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A
SAÚDE PRECISA SER ELEITA
Congresso
propõe saídas para a crise das
Santas Casas e hospitais filantrópicos num ano
que a sociedade escolhe o novo presidente

Candidatos: Alckmin
(acima) foi pessoalmente. O presidente Lula (abaixo,
em São Bernardo), mandou representante.
Não
é determinante nem significa desinteresse, mas pode ser um indicador
para quem ainda está em dúvida em quem votar a presidente
nestas eleições. Dos oito candidatos à presidência
da República só dois aceitaram o convite para participar
ou estar reapresentado no 16º Congresso Nacional das Santas Casas
e Hospitais Filantrópicos, realizado de 22 a 24 de agosto, em Brasília.
Desse encontro saiu a chamada “Carta de Brasília” na
qual os hospitais e entidades filantrópicas expuseram suas reivindicações
ao futuro governante. O PSDB e o PT foram as únicas legendas partidárias
presentes ao evento, cujo tema este ano aproveitou o gancho eleitoral.
Sob o mote “Eleja a Saúde em 2006”, cerca de 450 congressistas
de 22 estados brasileiros e do exterior participaram das plenárias
e de um debate denominado “Os Presidenciáveis e o Futuro
da Saúde no Brasil”. Nunca é demais lembrar a quem
pleiteia um cargo público no país que o setor filantrópico
na saúde é formado por cerca de 2.100 entidades, que respondem
por 40% dos atendimentos feitos pelo Sistema Único de Saúde
(SUS) e por 1/3 dos leitores hospitalares do país.
O tucano Geraldo Alckmin aproveitou o espaço e foi pessoalmente
ao encontro, enquanto que o candidato petista Luís Inácio
Lula da Silva esteve representado pela co-ordenadora da Setorial Nacional
de Saúde do partido. O candidato do PDT, Cristóvam Buarque
informou, por meio de sua assessoria, segundo a Confederação
das Santas Casas, organizadora do evento, que não havia interesse
em apresentar suas propostas para os hospitais filantrópicos. Os
demais pleiteantes ao cargo de presidente do Brasil não responderam
ao convite da CMB.
O candidato Alckmin prometeu investir na gestão e qualificação
do setor. O candidato firmou uma espécie de compromisso com as
santas casas, como o de regulamentar a Emenda Constitucional nº 29,
que determina quais parcelas das receitas tributárias da União,
estados e municípios devem ser destinadas às ações
e serviços públicos de saúde. Alckmin também
se comprometeu em reajustar a tabela do Sistema Único de Saúde
(SUS) e criar um Proer (o programa de socorro aos bancos criado no governo
do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) para os hospitais beneficentes.
"O governo não financia o setor privado? Tem que financiar
seu melhor parceiro, que é o terceiro setor”, salientou Alckmin.
“As Santas Casas e os hospitais filantrópicos não
podem ser levados à bancarrota e à inadimplência por
total irresponsabilidade e falta de sensibilidade do governo", concluiu.
No programa de governo do PSDB, inclusive, estão destacados esses
itens em dois dos dez pontos que compõem o documento (reproduzidos
literalmente):
• “Promover a atualização da tabela SUS, especificamente
para os prestadores privados filantrópicos, já que a rede
pública já é custeada por recursos necessários
ao cumprimento da EC-29 pelas três esferas de governo”.
• “Apoiar a regulamentação da EC-29, que dará
bases de financiamento mínimo estáveis para a Saúde
e evitará desvios orçamentários, onde dinheiro destinado
à Saúde é gasto fora do elenco reconhecido como sendo
de ações e serviços típicos de Saúde”.
Conceição Rezende, que faz parte da coordenação
setorial nacional de Saúde do PT e coordena a comissão temática
de Saúde do partido, fez um balanço dos programas implantados
para melhorar a saúde no Brasil nos últimos quatro anos.
