírias, os neologismos. Entretanto, apostemos igualmente na capacidade de aperfeiçoamento de nossa expressão lingüística. O resultado, por certo, será o enriquecimento profissional e pessoal. Até o nosso próximo encontro.