Médico
e Escritor
Um
amor platônico
Durante algumas décadas utilizei o automóvel para me locomover
de um bairro para outro, a fim de poder chegar aos vários locais
onde exercia minhas atividades profissionais. Assim, durante muitos anos
passei pelas mesmas ruas e avenidas e tive a oportunidade de acompanhar
o crescimento vertiginoso de São Paulo. Vi ruas estreitas, sem
calça-mento, transformarem-se em grandes avenidas asfaltadas. Vi
grandes viadutos nascerem e atravessarem vales, unindo pontos da cidade
que pareciam inacessíveis. Vi bairros operários serem ocupados
por gigantescos arranha-céus – enormes pilares de concreto
– sem o calor das pequeninas casas que foram substituindo. Vi favelas
nascerem tímidas, rapidamente crescerem e também, num instante,
desaparecerem ocupadas pelos diversos e sempre insuficientes projetos
habitacionais. Acompanhei, como alguém que passa e observa, pessoas
irem enriquecendo – carros novos na garagem – e também
outras aos poucos empobrecendo. Negócios irem prosperando, acrescidos
de novas portas e outros melancolicamente encerrarem suas atividades.
Passei a fazer compras durante o meu percurso: o jornal, as revistas.
Aproveitava quando havia tempo, para tomar um lanche, sempre em locais
pelos quais passava e onde era permitida, por alguns momentos, a parada
do meu carro. Precisava aproveitar os poucos minutos gastos no trânsito
ensandecedor da nossa capital!
Nessa rotina, durante tanto tempo, muitas coisas curiosas, estranhas,
engraçadas e por que não também românticas,
me aconteceram. Uma delas voltou-me recente-mente à memória...
e vou lhes contar como. Numa bonita tarde de primavera, como estava com
o horário mais folgado, alterei um pouco a minha rotina, tomando
outras ruas. Era uma forma de me distrair e conhecer melhor o bairro.
Entrei em um loteamento novo, com árvores recentemente plantadas
nas calçadas e muitas casas em construção.Fui passando
com calma, observando os edifícios novos, já terminados.
Residências típicas de classe média, de operários
qualificados, de chefes de seção, a maioria delas bem cuidadas,
com um pequeno jardim. Algumas delas com hortaliças e especiarias
plantadas e outras com jardins floridos.
Foi então que subitamente vi, defronte a uma delas, passeando na
calçada - e trazendo na coleira um saltitante cocker spaniel preto
- uma garota bonita que chamou minha atenção. Deveria ter
seus dezoitos ou vinte anos. Trajava uma roupa esporte, clara e simples,
cabelos compridos, castanhos, presos em um "rabo-de-cavalo",
olhos claros, brilhantes, pele morena, caminhar airoso, nem magra, nem
gorda, mas bastante elegante. Irradiava juventude, beleza e alegria. Fixei
meu olhar nela durante os poucos momentos em que passava lentamente pela
rua, enquanto ela brincava com o seu cachorro. Não sei se ela notou
a insistência com que eu a observava. Mas eu guardei a imagem da
jovem bonita que me impressionou e que por alguns instantes iluminou a
minha tarde.
Uns dias depois, não sei porque, resolvi passar pela mesma rua,
na esperança de vê-la uma vez mais. Fui surpreendido pelo
fato de encontrá-la novamente.
Brincava com seu cachorro no jardim de sua casa. Quase parei o carro para
poder observá-la bem. De fato, a minha primeira impressão
tinha sido real,ela era linda e encantadora, com seus longos cabelos soltos,
emoldurando um rosto delicado. Olhei-a insistentemente e ela re parou
no meu olhar e também fitou-me brevemente.
Procurei então, sempre que podia, demorar mais alguns minutos para
chegar ao serviço e passar na porta de sua casa. Talvez em função
do horário - fim de tarde - ela freqüentemente estava ou no
jardim ou na calçada, quase sempre com o cãozinho. Eu passava
com o carro, parando e a fitava fixa e insistentemente. Aos poucos ela
passou a corresponder ao meu olhar. Depois começou a sorrir alegremente
para mim. Assim ficamos bastante tempo, nessa brincadeira - quase um namoro.
Mais ou menos uma ou duas vezes por semana escolhia o trajeto que permitia
cruzar pela sua casa e quase sempre lá estava ela, e nossos olhares
se encontravam e sorríamos...e só.
O que será que ela pensava de mim? E eu o que pretendia? Será
que aquela linda menina se imaginava uma Cinderela do século vinte,
esperando o seu príncipe encantado que em sua carruagem vinha vê-la
às escondidas, de vez em quando, procurando-a com seu olhar apaixonado?
E eu, o que pensava, o que pretendia, vindo à sua porta, mais ou
menos uma vez por semana e irregularmente, apenas para vê-la, sem
nunca ter sequer parado o carro, sem nunca ter sequer tentado trocar com
ela uma só e única palavra?Será que sabia que o seu
olhar, ao corresponder, sorrindo ao meu, acendia uma fogueira em meu coração?
Porém a vida toma os rumos mais diversos, eu mudei meu local de
trabalho... outro bairro...outra direção...novos caminhos
e novos itineráriosa seguir. Não passei mais naquela rua,
que fora por algum tempo meu encanto.
Ficou-me apenas a lembrança, daquela linda menina morena que havia
trazido um pouco de ilusão a algumas de minhas tardes e durante
um breve período!
Esqueci-me dela! Passaram-se muitos anos, até que um dia voltei
novamente a passar, mais ou menos no mesmo horário - fim de tarde
- pela rua que eu já tinha esquecido. São Paulo muda muito,
mas alguns bairros mantêm-se com a mesma aparência por décadas.
Era esse o caso. As árvores estavam muito maiores e faziam bastante
sombra. A maioria das ruas estava asfaltada, mas seguramente era essa
a rua. Procurei a casa, passando devagar e subitamente senti um cala-frio.
Avistei a residência e no jardim uma menina, brincando com um cachorro...
só depois de alguns momentos, em que parei o carro sob o impacto
daquela imagem é que me lembrei que já se haviam passado
quinze ou vinte anos. Era a mesma casa, mas noutro tempo... duas décadas
depois... outro cãozinho. Este era um poodle... e outra menina
e outra realidade!
Senti por uns instantes as mesmas sensações do passado...
e comecei a pensar. Que teria acontecido com a minha Cinderela? Teria
sido feliz como eu o fui durante todos esses anos? Será que ainda
estava morando no mesmo lugar? É claro que essas perguntas ficaram
sem resposta. Foram porém motivo de recordação, de
lembrança e de saudade de um tempo que já passara!
Despertaram também na minha memória os sonhos felizes e
inocentes de um amor platônico vivido na minha juventude.
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