MARÇO
DE 2005
NÚMERO 46
ANO 4

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CRÔNICAS MÉDICAS
 
José Rodrigues Lousa

Médico e Escritor


Um amor platônico


Durante algumas décadas utilizei o automóvel para me locomover de um bairro para outro, a fim de poder chegar aos vários locais onde exercia minhas atividades profissionais. Assim, durante muitos anos passei pelas mesmas ruas e avenidas e tive a oportunidade de acompanhar o crescimento vertiginoso de São Paulo. Vi ruas estreitas, sem calça-mento, transformarem-se em grandes avenidas asfaltadas. Vi grandes viadutos nascerem e atravessarem vales, unindo pontos da cidade que pareciam inacessíveis. Vi bairros operários serem ocupados por gigantescos arranha-céus – enormes pilares de concreto – sem o calor das pequeninas casas que foram substituindo. Vi favelas nascerem tímidas, rapidamente crescerem e também, num instante, desaparecerem ocupadas pelos diversos e sempre insuficientes projetos habitacionais. Acompanhei, como alguém que passa e observa, pessoas irem enriquecendo – carros novos na garagem – e também outras aos poucos empobrecendo. Negócios irem prosperando, acrescidos de novas portas e outros melancolicamente encerrarem suas atividades. Passei a fazer compras durante o meu percurso: o jornal, as revistas. Aproveitava quando havia tempo, para tomar um lanche, sempre em locais pelos quais passava e onde era permitida, por alguns momentos, a parada do meu carro. Precisava aproveitar os poucos minutos gastos no trânsito ensandecedor da nossa capital!

Nessa rotina, durante tanto tempo, muitas coisas curiosas, estranhas, engraçadas e por que não também românticas, me aconteceram. Uma delas voltou-me recente-mente à memória... e vou lhes contar como. Numa bonita tarde de primavera, como estava com o horário mais folgado, alterei um pouco a minha rotina, tomando outras ruas. Era uma forma de me distrair e conhecer melhor o bairro. Entrei em um loteamento novo, com árvores recentemente plantadas nas calçadas e muitas casas em construção.Fui passando com calma, observando os edifícios novos, já terminados. Residências típicas de classe média, de operários qualificados, de chefes de seção, a maioria delas bem cuidadas, com um pequeno jardim. Algumas delas com hortaliças e especiarias plantadas e outras com jardins floridos.

Foi então que subitamente vi, defronte a uma delas, passeando na calçada - e trazendo na coleira um saltitante cocker spaniel preto - uma garota bonita que chamou minha atenção. Deveria ter seus dezoitos ou vinte anos. Trajava uma roupa esporte, clara e simples, cabelos compridos, castanhos, presos em um "rabo-de-cavalo", olhos claros, brilhantes, pele morena, caminhar airoso, nem magra, nem gorda, mas bastante elegante. Irradiava juventude, beleza e alegria. Fixei meu olhar nela durante os poucos momentos em que passava lentamente pela rua, enquanto ela brincava com o seu cachorro. Não sei se ela notou a insistência com que eu a observava. Mas eu guardei a imagem da jovem bonita que me impressionou e que por alguns instantes iluminou a minha tarde.

Uns dias depois, não sei porque, resolvi passar pela mesma rua, na esperança de vê-la uma vez mais. Fui surpreendido pelo fato de encontrá-la novamente.

Brincava com seu cachorro no jardim de sua casa. Quase parei o carro para poder observá-la bem. De fato, a minha primeira impressão tinha sido real,ela era linda e encantadora, com seus longos cabelos soltos, emoldurando um rosto delicado. Olhei-a insistentemente e ela re parou no meu olhar e também fitou-me brevemente.

Procurei então, sempre que podia, demorar mais alguns minutos para chegar ao serviço e passar na porta de sua casa. Talvez em função do horário - fim de tarde - ela freqüentemente estava ou no jardim ou na calçada, quase sempre com o cãozinho. Eu passava com o carro, parando e a fitava fixa e insistentemente. Aos poucos ela passou a corresponder ao meu olhar. Depois começou a sorrir alegremente para mim. Assim ficamos bastante tempo, nessa brincadeira - quase um namoro. Mais ou menos uma ou duas vezes por semana escolhia o trajeto que permitia cruzar pela sua casa e quase sempre lá estava ela, e nossos olhares se encontravam e sorríamos...e só.

O que será que ela pensava de mim? E eu o que pretendia? Será que aquela linda menina se imaginava uma Cinderela do século vinte, esperando o seu príncipe encantado que em sua carruagem vinha vê-la às escondidas, de vez em quando, procurando-a com seu olhar apaixonado? E eu, o que pensava, o que pretendia, vindo à sua porta, mais ou menos uma vez por semana e irregularmente, apenas para vê-la, sem nunca ter sequer parado o carro, sem nunca ter sequer tentado trocar com ela uma só e única palavra?Será que sabia que o seu olhar, ao corresponder, sorrindo ao meu, acendia uma fogueira em meu coração?

Porém a vida toma os rumos mais diversos, eu mudei meu local de trabalho... outro bairro...outra direção...novos caminhos e novos itineráriosa seguir. Não passei mais naquela rua, que fora por algum tempo meu encanto.

Ficou-me apenas a lembrança, daquela linda menina morena que havia trazido um pouco de ilusão a algumas de minhas tardes e durante um breve período!

Esqueci-me dela! Passaram-se muitos anos, até que um dia voltei novamente a passar, mais ou menos no mesmo horário - fim de tarde - pela rua que eu já tinha esquecido. São Paulo muda muito, mas alguns bairros mantêm-se com a mesma aparência por décadas. Era esse o caso. As árvores estavam muito maiores e faziam bastante sombra. A maioria das ruas estava asfaltada, mas seguramente era essa a rua. Procurei a casa, passando devagar e subitamente senti um cala-frio. Avistei a residência e no jardim uma menina, brincando com um cachorro... só depois de alguns momentos, em que parei o carro sob o impacto daquela imagem é que me lembrei que já se haviam passado quinze ou vinte anos. Era a mesma casa, mas noutro tempo... duas décadas depois... outro cãozinho. Este era um poodle... e outra menina e outra realidade!

Senti por uns instantes as mesmas sensações do passado... e comecei a pensar. Que teria acontecido com a minha Cinderela? Teria sido feliz como eu o fui durante todos esses anos? Será que ainda estava morando no mesmo lugar? É claro que essas perguntas ficaram sem resposta. Foram porém motivo de recordação, de lembrança e de saudade de um tempo que já passara!

Despertaram também na minha memória os sonhos felizes e inocentes de um amor platônico vivido na minha juventude.

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