Abril/Maio/Junho
de 2006
NÚMERO 50
ANO 5

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CRÔNICAS MÉDICAS
 
Luciana Andrade da Silva
Médica ortopedista

 

Perdas

Chegam pacientes graves a cada minuto e o médico, por volta de 25 anos, tem que decidir quem tem mais chances de viver

Primeiro ato – A morte e o médico


Quando optamos por fazer Medicina – ser médico – acreditamos que seremos capazes de tratar e, acima de tudo, curar ou melhorar as condições de vida de todos os pacientes que nos procurarem. No entanto, à medida que os anos vão passando nos deparamos com uma realidade muito diferente. Muitas vezes, não somos capazes de curar, não temos condições de tratar e, além disso, somos obrigados a conviver com um fato mais doloroso ainda – a morte – o retrato absoluto e real do nosso fracasso.
Como explicar aos familiares, aos amigos, e a nós mesmos, que não pudemos fazer nada, que a doença já estava muita adiantada, que o trauma foi muito grave ou qualquer outra situação que nos impediu de dar um “destino melhor” ao paciente?

A faculdade de Medicina, na maioria das vezes, nos poupa da convivência com a morte. Estudamos em grandes centros de referência, equipados com aparelhos de última geração, rodeados de equipes de especialidades capazes de resolver todo tipo de dúvida. A morte de um paciente nessas circunstâncias é encarada como um “fizemos tudo que podíamos, mas não teve jeito”. Ao compartilhá-la com muitas pessoas, parece que o sentimento de impotência diminui.

No entanto, quando saímos da faculdade e ingressamos no mercado de trabalho, deparamo-nos com uma realidade completamente diferente. É comum o início se dar em hospitais de menor porte, pronto-socorros ou postos de saúde localizados na periferia das cidades, com pouca ou sem qualquer condição de atendimento. Chegam pacientes graves a cada minuto e o médico, por volta de 25 anos de idade, começa a ter que decidir quem precisa ser atendido antes, quem tem mais chance de viver e quem vai ocupar a única vaga de UTI que ele conseguiu. Enfim, quem tem direito de viver e quem está fadado a morrer. É uma angústia que não tem tamanho e para qual o médico não foi e não está preparado.

Aí começam a ocorrer as primeiras desilusões, a indignação dos recém-formados, obrigados a servir a um sistema falido de saúde, onde há opressão de todos os lados. Não aceitar essas condições impõe ao médico não trabalhar para o Estado, em todas as suas instâncias, e, para isso, ele tem que se submeter a trabalhar para planos de saúde ou para equipes médicas já estabelecidas, na maioria das vezes sem contrato de trabalho, ficando a contratação resumida a meia dúzia de palavras e a um resumo do seu currículo. Afinal, é assim que se contratam médicos, pelo menos na cidade de São Paulo e arredores. Digamos que esta é a segunda decepção do recém-formado.

Segundo ato - A morte, a violência e a pobreza

Mas, voltando à morte, a que mais nos chama atenção é a violenta. Talvez porque ela “escolhe” os jovens como sua principal vítima. E, novamente, as regiões menos favorecidas financeira e culturalmente são as mais atingidas. Nesses bolsões de pobreza mata-se (e morre-se) por qualquer coisa. Morre-se porque não se pôde pagar uma dívida (cerca de trezentos ou quatrocentos reais); morre-se porque alguém olhou de modo “errado” para a mulher do vizinho; morre-se porque se é honesto; morre-se porque se é desonesto; enfim, matar e morrer não tem nenhum peso importante para populações afastadas das grandes decisões políticas, à parte de todo o processo de modernização do país e do mundo. Poucas são as famílias que não tiveram um parente morto de maneira violenta nessas regiões.

Em conversa com senhoras de cinqüenta ou sessenta anos, pergunto quantos filhos elas tiveram. A maioria orgulha-se do número: sete ou oito, em média. Pergunto quantos estão vivos. Raramente passam de quatro. E eles não morrem de doenças infantis (desidratação, pneumonia etc.). São vítimas da violência urbana, da desintegração da família, da falta de educação e de cultura (a crítica não é quanto à falta de escola, mas à falta de qualidade do que está sendo ensinado dentro das salas de aula) e vários outros fatores.

Mortes... nem sempre as pessoas parecem sofrer com as perdas. Elas fazem parte do contexto da vida delas. Não raramente atendemos a um paciente baleado que acaba morrendo. Comunicar à família e, principalmente, à mãe, sempre foi um acontecimento extremamente doloroso, inclusive para o médico (que muitas vezes também é pai ou mãe e conhece a dor de perder alguém tão querido). No entanto, nessas regiões, muitas vezes você é surpreendido com um “graças a Deus! Agora ele sossega e nós também!”.

Aprendi com o tempo que ter um filho traficante ou quadrilheiro pode estragar a vida de toda a família, que passa a ser cobrada por todas as atitudes do menino. Cobram-se dívidas em dinheiro ou até atitudes do cidadão que agiu de forma a “desagradar” o restante do bando ou o grupo adversário. Pais e irmãos passam a ser ameaçados e até mortos se as “regras” não forem cumpridas.

A morte, a única certeza para todos nós, tornou-se banal para essa grande massa da população que parece chorar os seus entes queridos apenas na frente das câmeras de televisão, quando estas estão presentes em algum evento bizarro que acreditam render alguns pontos a mais no “ibope”. Triste sina a do brasileiro desprovido de recursos




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