Quando
entenderemos que a vida exige rotina, disciplina
e padrões que têm que ser mantidos ?
Sem
“campanha” o Brasil não anda. Vivemos de campanha
em campanha. Para cada pro-blema uma campanha. Termina a campanha e
nenhuma rotina se estabelece. O problema re-torna. Nova campanha. Para
vacinar o gado, campanha nacional de erradicação da doença
tal e qual. Para vacinar as crianças, campanha nacional de vacinação.
Para o vendedor vender, campanha de incentivo de vendas. Acidentes de
trabalho se resolvem com Sipats e campanhas de prevenção
de acidentes. A solução para o baixo uso do cinto de segurança?
Campanha pelo uso do cinto. Campanha pela obediência da velocidade
nas estradas. Até quando viveremos de campanhas? Sem campanha
a dengue volta, a aftosa ataca, os operários se acidentam, as
crianças morrem. Quando ficaremos adultos o suficiente para entender
que a vida exige rotinas, disciplina, padrões que têm que
ser simplesmente mantidos sempre, todos os dias, sem campanha?
Essa nossa indisciplina e indisposição à rotina,
ao estabelecimento de padrões e cumprimento de normas está
nos infelicitando a todos, sem exceção. Ninguém
ganha com essa nossa pseudo-criatividade, onde nada é mantido,
nem seguido. Temos em todos os lugares e instituições,
e até em empresas, milhares de “agentes de mudança”
que se orgulham disso. Mas, estamos precisando de “agentes de
continuidade”, agentes de cumprimento de rotinas básicas,
agentes de consistência e permanência de coisas que simplesmente
não devem e não podem mudar.
Vi um importante e famoso hospital fazendo “campanha” para
que os médicos, enfermeiras e auxiliares lavassem suas mãos
(sic)! Segundo a campanha, 30% a 40% da infecção hospitalar
poderia ser evitada se esses profissionais da saúde (sic) seguissem
a norma e a rotina de lavar as mãos ao entrar e sair de um quarto
do hospital. E o folheto da tal campanha explicava que na porta de todos
os quartos tem uma pia com sabão desinfetante especial e papel
descartável exatamente para que as pessoas lavem suas mãos
ao entrar e ao sair do quarto. Ao ler o folheto e ver os cartazes da
tal campanha, fiquei pensando que se é preciso no Brasil fazer
campanha para que médicos e enfermeiras lavem suas mãos
num hospital está explicado porque ninguém lava as mãos
nas escolas, fábricas, escritórios e em nossas próprias
casas. Ora, vivemos num país tropical e lavar as mãos
deveria ser rotina absolutamente cumprida desde a mais tenra infância
por todas as pessoas. Mas se médicos e enfermeiras precisam de
“campanha”, não vejo nem por onde começar
alguma “campanha” para que outros profissionais lavem suas
mãos como rotina.
Essa “cultura de campanha” está fazendo com que ninguém
cumpra sua obrigação como um dever ético ou mesmo
moral. O vendedor só vende se tiver uma “campanha de incentivos”
para vender tal e qual produto. A camareira só limpa e arruma
o quarto do hotel se tiver uma campanha de premiação pela
melhor camareira. O garçom só faz a barba e toma banho
se o restaurante fizer uma “campanha pela boa aparência”.
A ausência de cumprimento de rotinas extrapolou para um sistema
de quase-corrupção no qual as pessoas só fazem
as coisas se forem “incentivadas” por uma campanha ou, talvez,
uma forma exótica de propina para que sua “boa vontade”
o faça cumprir o que é de sua profissão e, portanto,
seu dever.
Daí as campanhas absurdas que municípios fazem sorteando
terrenos e até automóveis para quem paga os impostos em
dia. Sob o pomposo título de “Campanha para a Regularização
Imobiliária” uma prefeitura do interior sorteou chácaras
de 10 alqueires para os participantes. Esperavam conseguir uma regularização
de 40% dos terrenos e imóveis nessa surpreendente campanha. Você
que está construindo, me responda: vai regularizar – como
manda a lei – sua construção ou vai deixá-la
ilegal até a próxima “campanha”? Ou você
não quer concorrer a uma chacrinha de fim-de-semana?
Mais rotina, menos campanha. Ou vamos nos preparar para assistir absurdos
ainda maiores como campanhas para que a Polícia cuide da segurança
pública; campanha para que sacerdotes ouçam confissão;
campanha para que professores ensinem seus alunos; campanha para que
vigias noturnos mantenham-se acordados durante a noite em seu trabalho;
campanha para que juízes julguem.
Pense nisso. E não “lave as mãos”.
Contato: anthropos@sorocaba.com.br
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