CAPA
A
redução de leitos
Criar
um código nacional de saúde é vista como uma das
necessidades da Saúde
Pesquisa
divulgada pela Federação Brasileira de Hospitais (FBH),
no fim do ano passado, alerta para um fenômeno preocupante da
saúde brasileira: dificuldades financeiras do setor hospitalar
reduziram em quase 10% o número de leitos particulares e disponíveis
para o Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2000, havia 487
mil leitos hospitalares. Em 2003, esse número caiu para 441,8
mil. A principal razão que puxou esse decréscimo foi o
fechamento de hospitais privados de grande porte contratados pelo SUS.
Segundo dados da FBH, 656 estabelecimentos fecharam as portas nesse
período. Desses, 77,5% eram privados. Há di-versas justificativas
que explicam a dificuldade do setor. Entre as principais reclamações
estão os baixos repasses do SUS, excesso de burocracia e regulamentações
e a crescente necessidade de se investir em novas tecnologias.
Mas, atentando-se somente à pesquisa da FBH, por qual razão
os hospitais brasileiros estão fechando nessa proporção?
Será apenas a falta de boas estratégias de gestão?
Na opinião do presidente da Associação Brasileira
de Marketing Hospitalar (ABMS), Celso Miguel Skrabe, o “ínfimo”
repasse do SUS e a necessidade de investimento em novas tecnologias
explicam a bancarrota dessas instituições. “O SUS
repassa cerca de R$ 8 por diária hospitalar. É muito baixo.
Não há saída: os hospitais que dependem totalmente
do SUS ou fecharam ou vão fechar”, enfatiza.
O governo federal destina cerca de 7,6% do Produto Interno Bruto (PIB)
ao setor, de acordo com dados do Banco Mundial. Mesmo comparado a outros
países da América do Sul, esse número é
relativamente baixo. A Argentina destina 9,5% do PIB e o Uruguai, 10,9%.
Por já ser considerado baixo o repasse, houve fortes críticas
e manifestações de repúdio quando, em 2003, o governo
decidiu repassar a parte do orçamento da pasta da saúde
para programas de saneamento básico e combate à fome,
sob a justificativa de serem medidas preventivas. Claro que medidas
preventivas colaboram na redução dos gastos curativos,
mas a carência do setor é tão fragrante que qualquer
redução causa impacto negativo.
A
Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou ano
passado os gastos públicos em saúde por habitante de cada
país. O Brasil gastou U$ 238, enquanto a Argentina aplicou U$
604 e os Estados Unidos, U$ 2.168. Para a Confederação
Nacional de Saúde (CNS) essa é uma das principais justificativas
que explicam as dificuldades de se manter um sistema de saúde
eficaz no País. O Brasil é um dos países que menos
investem em saúde no mundo e, obviamente, isso se reflete no
atendimento à população”. De forma resumida,
são três os pontos que dificultam a vida dos hospitais.
Começa com a falta de financiamento, passa pelas freqüentes
alterações de legislação e culmina com o
grande, e caro, desenvolvimento tecnológico exigido pelo setor.
Outra conseqüência grave da crise da redução
de leitos, segundo estudo publicado na edição de novembro
do informe Panorama Setorial, é a queda na aquisição
de novos equipamentos e a diminuição dos investimentos
em manutenção. Um levantamento realizado pelo Conselho
Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) entre 2001 e 2003,
junto a onze hospitais gerais e prontos-socorros no Estado de São
Paulo, apontou a falta de equipamentos e de materiais essenciais. Em
56,6% das Unidades de Terapia Intensiva, por exemplo, não existiam
equipamentos básicos, como monitores cardíacos ou fontes
de ar comprimido, e cerca de um terço dos hospitais pesquisados
não controlava a esterilização de materiais. A
capacidade de investimento do setor está comprometida por dívidas,
recolhimento de impostos e obrigações trabalhistas. Levantamento
realizado pela CNS, em outubro de 2003, mostrou que os hospitais tinham
uma dívida de cerca de R$ 6 bilhões somente com a Previdência
Social. Some-se a esse quadro a remuneração do SUS abaixo
do custo de atendimento e a crise entre hospitais e as empresas de saúde
suplementar.
As reclamações gerais são vistas, em parte, como
justas pelo governo federal. A coordenadora geral de Atenção
Hospitalar do Ministério da Saúde, Elaine Machado López,
assume que o repasse do SUS em intervenções de baixa e
média complexidade está defasado. “Concordo que
esteja abaixo do necessário. Mas estamos com um repasse bom para
intervenções de alta
complexidade. Mas, de forma geral, o Brasil precisa de mais dinheiro
para a saúde”, diz.
Apesar do reconhecer esse déficit, ela comenta que há
outras medidas importantes sendo feitas na área e que não
se pode encerrar o assunto somente no que tange ao repasse do SUS. “Nos
últimos dois anos, houve um acréscimo de 4,5 bilhões
de reais ao setor. Além disso, o governo está investindo
em reformas estruturais complexas e fundamentais, que demandam tempo
para estarem prontas”,
afirma.
Crise
financeira é uma das causas da redução em quase
10% do número de leitos hospitalares no país
Outra
medida importante, segundo ela, é o novo incremento de recursos
a instituições certificadas como hospitais universitários.
