MARÇO
DE 2005
NÚMERO 46
ANO 4

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COM A PALAVRA
 
Richard Mascara

Consultor, professor de Lingua portuguesa e advogado em São Paulo

Arre, verbos

Amigos, pergunto-lhes. Qual a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo pular? Ora, simples, vocês dirão certamente: eu pulo. Correto! E se eu perguntar qual é a primeira do presente do verbo polir? Opa, deve ser eu polo! Que tal? Infelizmente, não é essa a forma certa. O correto é: eu pulo também. Formas iguais para verbos diferentes, portanto. Então indago. Como saberemos qual é o verbo que efetivamente se conjuga? Claro que meu sabido leitor responderá: pelo contexto em que se insere a frase, ora pois. Correto novamente! Entretanto. E se a oração for constituída assim: eu pulo o carro a fim de me exercitar. E agora?

Pois é, meus caríssimos leitores, conjugar verbo na língua portuguesa não é mole! E observem que cito verbos de uso corrente; simples e que caracterizam ações cotidianas. E se exigíssemos a conjugação de verbos como: zurzir, ajoujar, apropinquar-se, engazopar... Por certo tudo ficará muito mais difícil.

Embora boa parte de nossos verbos apresente suas conjugações fundamentadas na tradição. Ou seja o uso corrente fez, ao longo do tempo, de suas formas usadas no dia-a-dia as corretas ou oficiais, por assim dizer. Logo, a culpa, com todo respeito, é de Camões e de nossos avós. É possível utilizar alguns critérios que, se não eliminam todas as dificuldades, pelo menos nos ajudam a escapar de muitas enrascadas. Aqui vão algumas dicas.

Para conjugar um verbo, seja ele qual for, é preciso que se lhe conheça, pelo menos, o presente do indicativo. Tempo essencial dessa conjugação.

Os nossos verbos podem ser classificados fundamentalmente em três categorias: regulares, irregulares e defectivos. Os primeiros são assim denominados, pois ao ser conjugados não sofrem alteração em seus radicais (obtém-se o radical, em regra, eliminando-se a conjugação à qual pertence. O que sobra haverá de ser o seu radical. Exemplo: cantar, radical “cant”; vender, radical “vend”; partir, radical “part” e assim por diante). Os segundos, por extensão, são aqueles que sofrem alteração em seus radicais. Exemplo: caber (eu caibo); requerer (eu requeiro); fazer (eu faço) etc. Os últimos são aqueles que apresentam conjugação incompleta. Por exemplo, reaver, que apresenta no presente do indicativo e, portanto, com conseqüências para o resto da conjugação, as formas: nós reavemos; vós reaveis. Abolir, que exibe todas as formas, no presente do indicativo, com exceção da primeira pessoa do singular. Assim: tu aboles; ele/a abole; abolimos, abolis, abolem. Tais verbos são importantes porque revelam, a rigor, um parâmetro seguido por outros. A saber: falir, precaver-se, ressarcir, remir, adequar-se... respeitam o modelo estabelecido por reaver; banir; demolir; colorir; explodir... seguem o paradigma abolir. Pois é, amigo leitor, você pode arrebentar-se, estouro, mas não pode explodir.

Isso posto, voltemos ao presente do indicativo. Como vimos, forma primordial da conjugação de um verbo. Dele derivam, por exemplo, dois tempos verbais de suma importância. O presente do subjuntivo e o imperativo. O primeiro originar-se á da primeira pessoa do presente do indicativo do verbo que se deseja conjugar.
Assim os verbos de primeira conjugação apresentarão vogal temática “e” agregada ao seu radical (a vogal temática corresponde à primeira vogal após o radical). Então: que eu cante; que eu pense; que eu ame. Os de segunda e de terceira conjugações terão vogal temática “a”. Logo, que eu venda; que eu parta; que eu caiba; que eu diga. E atente, laborioso e paciente leitor, para a imperativa necessidade de manutenção da mesma vogal nas demais formas do referido tempo verbal.

Ocorre-me a seguinte indagação: como será a conjugação de tal tempo em relação aos verbos defectivos? Diga-se de passagem, de fato, questão de alta indagação! Pois é, não será!

Examinemos esta frase: que eu me precavenha dos perigos e armadilhas deste mundo é muito importante. Oração bonita e sonora. É quase literalmente uma prece. Há, entretanto, um pequeno problema: ela não existe! Não há presente do subjuntivo para tal verbo (precaver) como inexiste para todos os demais defectivos.

Então, como faremos? Perguntará meu incrédulo e meio desconfiado leitor. As ausências, respondo, serão suprimidas por verbos sinônimos. Assim: que eu me acautele é importante. De fato. Que eu me arrebente ou estoure e assim por diante.

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