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Médico
e vereador em São Paulo desde 1977
Falando
com o Lineu
A
Saudade é muita e a visão fica embaralhada
com as lágrimas que não consigo conter
É
muito difícil traduzir a saudade em palavras e mais difícil
ainda é transportá-las para o papel. O mais fácil
para mim é, com certeza, falar direto com você, meu amigo
e professor Lineu. No presente, como se estivesse aqui entre nós.
Assim é mais fácil. Bem mais fácil. Você estará
sempre entre nós, bem vivo, o que nos fará conjugar sempre
cada verbo no presente e até no futuro. No futuro, porque você
nos ensinou a sonhar e assim como uma bússola apontou para tantas
pessoas o norte.
Estou falando de você Lineu, que passou a vida ensinando, orientando,
compartilhando conhecimentos e sabedoria. Nos ensinou a amar, amar o próximo
como a si mesmo, e a tão sonhada justiça que poderia vir
da socialização das riquezas, diminuindo os abismos das
diferenças da sociedade.
Pessoas como você, quando se vão, nos surpreende com a imensidão
da obra que deixa inacabada. Tenho certeza que nem mesmo você tem
idéia do tamanho de sua própria construção.
Isso acontece nas histórias dos grandes homens.
Agora, nos resta viver com um misto de saudade, de vazio e de tristeza.
Alguma coisa que parece ter uma cor cinza... E como você mesmo disse
certa vez, “a cor cinza de uma saudade eterna”.
Estava aqui refletindo um pouco. Será que Deus, diante do desafio
de continuar a sua infinita obra, precisou vir buscá-lo aqui? Será
que Deus precisava de alguém tão especial para alguma missão
também tão especial? A nossa Uberaba sempre foi um berço
de pessoas notáveis, e tantos outros já se foram para compor
uma verdadeira seleção ao lado de Deus Pai. É, acho
melhor pensar assim... Fica um pouco mais leve a saudade. E que saudades!
Sabe, Lineu, a vida de tantos outros colegas e a minha tiveram com a sua
presença um enorme significado. Vivemos nossos melhores momentos.
Aprendemos a ser homens e homens médicos, bem diferentes da idéia
mais contemporânea de homem que recebe diploma de médico.
Aprendemos a ser sensíveis como você, que nos ensinou que
o paciente é a razão de ser do médico. Que nos ensinou
que a fortíssima relação médico/paciente é
a mais forte das relações humanas. É, acima de tudo,
uma relação sagrada. Com isso, aprendemos a chamar cada
paciente, independentemente de sua classe social, pelo seu próprio
nome e a conhecer a sua história, bem ao jeito “ Lineu de
ser”.
Os seus ex-alunos, professor Lineu, sempre fizeram a diferença
em todos os cantos do Brasil e nós, com muito orgulho, contávamos
de onde vinha essa lição. Vinha de Uberaba, de um médico
de ascendência sírio-libanesa, simples, magro, um pouco feio
e um pouco desajeitado. Um médico que falava olhando nos olhos,
gesticulando e com absoluta segurança em cada uma das suas afirmações.
Um médico que se dedicava até a separar caixinhas de amostras
grátis de remédios para as pessoas mais pobres. Um médico
que foi um misto de humanista, poeta, comunicador, articulista, escritor,
cientista, pesquisador, conselheiro, e, mais do que tudo isso, um amigo
leal e solidário.
Ainda ouço você me chamando de Paulinho, e também
me recordo perfeitamente quando você disse que ao final de uma consulta,
o paciente deveria sentir “que o médico é seu amigo,
que o médico é honesto, que o médico se mostrou preocupado
em resolver seus problemas, e que faria tudo que estivesse ao seu alcance
para solucioná-los”.