“Foram alocados mais de R$ 66 milhões a esses hospitais,
além dos recursos que já eram repassados”. Sobre
a notícia da queda de 9% no número de leitos hospitalares,
a coordenadora confirma a informação, mas destaca que
o número de leitos ainda está num patamar bom. “Recomenda-se
que haja 2,5 leitos para cada mil habitantes. Possuímos 2,7 para
cada mil. Não há grave problema quanto a isso”.
Para Skrabe, é fundamental a união de esforços
governamentais e privados para aumentar para cerca de 10% a fatia do
PIB destinado ao setor. Para o especialista, cinco anos são suficientes
para chegar a esse patamar. “Se a saúde parar de ser tratada
com medidas paliativas e a área criar uma estratégia de
ações, que abranja tanto o governo quanto o setor privado,
é possível chegarmos aos 10% em cinco anos e, desse modo,
teremos um indicador macroeconômico transparente e confiável,
a prova de malabarismos ‘econométricos’”.
Para chegar a esse nível, é visto como peça fundamental
a flexibilização das leis, portarias e resoluções,
consideradas demasiadas e confusas. No Brasil ocorre a chamada ‘sobreposição
de leis’ no setor. Como o Governo Federal, os estados e os municípios
possuem órgãos próprios de vigilância às
práticas hospitalares e de saúde, há o risco de
uma agência municipal criar uma determinação que
seja conflitante com a federal, por exemplo. Ou, mais comum, causar
aumento de burocracia ao administrador hospitalar, já que ele
precisa responder a vários órgãos diferentes.
O advogado especialista na área de saúde Cassiano Rodrigues
Botelho, de São Paulo, propõe uma solução
– também defendida por outros especialistas na área:
a criação de um código nacional de saúde,
sendo essa a legislação única e universal a ser
seguida.
A medida, segundo o ele, dirimiria as confusões jurídicas
tão comuns no setor. “No País não há
excesso de legislação, mas sim confusão entre elas.
Se concentrarmos todas em um código único seria muito
mais fácil para o Governo, hospitais e pacientes“, diz.
“As
falhas na área administrativa também colaboraram com a
atual crise. Embora o setor hospitalar tenha iniciado um processo de
modernização, ainda prevalece, na maioria das unidades,
a falta de profissionalização de seus gestores”,
analisa o Panorama Setorial. A saúde precisa de reestruturação,
e ramos do setor parecem estar se preparando para chegar, em alguns
anos, a níveis satisfatórios na área. Segundo Abrahão,
o modelo ideal é “um sistema de saúde que pudesse
atender, dentro dos princípios de universalidade, igualdade e
integralidade da assistência à saúde a toda população,
como prega a lei nº 8.080, que dispõe sobre as condições
para promoção e execução do SUS”.
Segundo
a opinião geral, basta haver gestão profissional, integração
entre poder público e o setor privado e um plano estratégico
de ações, que será possível à saúde
chegar a esse nível.
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Estudo
mostra como os leitos migraram |
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No
estudo sobre tendências do setor da saúde no Brasil,
preparado pelo administrador hospitalar Paulo Camara e apresentado
em setembro do ano passado no 25º Congresso do Colégio
Uruguaio de Administração de Serviços de
Saúde, fica clara a queda dos leitos na última década.
De acordo com o estudo, de 1994 a 2003, o número de unidades
pertencentes à rede hospitalar do SUS caiu de 6.365 para
5.864 hospitais, segundo o Sistema de Informações
Hospitalares do SUS do Ministério da Saúde. Houve
uma redução de 22% quanto aos hospitais lucrativos
e menos 2% no que se refere aos filantrópicos. Essas unidades
aumentaram apenas nos hospitais públicos, que cresceram
3%. A rede federal reduziu em 82% suas unidades na rede do SUS,
seguidas da rede estadual, que caiu 21%. Essa lacuna teve que
ser assumida pela rede municipal, que passou de 1.035 para 1.602
unidades, um aumento de 54%.
O mesmo estudo mostra que o número de leitos, em relação
a 1994, caiu 13% no geral. A redução mais acentuada
se deu nos hospitais “lucrativos”, menos 37%, enquanto
o setor público e os filantrópicos aumentaram seus
leitos em cerca de 14%. Outro dado importante do estudo de Camara
demonstra que a municipalização dos serviços
de saúde assumiu 60% dos leitos extintos pelas rede federal
(menos 78%) e estadual (menos 1,6%). As internações,
por sua vez, caíram 20%. Nesse caso, se a queda do número
de inter-nados fosse seguida de medidas de gestão mais
eficazes a desospitalização poderia ser consi-derado
um avanço. Não foi esse o caso, já que os
programas de saúde preventiva e saúde da família
ainda atinge uma pequena parte da população brasileira.
Paralelamente, a isso, outro estudo, desta vez realizado pela
Confederação das Santas Casas de Misericórdia,
Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB), revelou que
o volume da dívida dos seus hospitais associados já
chega a R$ 1,5 bilhão, que corres-ponde a cerca de quatro
meses de faturamento do SUS.
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