Janeiro/Fevereiro/
Março de 2006
NÚMERO 48
ANO 5

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EM ÚLTIMA ANÁLISE
 
Paulo Mergulhão
Presidente da Pró-Saúde

 

Ministério da Doença

A solução para a saúde do Brasil não é apenas
financeira, mas de vontade e competência dos gestores

O grito de socorro dos hospitais filantrópicos e das santas casas brasileiros não está sendo ouvido pelas autoridades competentes. Esse brado chega ao seu limite, detonando uma crise imensurável com a iminente quebra financeira dessas instituições. Por todo o país, santas casas e hospitais filantrópicos estão paralisando suas atividades, havendo necessidade premente que o governo intervenha ou, o que é mais importante, haja maior participação da sociedade organizada para evitar esse colapso.

O que mais surpreende é ver que a solução do problema não é apenas financeira, mas depende da “vontade política” dos governantes, somada à maior competência administrativa de gestores públicos e privados, conforme apontam fatos e informações.

O Siatoef, empresa que faz estudos estatísticos, consolidou um levantamento com mais de 2.000 instituições do setor da saúde, com cruzamento de dados, e concluiu que em nosso país o tratamento da doença custa, em investimentos, o correspondente a 5,6% do Produto Interno Bruto (cerca de R$ 112 bilhões). Esse mesmo investimento custaria, caso fosse focado na (prevenção) da saúde em torno de R$ 183 bilhões (ou 9% do PIB). Portanto, com mais R$ 70 bilhões instituir-se-ia um verdadeiro Ministério da Saúde, em que os cidadãos teriam acesso a tratamentos, preventivos ou não, evitando-se o custo do tratamento tardio, que gera, segundo os estudos, despesas adicionais de R$ 286 bilhões aos cofres públicos (ou seja, R$ 100 bilhões a mais).

Dados obtidos em empresas de medicina suplementar indicam que os planos de saúde apresentam os custos abaixo (veja quadro).

Portanto, dos mais de 180 milhões de brasileiros que vivem nesse imenso país, quase 140 milhões (77%) dependem exclusivamente do SUS. Desses, apenas 60 milhões são atendidos (a tempo ou tardiamente) pelo sistema público. Outros 80 milhões não conseguem ou não necessitam do atendimento simultaneamente (ou dentro das atuais condições do sistema, devem torcer para isso). Os outros convênios existentes, por sua vez, atendem 23% da população (42 milhões de associados). Os atendimentos particulares, por sua vez, são pouco mais de 1% do total (cerca de 2 mi-lhões de pessoas), segundo dados obtidos pela Siatoef.

Notícias como a publicada pelo jornal Folha de São Paulo no Sistema de Acompanhamento de Gastos Federais (Siaf) apontam que o governo promete liberar verbas para projetos de interesse de deputados em busca de votos no Congresso ou de apoio político. Projetos paralisados no “Ministério da Saúde” (sic) contribuem, pelo que se divulga, para economia de gastos destinados ao pagamento da dívida pública ou a outros interesses não diretamente ligada à saúde (a compra de aeronaves pelo governo, por exemplo, consumiram em 2005 quase 13 vezes mais do que o projeto de estruturação dos serviços de hematologia e hemoterapia, nos quais o Ministério da Saúde mais gastou).

O custo Brasil da doença encarece as despesas com a Saúde. Não, talvez, nos limites apontados pela análise do Siatoef (R$ 286 bilhões), que deve ter usado os índices gastos na medicina privada. Mas certamente permite concluir que por conta de interesses po-líticos e da incompetência administrativa, estamos gastando (ou melhor seria dizer, desperdiçando) dinheiro que poderia ser a solução da Saúde dos brasileiros.

P.S.: Este artigo teve a colaboração do Departamento de Diagnósticos da Pró-Saúde.

Contato: presidente@prosaude.org.br.

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