Professor
da Faculdade de Saúde Pública da USP, ex-presidente da Anvisa
e
ex-secretário de Saúde da cidade de São Paulo
Pagamos
e não levamos?
Temos
que exigir e construir um estado voltado para realizar as demandas que
a sociedade necessita
Nestes
tempos de discussão de eleições e de candidatos,
como fica a área da saúde? O que queremos que seja feito
do sistema de saúde no Brasil? Mais privatização
ou mais estado? Afinal qual é a receita mágica para resolver
o setor saúde no país? Na verdade o brasileiro quer que
venha um salvador da pátria e resolva o problema. Temos um imediatismo
que urra por soluções prontas. Se pagamos, queremos ter
mais escola, mais estradas, mais empregos, mais saúde. E com que
contrapartida? Qual é a responsabilidade de cada um de nós?
Qual é a razão de tanta perplexidade – pagar e não
ter?
No
entanto quando comparamos o que pagamos, verificamos que pagamos muito
pouco. Qualquer comparação com países de mesmo grau
de desenvolvimento que o nosso indica que nossos gastos per capita com
saúde não só são inferiores, como também
de qualidade ruim (a relação gasto privado versus gasto
publico é pior em comparação com o Uruguai ou o Chile,
por exemplo). Porém, a carga tributária brasileira se encontra
entre as mais altas do mundo. Assim de onde virão mais recursos?
Como construir a equação de maiores gastos sem aumentar
tributos e sem criar renúncias, sem também descambar para
políticas de focalização com conseqüente perda
de equidade?
Não existem respostas simples e tampouco mágicas. A solução
está em construir um novo modelo de país e de desenvolvimento
social. Temos que identificar o conjunto de políticas sociais que
geram inclusão, melhor distribuição de renda e de
oportunidades de trabalho, com um adequado grau de proteção
social e montar ações voltadas para a sua realização.
Isto certamente irá necessitar de um novo modelo de estado, que
tenha uma responsabilidade centrada em resultados e não em formalismos.
Portanto, a discussão não é sobre quem realizará,
não é sobre estatização ou privatização.
Ela é sobre transparência e sobre eficiência. Temos
que exigir e construir um estado voltado para realizar as demandas que
a sociedade está necessitando. Certa-mente nesse estado alguns
setores que tradicionalmente têm tido investimentos públicos,
terão o que vem sendo chamado de parcerias publica-privadas. Mas
temos que cuidar para que essas três palavrinhas não se transformem
na panacéia da hora ou, pior, no “mensalão”
de amanhã. O que precisa ficar decidido é que setores de
alta rentabilidade e de interesse comum na sociedade deverão ter
aporte privado e que setores de menor rentabilidade e ou onde os mercados
são imperfeitos (como no caso da saúde e dos setores sociais)
a presença do estado, regulando e fiscalizando, deve ser diferenciada.
Isso não significa: não pagar juros, não ter responsabilidade
fiscal, deixar de gerar superávits primários para acertar
as contas nacionais, deixar de investir na agricultura, deixar de realizar
o imenso esforço que temos que encetar na área de ciência
e tecnologia, o esforço que temos que fazer para aumentar nossa
competitividade externa e aumentar nossas exportações etc.
Significa dar um novo entendimento para a gestão da sociedade em
um país com o tipo de problemas que a Belíndia tem (mistura
de Bélgica e Índia). Temos que criar um novo modelo de investimentos
no país com a geração de uma nova poupança
que faça frente a esse desafio com a rentabilidade e transparência
que o mundo moderno exige desse tipo de ação.
Na área da saúde isso passará por uma revisão
do modelo de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS).
Teremos que investir pesadamente em regulação e, portanto,
no uso intensivo de tecnologia de informação. Novas modalidades
organizacionais como a indicada pelas organizações sociais
deverão dominar a cena. Novas relações com a força
de trabalho, novas maneiras de usar e introduzir novas tecnologias, intensificar
a intersetorialidade e as ações de promoção
e proteção da saúde.
Enfim, não será fácil e com certeza não será
tarefa de alguns. Se todos não participarem dessa nova construção
ela não se dará e o momento é este. Vamos discutir
com nossos candidatos e cobrar-lhes a parte deles e com isso (também)
estaremos construindo a nossa parte.
Contato: gvecina@uol.com.br
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