Janeiro/Fevereiro/
Março de 2006
NÚMERO 48
ANO 5

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QUALIDADE
 
Cláudio Medeiros Santos
Coordenador executivo do Programa da Qualidade da Fundação Hemominas
e do Núcleo da Qualidade no Serviço Público (MG)

Ainda sobre desperdícios

Algo em torno de R$ 90 mil eram jogados fora,
anualmente, com o desperdicio de alimentos no hospital

De acordo com o dicionário, desperdiçar é não aproveitar, é perda. Embora todo o avanço gerencial conquistado pelas organizações hospitalares, nos últimos anos, fruto po-sitivo dos movimentos de profissionalização da gestão, dos programas da qualidade, da Acreditação e dos critérios de excelência, o desperdício pode ainda ser encontrado com facilidade em diversas áreas, setores, unidades e processos, contribuindo para o aumento do já elevado custo operacional.

Vejam a situação atual da Saúde Suplementar. Os planos e seguros de saúde vivem momentos difíceis do ponto de vista financeiro. É verdade que uma parte desse problema está associada ao custo da tecnologia, mas também é verdade que está intimamente ligada a uma avalanche de procedimentos e práticas desnecessárias, que oneram as organizações. É o desperdício de procedimentos, tecnicamente questionáveis e desnecessários. Isso, sem entrar no mérito de outras questões que não são de desperdício, mas de cunho moral e ético como, por exemplo, a cobrança de procedimentos que efetivamente não foram realizados – prática ainda comum em diversos segmentos dos setores público e privado da Saúde. As organizações são por isso obrigadas a implementar processos, tecnologias e práticas gerenciais, visando reduzir as possibilidades dessas fraudes, elevando os custos e alocando recursos que poderiam ser empregados em outras esferas, como a melhoria da remuneração dos profissionais. É o desperdício de recursos financeiros que não são aproveitados onde deveriam.

Existe também o desperdício de tempo. Hoje, com a gestão participativa, com a descentralização do processo decisório e com a necessidade de envolvimento, comprometimento e cooperação dos profissionais, o volume de reuniões cresceu consideravelmente. Com ele veio uma doença curiosa: a “reunite crônica”. Para tudo se fazem reuniões. Reuniões sem planejamento, sem pauta prévia, sem objetividade, sem decisão. Reuniões que, se previamente preparadas e disciplinadas, poderiam durar 30 minutos, e duram duas horas. Desperdício de tempo. São tantas reuniões que os profissionais saem de uma para entrar noutra. Não há tempo para preparar o assunto, para levar as questões já pensadas e trabalhadas.

E o desperdício de recursos materiais como medicamentos, material médico – o esparadrapo continua ainda tendo mil e uma utilidades, serve para curativo, isolante em fios elétricos, colar cartazes, reparar roupas, fixar objetivos etc. Em determinada ocasião trabalhávamos em um hospital, desenvolvendo com a equipe de gestores um programa de capacitação em metodologias e instrumentos de melhoria de processos. Um alvo didático foi escolhido pelo coordenador do serviço de nutrição e dietética: o desperdício de alimentos. Embora o retorno de alimentos oriundos dos leitos hospitalares ou do refeitório dos funcionários fosse prática comum, os responsáveis nunca tinham medido, quantificado ou valorizado financeiramente essa modalidade de desperdício. Foram orientados a efetuar pesagem e medição por determinado período. Os resultados foram surpreendentes para os gestores. Algo em torno de R$ 90 mil eram jogados fora, anualmente, com o desperdício de alimentos. Pesquisaram as causas, utilizando lista de verificação e Diagrama de Pareto, descobrindo, por fim, que 78% dos alimentos que retornavam das áreas de internação tinham como causas:

•A falta de comunicação sobre as altas do dia, levando o Serviço de Nutrição e Dietética a enviar refeição para pacientes que já haviam se retirado do hospital.

•A transferência de pacientes para outros setores sem comunicação ao serviço, igualmente fazendo que refeições fossem encaminhadas para endereços internos errados.

•Tipo de dieta não informada na internação, ensejando a remessa de dietas equivocadas aos pacientes.

Existem ainda muitas outras formas de desperdício que demanda-riam mais páginas. Todavia, mantendo a disciplina estabelecida pelo editor-chefe ficamos por aqui, advertindo: com desperdício não temos qualidade.

Contato: gestao@uai.com.br                                                                    topo