Professor
da Faculdade de Saúde Pública da USP, ex-presidente da Anvisa
e
ex-secretário de Saúde da cidade de São Paulo
As
farmácias de manipulação e
a assistência farmacêutica
Importantes
para a sociedade, esses locais vão ter agora uma nova norma disciplinadora.

Aqui
não se tratará de maneira ampla da complexa e de fundamental
importância, questão da assistência farmacêutica.
Porém tratar-se-á de uma das facetas desta, que é
a farmácia de manipulação. A oportunidade deste assunto
é dada pelo fato de que a Agencia Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) finalizou uma consulta pública para uma
nova norma disciplinar sobre o funcionamento das farmácias de manipulação.
É uma proposta que corrige alguns defeitos da norma anterior e
coloca a disposição da sociedade um importante instrumento
de saúde pública.
Por
que é isso que é a farmácia de manipulação
– um serviço de saúde publica e que desenvolve relevantes
ações para o processo de atenção médica.
Em particular quando, por solicitação médica, manipula
produtos que não são produzidos pela indústria, seja
por que não existe demanda para aquele produto ou por causa das
condições clínicas excepcionais do paciente que exigem
uma dosagem especifica. Um aspecto entre tantos outros se destaca da norma
proposta. É a proibição de produzir remédios
que já são industrializados e contra a qual tem existido
um movimento que está ganhando força na sociedade.
Existe um clima de simpatia pela farmácia de manipulação
e não só por ser um serviço pequeno, de um profissional
importante e que além de tudo está oferecendo medicamentos
bons, baratos e personalizados e ainda lutando contra a grande e em geral
multinacional indústria farmacêutica. Proibir que a farmácia
de manipulação manipule drogas na forma farmacêutica
e nas dosagens já produzidas industrialmente é portanto
o cerne dessa nova regulamentação e para a qual os consumidores
e compradores devem estar atentos.
Ora, não cabe dúvida de que um produto industrial tem melhor
qualidade do que o manipulado – pela estrutura do controle de qualidade
de matéria prima, pelos controles em processo, pelos controles
do produto acabado e da própria pesquisa envolvida na formulação.
Não existe justificativa para prescrever um medicamento formulado
através de manipulação quando este é produzido
industrialmente. Nem o custo cabe como justificativa. Como a maioria dos
produtos tem janela terapêutica ampla (a relação entre
a dose desejada para produzir um determinado efeito desejado e a dose
tóxica), o próprio prescritor na maior parte das vezes não
percebe as diferenças de ação que ocorrem. Porém,
quando a janela terapêutica é estreita, têm-se observado
problemas importantes.
Por que os médicos prescrevem medicamentos manipulados? São
quatro as possíveis razões:
•Os
médicos buscam com a mani-pulação superar as dificuldades
de seus pacientes em termos de absorção e ou excreção,
de peso e ou idade, ou ainda alguma outra situação clínica
que indica que manipular uma fórmula é o melhor que pode
ser feito pelo paciente.
•Por incrível que pareça existem alguns médicos
que prescrevem manipulados por que são contra a indústria!
São contra multinacionais, contra o lucro, enfim contestam usando
como forma de expressão a manipulação. Não
fazem o melhor por seus pacientes e não percebem isto, mas extravasam
a sua ignorância por desconhecer os dados farmacocinéticos,
por desconhecer os sistemas de controle de qualidade, pela xenofobia.
• Outra razão é dos que negociam vantagens, os quais
infelizmente existem. Às vezes, é só para impressionar
o paciente, realizando uma formulação que em tese o individualiza
como clínico. Isso tem que ser combatido pelos conselhos, pela
Anvisa, pela sociedade.
•A pior prática é a dos poucos que praticam a má
medicina e prescrevem verdadeiras bombas terapêuticas. Muito freqüente
na área de regimes de emagrecimento. São profissionais inescrupulosos.
Já se tratou de proibir alguns desses produtos e associações,
porém não se pode em função de maus profissionais
retirar uma boa opção terapêutica dos bons profissionais
e dos pacientes que dela podem se beneficiar.
As quatro possibilidades apontam para uma boa e uma má prática
da medicina e da manipulação, mas não devem encaminhar
para soluções radicais e sim apontar para soluções
melhores. A discussão que aqui se traz para a sociedade. Portanto,
sobre o processo de produção industrial e suas diferenças
com o processo de produção artesanal. É importante
destacar que não existe processo no qual o homem interfira que
possa ser cem por cento seguro, enquanto a sua capacidade de reproduzir
exatamente um determinado produto.
Todo processo de produção tem alguma margem de possibilidade
de errar. Por isso a melhor maneira de descrever uma indústria
de medicamentos é dizendo que é uma ilha de produção
cercada de controle de qualidade por todos os lados. Mesmo por que um
erro em escala industrial tem conseqüências muito sérias.
Assim na indústria farmacêutica os controles de qualidade
são extremamente rigorosos e realizados desde a entrada da matéria
prima, durante o processo de produção, no produto final
e inclusive no mercado. Tudo vigiado e monitorado pela Aanvisa. Dos lotes
produzidos a indústria deve guardar pormenorizada documentação
que registra tudo que ocorreu durante o processo de produção.
Esta documentação fica a disposição da agência
de vigilância. Os laboratórios de controle de qualidade das
indústrias necessitam de grandes investimentos e todos esses controles
só são possíveis e viáveis economicamente
por causa das escalas de produção industrial.
Mas, e nas farmácias de manipulação, não existe
controle de qualidade? Sim, existe. Porém são controles
muito menos rigorosos, seus laboratórios são mais simples,
a fiscalização também é menos rigorosa. Afinal
existem no país cerca de 300 indústrias e 6.000 farmácias
de manipulação. Portanto, quanto maior o risco de um determinado
produto, mais a manipulação deve ser vista como uma solução
excepcional. Dentro desse critério, estão os injetáveis,
os colírios, os hormônios, os biológicos e os antibióticos.
Somente pode-se permitir manipular essas categorias quando existe uma
condição clínica identificada por um médico
e que exige seu fracionamento para ser administrado a um idoso ou uma
criança, por exemplo.
Não é, pois, uma luta entre Davi e Golias. A sociedade necessita
de ambos os estabelecimentos, porém cada um fazendo o que está
preparado para fazer, de acordo com as regras que o país têm
para ordenar as relações dentro da sociedade e, nesse caso,
voltadas especificamente para proteger a vida.
Controlar a qualidade de produto a produto é diferente de controlar
a qualidade de lotes de produção. A estrutura industrial
está adequadamente aparelhada para realizar essa tarefa. A regulamentação
proposta é boa e abarca ainda outros importantes quesitos referentes
à visitação medica – que é proibida,
a produção em escala ou campanha e a questão das
franquias.
A farmácia de manipulação é indiscutivelmente
um instrumento a mais para abordar a complexa questão da assistência
farmacêutica e não um fator que isoladamente vá substituir
a tarefa da qual a sociedade e o Estado brasileiro tem se esquivado há
tanto tempo.
Contato: gvecina@uol.com.br
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