Segundo ela, uma das propostas do candidato é territorializar o
atendimento de média complexidade. Se reeleito, Lula continuará
a implementar a universalização do SUS através da
contratualização e descentralização da rede
hospitalar. Das 34 páginas do Programa de Governo 2007-2010 divulgado
pelo candidato Luís Inácio Lula da Silva, duas são
dedicadas á saúde. Entre as propostas do documento estão
(também reproduzidas literalmente):
“Fortalecer a gestão do SUS, pública e democrática,
com controle social, como instrumento de identificação das
necessidades da população, atendimento ao interesse público
e combate à corrupção”.
“Universalizar o cartão SUS, que se constituirá no
carro chefe da informatização do acesso e dos atendimentos”.
A “Carta de Brasília” cobrou não só a
necessidade urgente de atualizar a tabela de preços de ser-viços
prestados ao SUS e a aprovação imediata da regulamentação
da EC 29, como estendeu as reivindicações a efetivação
imediata do Programa de Reestruturação e Contratualização
dos Hospitais Filantrópicos do SUS e ampliação do
prazo para discussão da proposta governamental de alteração
do Decreto n0 2.536/98, que trata dos critérios de concessão
do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social. O
documento será encaminhado ao presidente Lula, aos ministros da
Saúde, da Previdência e do Desenvolvimento Social e a todos
os secretários estaduais e municipais de saúde do país.
O setor filantrópico quer nortear a política de governo
no âmbito federal e estadual e alertar os gestores públicos
sobre os problemas emergenciais do setor, para evitar que hospitais e
a santas casas filantrópicos fechem suas portas, principalmente
no interior do país. Diversas propostas estão sendo debatidas
para superar a crise. O setor quer que o governo libere, de imediato,
uma linha de credito especial para que as instituições filantrópicas
possam administrar suas dívidas com juros mais acessíveis
do que os praticados pelos bancos comerciais.
Segundo lideranças do setor, o Governo se mostrou receptivo e “decidiu”
reabrir negociações sobre um eventual reajuste dos valores
da tabela do SUS. Nas palavras do Ministro da Saúde, José
Agenor Alvarez, que esteve presente na abertura do congresso, a importância
dos hospitais filantrópicos para a saúde do Brasil “é
indiscutível”, ainda que essa constatação não
se traduza necessariamente em conquistas por parte dessas entidades. A
cada ano, a crise financeira dos hospitais e Santas Casas fica mais grave.
Hoje, o débito
do setor com fornecedores e bancos, além do passivo trabalhista,
é de R$ 1,8 bilhão, segundo o superintendente da Confederação
das Misericórdias do Brasil, José Luis Spigolon. “É
um processo que vem desde a criação e implantação
do plano real. Desde esse período, houve um deságio dos
serviços pagos pelo SUS de quase 10% ao mês. Os valo-res
dos medicamentos e dos insumos hospitalares aumentaram muito e o governo
não repassou essa diferença para as instituições
filantrópicas”, disse Spigolon.
Em entrevista
à agência estatal Radiobrás, Spigolon afirmou que
se o governo não reajustar a tabela em pelo menos 40% grande parte
dessas instituições corre o risco de fechar as portas, principalmente
nos pequenos municípios brasileiros. “Aí, seria um
grande caos já que muitos dos pequenos municípios tem apenas
à disposição uma Santa Casa de Misericórdia”,
disse. Ele acrescentou que hoje para cada R$ 100 que as instituições
filantrópicas gastam com um paciente do SUS o governo repassa apenas
R$ 60,00. Segundo o documento consensual distribuído no final do
congresso, a diferença existente tem sido viabilizada pelos hospitais
por meio de empréstimos bancários, acúmulo de dívidas
com fornecedores, não recolhimento de tributos, atrasos e achatamento
salarial, alienação de patrimônio próprio,
sucateamento tecnológico e contribuições da comunidade,
entre outras formas. “É uma defasagem bastante alta que ao
longo dos últimos doze anos vem se tornando insuportável”,
explica Spigolon. Segundo ele, há hospitais, por exemplo, como
em Uruguaiana (RS) e Foz do Iguaçu (PR), que por esses motivos
já fecharam suas portas.
