Consultor, professor
de Lingua portuguesa e advogado em São Paulo
Arre,
verbos
Amigos, pergunto-lhes. Qual a primeira pessoa do presente do indicativo
do verbo pular? Ora, simples, vocês dirão certamente: eu
pulo. Correto! E se eu perguntar qual é a primeira do presente
do verbo polir? Opa, deve ser eu polo! Que tal? Infelizmente, não
é essa a forma certa. O correto é: eu pulo também.
Formas iguais para verbos diferentes, portanto. Então indago. Como
saberemos qual é o verbo que efetivamente se conjuga? Claro que
meu sabido leitor responderá: pelo contexto em que se insere a
frase, ora pois. Correto novamente! Entretanto. E se a oração
for constituída assim: eu pulo o carro a fim de me exercitar. E
agora?
Pois é, meus caríssimos leitores, conjugar verbo na língua
portuguesa não é mole! E observem que cito verbos de uso
corrente; simples e que caracterizam ações cotidianas. E
se exigíssemos a conjugação de verbos como: zurzir,
ajoujar, apropinquar-se, engazopar... Por certo tudo ficará muito
mais difícil.
Embora boa parte de nossos verbos apresente suas conjugações
fundamentadas na tradição. Ou seja o uso corrente fez, ao
longo do tempo, de suas formas usadas no dia-a-dia as corretas ou oficiais,
por assim dizer. Logo, a culpa, com todo respeito, é de Camões
e de nossos avós. É possível utilizar alguns critérios
que, se não eliminam todas as dificuldades, pelo menos nos ajudam
a escapar de muitas enrascadas. Aqui vão algumas dicas.
Para conjugar um verbo, seja ele qual for, é preciso que se lhe
conheça, pelo menos, o presente do indicativo. Tempo essencial
dessa conjugação.
Os nossos verbos podem ser classificados fundamentalmente em três
categorias: regulares, irregulares e defectivos. Os primeiros são
assim denominados, pois ao ser conjugados não sofrem alteração
em seus radicais (obtém-se o radical, em regra, eliminando-se a
conjugação à qual pertence. O que sobra haverá
de ser o seu radical. Exemplo: cantar, radical “cant”; vender,
radical “vend”; partir, radical “part” e assim
por diante). Os segundos, por extensão, são aqueles que
sofrem alteração em seus radicais. Exemplo: caber (eu caibo);
requerer (eu requeiro); fazer (eu faço) etc. Os últimos
são aqueles que apresentam conjugação incompleta.
Por exemplo, reaver, que apresenta no presente do indicativo e, portanto,
com conseqüências para o resto da conjugação,
as formas: nós reavemos; vós reaveis. Abolir, que exibe
todas as formas, no presente do indicativo, com exceção
da primeira pessoa do singular. Assim: tu aboles; ele/a abole; abolimos,
abolis, abolem. Tais verbos são importantes porque revelam, a rigor,
um parâmetro seguido por outros. A saber: falir, precaver-se, ressarcir,
remir, adequar-se... respeitam o modelo estabelecido por reaver; banir;
demolir; colorir; explodir... seguem o paradigma abolir. Pois é,
amigo leitor, você pode arrebentar-se, estouro, mas não pode
explodir.
Isso posto, voltemos ao presente do indicativo. Como vimos, forma primordial
da conjugação de um verbo. Dele derivam, por exemplo, dois
tempos verbais de suma importância. O presente do subjuntivo e o
imperativo. O primeiro originar-se á da primeira pessoa do presente
do indicativo do verbo que se deseja conjugar.
Assim os verbos de primeira conjugação apresentarão
vogal temática “e” agregada ao seu radical (a vogal
temática corresponde à primeira vogal após o radical).
Então: que eu cante; que eu pense; que eu ame. Os de segunda e
de terceira conjugações terão vogal temática
“a”. Logo, que eu venda; que eu parta; que eu caiba; que eu
diga. E atente, laborioso e paciente leitor, para a imperativa necessidade
de manutenção da mesma vogal nas demais formas do referido
tempo verbal.
Ocorre-me a seguinte indagação: como será a conjugação
de tal tempo em relação aos verbos defectivos? Diga-se de
passagem, de fato, questão de alta indagação! Pois
é, não será!
Examinemos esta frase: que eu me precavenha dos perigos e armadilhas deste
mundo é muito importante. Oração bonita e sonora.
É quase literalmente uma prece. Há, entretanto, um pequeno
problema: ela não existe! Não há presente do subjuntivo
para tal verbo (precaver) como inexiste para todos os demais defectivos.
Então, como faremos? Perguntará meu incrédulo e meio
desconfiado leitor. As ausências, respondo, serão suprimidas
por verbos sinônimos. Assim: que eu me acautele é importante.
De fato. Que eu me arrebente ou estoure e assim por diante.
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