Na
saúde, só crescendo
Renda concentrada e PIB baixo exigirão aumento
de verba para o SUS
Se o Brasil não obtiver um crescimento
econômico expressivo e sustentável pelos próximos
20 anos e se não equacionar o problema da excessiva concentração
de renda, em 2025 o país terá que direcionar aproximadamente
12% do PIB apenas para manter o padrão atual de assistência
à saúde e que consome atualmente cerca de 7 a 8% do PIB.
Esta é uma das conclusões de um estudo desenvolvido pelo
Centro Paulista de Economia da Saúde (CPES), da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp).
Conduzido pelo médico e economista da saúde Marcos Bosi
Ferraz, o estudo projetou alguns cenários possíveis para
a economia e o setor de saúde para os próximos 20 anos,
considerando variáveis como o aumento da população
neste período, o crescimento do PIB e da renda média do
brasileiro, assim como o nível de eficiência de nosso sistema
saúde.
Numa das hipóteses levantadas, se o PIB brasileiro crescer apenas
em torno de 3% ao ano – algo muito próximo ao resultado
de 2005 e do desempenho médio anual no período de 1985
a 1994 e no de 1995 a 2004, que foi de 2,42% – o país será
obrigado a elevar acentuadamente o percentual do PIB dedicado a financiar
o SUS e o sistema suplementar de saúde.
A distribuição da renda e a evolução do
ganho salarial médio do brasileiro também são componentes
importantes na análise. Isto porque, além do crescimento
vegetativo da população, mantidas as tendências
do setor saúde e o modelo de assistência atual, o SUS deverá
atender a uma parcela cada vez maior de pessoas que não terão
mais condições de adquirir ou manter os contratos com
as operadoras de planos de saúde do sistema suplementar.
Crise
O estudo do CPES, que utilizou dados de
diferentes fontes oficiais disponíveis, mostra que o ganho médio
real do assalariado brasileiro vem se deteriorando ano a ano nas últimas
duas décadas. Ainda de acordo com a Pesquisa sobre Orçamento
Familiar do IBGE (2003), do total de suas receitas, o brasileiro direciona
em média 5,35% para os gastos com assistência à
saúde.
Na análise de cenários futuros, Ferraz avalia que, se
a renda em termos reais continuar relativamente no mesmo patamar, em
2025 os gastos com saúde consumirão 14% do orçamento
familiar. Se a renda média familiar cair 1% ao ano, este percentual
subiria a 17%. Mesmo na otimista perspectiva de que a renda cresça
1% ao ano, esse gasto será de 11%. Isto acontecerá porque,
historicamente, a inflação dos gastos com a assistência
à saúde costuma ser maior que a inflação
geral.
Segundo Ferraz, mantidas as tendências atuais, o sistema suplementar
de saúde não crescerá ou até perderá
usuários. E esta saída de usuários da assistência
privada, além de ampliar o número de brasileiros que dependem
exclusivamente do serviço público, poderá gerar
uma crise na própria rede ofertante de serviços de saúde.
O fechamento de hospitais e outras unidades de saúde particulares
– mas que também prestam serviços ao SUS –
contribuiria para agravar ainda mais a situação do próprio
SUS.
Escolhas
Para o diretor do CPES, o caos no sistema
de saúde só não se tornará realidade caso
algumas pré-condições sejam alcançadas:
crescimento médio anual do PIB no período em torno de
5%; inflação geral menor que 5% ao ano; melhor distribuição
de renda e renda média real do brasileiro com crescimento superior
a 0,5% ao ano; sistema suplementar de saúde preservado; assistência
à saúde oferecida de forma muito mais eficiente que a
atualmente observada e feita mediante um planejamento de ações
e escolhas visando o longo prazo.
De fato, mais que a simples constatação da gravidade da
situação, o estudo aponta para a necessidade de as autoridades
responsáveis pela saúde no país definirem hoje,
com base em critérios objetivos, quais segmentos da assistência
à saúde devem ser priorizados.
"Há escolhas importantes a serem feitas. Se o PIB do país
não crescer 5% ao ano, se a renda média do brasileiro
também não aumentar progressivamente e for mais bem distribuída,
o Brasil não terá como oferecer sequer a assistência
atual a um número maior de pessoas, quanto menos incorporar nesse
atendimento os novos conhecimentos e recursos tecnológicos que
estão sendo disponibilizados mundialmente aos serviços
de saúde e, conseqüentemente, a seus usuários",
conclui Marcos Bosi Ferraz.
Ferraz:
escolhas a fazer para o futuro
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