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A
Politica econômica Há
falhas de gestão nos hospitais, mas é preciso
Ao longo
de 2005 participamos de muitos eventos sobre o segmento da saúde
no Brasil. Chamou-nos a atenção um fato em particular: a
ausência de discussões sobre as relações entre
as dificuldades na área da saúde e a política econômica.
O elemento fundamental para compreender a situação econômica
é a política monetária, expressa, em primeira instância,
pela taxa de juros. A taxa Selic era, em novembro de 2005, de 18,5% ao
ano, a maior do mundo. O quadro é ainda mais dramático do
que possa parecer à primeira vista: a taxa “de balcão”,
ou seja, a efetivamente praticada pelo emprestador, está acima
de 50% a.a. para empresas de primeira linha. Some-se a isso a taxa de
serviços bancários – o spread - de 46 pontos, enquanto
que nos países desenvolvidos não ultrapassa cinco pontos.
Em segunda instância, para encarecer ainda mais o crédito,
o Banco Central estabelece um nível elevado para o depósito
compulsório dos bancos. Nesse ponto convém uma reflexão: por que motivo o governo insiste em manter essa situação? É alguma perversão? Certamente não se trata de uma opção consciente da destruição da economia brasileira, até porque, desemprego e pobreza não rendem voto. Há, a nosso ver, três causas principais para a manutenção de juros e impostos tão elevados: A incapacidade do governo federal em agir autonomamente na condução da política econômica, relativamente aos setores que obtêm lucro extraordinário com essa situação. O enfrentamento entre a Casa Civil e o Ministério da Fazenda é um indicador das disputas em torno da distribuição do excedente nacional. O pequeno
número de grandes bancos, com poder relativo para fixar os preços
de seus serviços, ou seja, a falta de concorrência entre
os agentes financeiros. Para sustentar a situação, o governo empenha-se em convencer os cidadãos da inevitabilidade das suas medidas: somente as restrições são capazes de controlar o eterno dragão da inflação, sugerindo uma equação infalível e precisa a determinar a relação entre taxa de crescimento econômico e taxa de juros, segundo a qual, se aumentar o ritmo do crescimento, haverá crises de toda sorte, falta de energia elétrica, de água, de estradas, de tudo. Muitas vozes importantes têm denunciado a impostura das medidas e das explicações oficiais. O vice-presidente da República, José Alencar, explica pacientemente a impossibilidade de se investir com tal taxa de juros, pois o custo do dinheiro captura todos os recursos, não dá para remunerar os outros fatores de produção, as matérias-primas, a mão-de-obra etc. O deputado e economista Delfim Neto usa a expressão “ta-rometria” para referir-se, ironicamente, aos supostos cálculos científicos do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Enquanto a economia andar na marcha do crescimento vegetativo do Produto Interno Bruto (PIB) – em torno de 3% a.a., se tudo der certo – não haverá desenvolvimento adequado na saúde. O grande “vilão” não é o plano de saúde, a caneta do médico, o poder da indústria de materiais e medicamentos, a irresponsabilidade do usuário, mas o desemprego e a pobreza relativa crescentes. Estes dois últimos fatos produziram a migração de milhões de vidas da saúde complementar para o Sistema Único de Saúde, gerando sobre-oferta no segmento privado e escassez no público. No nível estatal, em nome da redução dos gastos do governo, os valores pagos aos prestadores são aviltados, fato gerador de várias outras disfunções. Os custos e a demanda por serviço, compreensivelmente, aumentam, enquanto os recursos escasseiam, relativamente. E a nossa população, empobrecida, precisa ainda mais dos serviços públicos. Pressionados pelo poder das operadoras de planos de saúde, os hospitais fazem da revenda de materiais e medicamentos importante fonte de receita. O aumento dos preços dos planos de saúde espanta o cliente. E assim se dá uma cadeia circular de problemas. A retomada do crescimento econômico torna-ria exeqüível a superação de vá-rias disfunções. A cisão entre as dificuldades do setor da saúde e a dinâmica da economia, parece-nos, despolitiza a situação. As ditas dificuldades são atribuídas à incapacidade de gestão das organizações (públicas e privadas), à cultura peculiar do setor, entre outros motivos. E sem a compreensão das disputas no plano político. Há falhas graves nos sistemas de gestão e o pano de fundo da cultura certamente tem impacto nas dificuldades vivencia-das, mas antes de tudo, a política econômica precisa reduzir a rentabilidade do capital financeiro, para dar oportunidades aos demais capitais, inclusive aos aplicados na saúde. Contato:
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