Janeiro/Fevereiro/
Março de 2006
NÚMERO 48
ANO 5

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MOTIVAÇÃO
 
Luiz Marins
Antropólogo e pós-doutorado em Macroeconomia

Lavem suas mãos e aguardem

Quando entenderemos que a vida exige rotina, disciplina
e padrões que têm que ser mantidos ?

Sem “campanha” o Brasil não anda. Vivemos de campanha em campanha. Para cada pro-blema uma campanha. Termina a campanha e nenhuma rotina se estabelece. O problema re-torna. Nova campanha. Para vacinar o gado, campanha nacional de erradicação da doença tal e qual. Para vacinar as crianças, campanha nacional de vacinação. Para o vendedor vender, campanha de incentivo de vendas. Acidentes de trabalho se resolvem com Sipats e campanhas de prevenção de acidentes. A solução para o baixo uso do cinto de segurança? Campanha pelo uso do cinto. Campanha pela obediência da velocidade nas estradas. Até quando viveremos de campanhas? Sem campanha a dengue volta, a aftosa ataca, os operários se acidentam, as crianças morrem. Quando ficaremos adultos o suficiente para entender que a vida exige rotinas, disciplina, padrões que têm que ser simplesmente mantidos sempre, todos os dias, sem campanha?

Essa nossa indisciplina e indisposição à rotina, ao estabelecimento de padrões e cumprimento de normas está nos infelicitando a todos, sem exceção. Ninguém ganha com essa nossa pseudo-criatividade, onde nada é mantido, nem seguido. Temos em todos os lugares e instituições, e até em empresas, milhares de “agentes de mudança” que se orgulham disso. Mas, estamos precisando de “agentes de continuidade”, agentes de cumprimento de rotinas básicas, agentes de consistência e permanência de coisas que simplesmente não devem e não podem mudar.

Vi um importante e famoso hospital fazendo “campanha” para que os médicos, enfermeiras e auxiliares lavassem suas mãos (sic)! Segundo a campanha, 30% a 40% da infecção hospitalar poderia ser evitada se esses profissionais da saúde (sic) seguissem a norma e a rotina de lavar as mãos ao entrar e sair de um quarto do hospital. E o folheto da tal campanha explicava que na porta de todos os quartos tem uma pia com sabão desinfetante especial e papel descartável exatamente para que as pessoas lavem suas mãos ao entrar e ao sair do quarto. Ao ler o folheto e ver os cartazes da tal campanha, fiquei pensando que se é preciso no Brasil fazer campanha para que médicos e enfermeiras lavem suas mãos num hospital está explicado porque ninguém lava as mãos nas escolas, fábricas, escritórios e em nossas próprias casas. Ora, vivemos num país tropical e lavar as mãos deveria ser rotina absolutamente cumprida desde a mais tenra infância por todas as pessoas. Mas se médicos e enfermeiras precisam de “campanha”, não vejo nem por onde começar alguma “campanha” para que outros profissionais lavem suas mãos como rotina.

Essa “cultura de campanha” está fazendo com que ninguém cumpra sua obrigação como um dever ético ou mesmo moral. O vendedor só vende se tiver uma “campanha de incentivos” para vender tal e qual produto. A camareira só limpa e arruma o quarto do hotel se tiver uma campanha de premiação pela melhor camareira. O garçom só faz a barba e toma banho se o restaurante fizer uma “campanha pela boa aparência”. A ausência de cumprimento de rotinas extrapolou para um sistema de quase-corrupção no qual as pessoas só fazem as coisas se forem “incentivadas” por uma campanha ou, talvez, uma forma exótica de propina para que sua “boa vontade” o faça cumprir o que é de sua profissão e, portanto, seu dever.

Daí as campanhas absurdas que municípios fazem sorteando terrenos e até automóveis para quem paga os impostos em dia. Sob o pomposo título de “Campanha para a Regularização Imobiliária” uma prefeitura do interior sorteou chácaras de 10 alqueires para os participantes. Esperavam conseguir uma regularização de 40% dos terrenos e imóveis nessa surpreendente campanha. Você que está construindo, me responda: vai regularizar – como manda a lei – sua construção ou vai deixá-la ilegal até a próxima “campanha”? Ou você não quer concorrer a uma chacrinha de fim-de-semana?

Mais rotina, menos campanha. Ou vamos nos preparar para assistir absurdos ainda maiores como campanhas para que a Polícia cuide da segurança pública; campanha para que sacerdotes ouçam confissão; campanha para que professores ensinem seus alunos; campanha para que vigias noturnos mantenham-se acordados durante a noite em seu trabalho; campanha para que juízes julguem.
Pense nisso. E não “lave as mãos”.

Contato: anthropos@sorocaba.com.br

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