Cooperação: suporte da excelência na Saúde
Uma
marcante característica da organização hospitalar
é a presença de "subculturas" (o modo coletivo
de pensar, sentir, atuar, decidir, e reagir das diferentes categorias
profissionais) dentro de uma cultura maior. O que isso representa? A
instituição hospitalar é formada por profissionais
de diferentes especialidades e origens que interagem com vistas à
concretização de um objetivo comum (missão).
Esse objetivo pode não ser percebido ou aceito por todos os profissionais
que compõem a rede do sistema, mas ele existe. Sua conquista
dependente da (inter) ação conjunta e não da ação
isolada. E, principalmente, é facilmente percebido pelo usuário-cliente
do serviço, que vê e sente o todo, não apenas as
partes.
Temos assim os diversos grupos de especialidades, com grande autonomia,
poder e controle sobre as suas práticas cotidianas, com características
profissionais e comportamentais próprias, com hábitos,
valores e visões diversas e às vezes antagônicas
em relação aos demais grupos internos ou em relação
à própria missão institucional. São comunidades
específicas, dentro de uma comunidade maior, interagindo. São
subculturas, formando e sendo formadas pela cultura total do sistema.
Essa peculiaridade é marcante, tornando o processo de gestão
mais complexo e desafiador, sobretudo devido ao fato de que o desempenho
global das organizações hospitalares é afetado
diretamente pelo modo como essas diferentes comunidades de especialistas
agem e interagem, de forma individual e coletiva. O desempenho de cada
profissional, de cada especialidade, de cada subgrupo dentro do grupo
é que resultam no desempenho global. Estão, portanto,
todos estão interligados, interdependentes.
A não observância dessas questões compromete sobremaneira
os projetos de melhoria da qualidade, da busca pela excelência,
da acreditação e da busca pela própria eficácia.
Sabemos que não há “meia qualidade” nem “excelência
mais ou menos”.
Embora possamos escolher iniciar uma melhoria ou um projeto de mudança
numa área específica da organização, o foco
será sempre o sistema “todo” e não apenas
uma das suas partes. Como o desempenho global concretiza-se por meio
do desempenho das partes, e como as partes não geram esses resultados
globais apenas a partir de uma atuação isolada, mas fundamentalmente,
a partir de ações integradas, podemos destacar a cooperação
como sendo um fator crítico, um dos sustentáculos da excelência
organizacional.
Ora,
dos mais variados desafios enfrentados nos projetos de melhoria da qualidade
e da busca da excelência nas organizações da saúde,
ganha destaque a falta de cooperação entre os segmentos
envolvidos, a atuação isolada e até mesmo competitiva
entre os indivíduos, e entre os grupos de profissionais.
Em termos léxicos cooperar significa “agir ou trabalhar
junto com outro ou outros para um fim comum; colaborar; agir conjuntamente
para produzir um efeito”. Não se constrói uma organização
de excelência ou até mesmo uma comunidade forte, sem a
presença da cooperação na base das relações
sociais.
Em muitas organizações o quadro verificado inibe o florescimento
da cooperação, como valor, como cultura e como prática.
Os interesses e pontos de vistas dos diversos profissionais e segmentos
de especialistas, em muitos casos, não são compartilhados
ou sequer compartilháveis.
As crenças e valores divergentes elevam a intensidade dos conflitos
que por sua vez alimenta a competição e a desconfiança,
gerando quadros paradoxais e difíceis de serem compreendidos
pela sua natureza.
Não é raro assistir a competição entre os
próprios integrantes e também não é raro
ter a própria organização que criar mecanismos
de proteção e controle contra as ações competitivas
dos seus integrantes contra si mesma. Cria-se uma arena de competição
e divergências intestinas como se fossem organizações
rivais, quando na verdade são integrantes de uma mesma entidade
e poderiam, na cooperação, conciliar os interesses com
vistas aos objetivos comuns.
A lógica desse quadro pode ser bem retratada por uma parábola
escrita no século 18 pelo filósofo escocês David
Hume, descrita no opúsculo “Por uma Cultura de Cooperação:
Capital Social e Mobilização Empresarial de Base”
de Antônio Carlos Gomes da Costa, editado pelo Sebrae –
2002: “Teu milho está maduro hoje. O meu estará
amanhã. È vantajoso para nós dois que eu te ajude
a colhê-lo hoje e que tu me ajudes amanhã. Não tenho
amizade por ti e sei que também não tens por mim. Portanto,
não farei nenhum esforço em teu favor. Sei que, se eu
te ajudar, esperando alguma retribuição, certamente me
decepcionarei, pois não poderei contar com a tua gratidão.
Então, deixo de ajudar-te e tu me pagas na mesma moeda. As estações
mudam. E nós perdemos parte de nossas colheitas por falta de
confiança mútua”.
Para o florescer da cooperação é imprescindível
que tenhamos confiança. Não aquela confiança interpessoal
presente nas relações de amizade, nos laços familiares
etc, mas aquela que os autores têm chamado de confiança
social, e que Bernardo Willians tem caracterizado como sendo uma confiança
baseada na “expectativa da reciprocidade entre direitos e deveres,
entre o que se dá e o que se recebe na relação”.
Esta concepção estimula uma importante reflexão
sobre os processos internos, sobre como nós nos relacionamos
na cadeia de valor, especialmente sobre nossa visão, sobre como
aquilo que nós fazemos contribui para a ação e
o resultado do outro e como o resultado do outro contribui para mim
e para o progresso da organização da qual faço
parte.
A cooperação torna-se de fundamental importância
na busca pela excelência e na própria sobrevivência
futura das organizações hospitalares. Enfrentar o cenário
desafia-dor do setor, com possibilidades de êxito, implica na
construção de equipes fortes unidas por interesses e objetivos
comuns. A desconfiança e a competição interna enfraquecem
o sistema, desmobilizam as pessoas, geram mais isolamento e favorecem,
portanto, as dissidências e as lutas internas.
Por sua vez, o desafio da cooperação é justamente
a confiança social, confiança esta que deve ser estimulada,
exemplificada e vivenciada em todos os níveis organizacionais,
por todos os profissionais, com destaque especial para a direção
e lideranças.
Uma organização na qual seus membros não nutrem
confiança nos gestores e onde os gestores igualmente desconfiam
dos membros das suas equipes está sofrendo de um sério
mal, com risco de vida.
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