Além dessas reivindicações, o deputado Darcísio
Perondi (PMDB-RS), vice presidente da Confederação das Misericórdias
do Brasil, disse que para manter as instituições filantrópicas
em funcionamento é necessária a aprovação
no Congresso Nacional, em regime de urgência, da Lei Complementar
(01/2003), que trata de recursos destinados à saúde. Essa
lei está em tramitação na Câmara dos Deputados.
A assessora Márcia Maria Biondi Pinheiro, da Secretaria Nacional
de Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social,
informou que as discussões referentes à alteração
do decreto estão abertas até 19 de setembro. E que sugestões
podem ser enviadas ao Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS),
órgão ligado ao ministério, responsável pela
elaboração do documento.
Num ano eleitoral, o congresso das Santas Casas e hospitais filantrópicos
ganha mais importância. Candidatos de todos as tendências
não podem fugir do debate, mesmo os que não compareceram
ao evento. Para os representantes das entidades filantrópicas é
mais uma chance de tentar mudar a situação dramática
de muitas instituições. “Saímos de lá
com a garantia de uma luta comum a todos, com a reiteração
de nossa necessidade de pressionar o governo na busca de nossos interesses”,
afirmou Charles London, presidente da Federação das Santas
Casas do Paraná. “Estamos fazendo nossa parte no que diz
respeito à importância das próximas eleições
para a área da saúde”.
O futuro presidente, seja quem for, não pode mais ignorar essa
cruel e indefinida crise. Pelo menos se quiser evitar o caos na saúde
e manter os hospitais filantrópicos abertos.

Brito (à direita):
encontro acima da expectativa
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A
Carta de Brasilia
“A
Confederação das Santas Casas de Misericórdia,
Hospitais e Entidades Filantrópicas – CMB (...) vem
expressar publicamente (...):
1 – Que é dramática a situação
econômica e financeira da maioria dos hospitais filantrópicos,
os quais dedicam ao SUS no mínimo 60% das suas capacidades
instaladas.
2 – Que esta situação decorre da brutal defasagem
dos valores de contraprestação praticados pelo SUS
(...).
3 – Que (...) observe-se a variação da inflação,
a partir do Plano Real, versus a correção média
da tabela do SUS no mesmo período: IGP-M 402,00 % e tabelas
SUS 37,30 %.
4 – Que o Programa de Reestruturação e Contratualização
dos Hospitais Filantrópicos no SUS, além de contemplar
apenas uma parcela do segmento, não traz consigo a solução
financeira dos hospitais, visto que seus cálculos são
realizados em bases defasadas. (...) Busca transferir para os hospitais
responsabilidades sobre contratos com os profissionais de medicina
e serviços auxiliares de diagnóstico e tratamento
(...).
Diante do exposto, o segmento filantrópico brasileiro requer:
a) A imediata efetividade do Programa de Reestruturação
e Contratualização dos Hospitais Filantrópicos,
incluindo todo o segmento brasileiro, concedendo um reajuste de
40% nos valores previstos em contrato, considerando para tal os
montantes médios pagos a cada um no primeiro semestre ano
de 2006.
b) A manutenção do código “7” como
forma de repasse da remuneração dos profissionais
médicos e serviços auxiliares de diagnóstico
e tratamento.
c) A previsão, nos contratos a serem firmados, de formas
de reajustes que garantam o equilíbrio econômico e
financeiro nas relações, bem como a contraprestação
integral por todos os serviços prestados.
d) Alternativamente, se inviável o item “a”,
a concessão imediata de reajuste nas atuais tabelas do SUS,
no mínimo em 40%, concomitante com alternativas de parcelamentos
de débitos e linhas de investimentos tecnológicos
a fundo perdido.
e) Aprovação imediata da regulamentação
da Emenda Constitucional n° 29.
f) Ampla discussão, com todos os seguimentos envolvidos,
da proposta governamental de alteração do Decreto
nº. 2.536, de 1998, que regulamenta a concessão do Certificado
de Entidade Beneficente de Assistência Social”.
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