É, meu velho Lineu, passaram-se 30 anos desde que mudei para São
Paulo, para fazer residência médica no Instituto Dante Pazzanese
de Cardiologia. Seus ensinamentos ainda são atuais para os dias
de hoje. Quando aqui cheguei, em 1976, sua história já era
contada pelos corredores do Dante, e você era conhecido como o “Lineu
da turma de 1967, aquele que retornou para Uberaba para viver o seu sonho”.
O sonho compartilhado com outros heróis, de transformar uma pacata
cidade mineira em Centro de Cardiologia.
Em 1975, juntamente com Romeu Sérgio, Dino Zorzo e Yoshio, escrevemos
“Temas de Cardiologia”, em cujo prefácio você
diz: “Nestes tempos difíceis, em que o inglês aterroriza,
os preços dos livros abalam os mais abastados bolsos e as incorreções
das apostilas fazem estremecer os mais alicerçados conceitos da
medicina, nos animam a publicar uma obra para servir ao estudante”.
Lembro-me ainda do ofsete e da máquina Remington, novinha, novinha.
Agora, a internet e o inglês já são de domínio
da maioria. Na dedicatória você escreveu: “À
Maria, companheira de todas as horas, aos meus filhos Lineu Domingos,
Adriana e Andréa, fontes permanentes de inspiração
e de força. À Beethoven, Bach, Brahms, Sibelius, Tchaikovsky
e Cesar Frank, cujas obras nos fizeram companhia por longas madrugadas”.
Foi assim Lineu, que aprendemos que homens de sua importância reconhecem
a família como o pilar de sustentação da sociedade
e da vida. A música erudita, a beleza de cada um dos clássicos,
por mais complexo que parecia, poderia ser ensinada para nós, estudantes
atentos daquela época, embriagados com a paixão com que
acompanhava cada uma dessas músicas. Hoje, elas se misturam com
você, com nossas recordações, tudo, num só
hino!
É muita saudade, mas não posso deixar de contar que você
ao ouvir as músicas de Roberto Carlos, bradava: “Esse cara
canta tudo o que eu gostaria de ter escrito”. É, e o “rei”
Roberto Carlos disse: “Quero ter um milhão de amigos”.
Você não escreveu Lineu, mas tem um milhão de amigos.
Melhor ainda, você os conquistou.
Queria escrever um pouco mais Lineu. É pena que não dê.
A saudade é muita e a visão fica embaralhada com lágrimas
que não consigo conter. Tenho agora a missão de manter viva
a sua história, sem precisar exagerar. Cada um de seus amigos terá
“causos” e casos para contar. No futuro vai ser lenda.
Você é feliz. Fez por merecer. Você conseguiu materializar
no Lineuzinho, Adriana e Andréa, três médicos com
um só destino: carregar a sua bandeira e continuar a viver seus
sonhos. Ah! Lineu, ontem estive de novo no Dante Pazzanese para ver a
placa que você pendurou recentemente, numa homenagem que você
chamou “O Coração do Dante”. Sabe como é,
fui matar a saudade. Ela está lá. No mesmo lugar. Li mais
algumas vezes e você termina a homenagem assim: “Num outro
dia, estive no Dante. Mais uma vez, revi corações. Concretamente
os revi. Nos prédios novos e antigos, nos progressos, na noite
de gala, nas placas que virei a ser, no empurrão amistoso, nos
abraços, nos olhares, nos sorrisos, nos discursos... e na arborizada
rua VIII de Novembro, cujo asfalto, após 35 anos, ainda faz parte
dos meus pés”.
Que coisa, Lineu! Parece até que você sabia.

N.E.:
O professor e médico mineiro Lineu José Miziara (1942-2005)
foi titular concursado de Farmacologia, professor adjunto de Cardiologia,
Docente da Uni-versidade Federal de Uberlândia e da Faculdade do
Triângulo Mineiro. Foi responsável pelo curso de Farmacologia
Clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de Uberaba. Ocupou
a cadeira 38 da Academia de Letras do Triângulo Mineiro.
Contato:
paulofrange@camara.sp.gov.br
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