Julho/Agosto/Setembro
de 2006
NÚMERO 51
ANO 5

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ENTREVISTA
 
Terezinha Covas Lisboa

Na busca de líderes

Terezinha Lisboa : podemos descobrir novas lidereranças

O lidér deve ter cinco atitudes básicas: ouvir sem julgar, ser autêntico, construir um clima saudável,
partilhar o poder e desenvolver as pessoas


Nos últimos anos, Teresinha Covas Lisboa, conceituada professora e escritora de vários livros de gestão hospitalar, vem dedicando seu tempo ao tema da liderança nos serviços de saúde. Coordenadora dos Cursos de pós-graduação da Faculdade Inesp, na cidade de Jacareí (SP), presidente do Fundo de Apoio à Pesquisa e Extensão (Fapesa) e docente titular do curso de Administração da Universidade de Santo Amaro (Unisa), é Doutora em Administração com Mestrado em Administração Hospitalar. Escreveu os livros “Liderança: Uma Questão de Competência”, “Teoria Geral da Administração Hospitalar”, “Gestão Estratégica para a Liderança em Empresas de Serviços Privados e Públicos”, “Humanização Hospitalar” e “Limpeza, Higiene, Lavanderia Hospitalar”.
Para ela, os verdadeiros líderes são aqueles que administram sem recursos, têm a confiabilidade da população e alcançam resultados em suas propostas de trabalho. Objeto de estudo de muitos tipos de organização, as lideranças, para ela, devem aparecer naturalmente e não se pode confundir o líder com o gerente. “O líder prepara sua equipe para as mudanças e o gerente busca a ordem e a continuidade”. Nesta entrevista, ela expõe suas idéias sobre o papel da liderança na gestão da saúde brasileira.


Notícias Hospitalares – De que modo os conceitos de liderança corporativa podem ser aplicados num ambiente hospitalar e nos processos de qualidade buscados pela área de saúde?

Teresinha Covas Lisboa – Existem vários conceitos de liderança. O estilo aparece naturalmente, à medida que vão surgindo e crescendo as equipes. Não podemos engessar uma organização com um determinado modelo. A liderança corporativa pode ser um bom conceito, mas dependerá do perfil e do estilo de liderança dos dirigentes. Os processos de qualidade, também, com suas revisões e análise da cultura da organização, acabam por criar um ambiente em que os estilos de liderança são descobertos.

NH – A seu ver, a liderança pode já ser considerada uma especialização ou é mais um atributo que os profissionais devem buscar?

Teresinha Covas Lisboa – A lide-rança é atualmente objeto de estudo de vários tipos de organizações. Se considerarmos como uma especialização acadêmica, atualmente temos programas que estudam a liderança como teoria. No caso de ser um atributo, os profissionais devem buscar o aprimoramento para que possam melhorar suas relações de trabalho e as condições de trabalho dos liderados, no sentido de atingir resultados eficazes e produtivos para a organização.


NH – Mas é possível formar lideres para a saúde?

Teresinha Covas Lisboa – Acho que podemos descobrir líderes. A lide-rança é uma qualidade que está intimamente ligada àquele que dirige uma unidade ou a organização. Não podemos confundir o líder com o gerente. O líder prepara sua equipe para as mudanças e o gerente busca a ordem e a continuidade. Podemos, sim, descobrir nas equipes aquele que poderá ser o líder e aprimorar as condições de conhecimento.

NH – E como reconhecer um verdadeiro líder?

Teresinha Covas Lisboa – Podemos relacionar cinco atitudes básicas. Primeiro ouvir. Ouvir sem julgar, procurando discutir com a equipe as preocupações e dúvidas existentes. Segundo, ser autêntico, admitindo seus erros e acertos abertamente. Em terceiro construir um clima saudável entre os liderados, valorizando todas as ações da equipe. Em quarto lugar, partilhar o poder, delegando funções. E, em quinto, desenvolver as pessoas, criando um ambiente de expansão. Aquele que conseguir reunir todas essas atitudes tem condições de liderar com comprometimento e com a certeza de criar seus sucessores. Considero essas atitudes como uma lição de sabedoria.

NH – Como você analisa o atual momento da gestão hospitalar no Brasil?

Teresinha Covas Lisboa – Considero um momento muito promissor. A visão empresarial, em substituição a assistencial, provocou uma in-quietação nos profissionais de saúde. Temos visto congressos, seminários, cursos de graduação, de extensão, cursos de pós-graduação, enfim, atividades que vêm ao encontro das necessidades dos gestores. A profissionalização passou a ser um indicador de crescimento e de melhoria da qualidade dos serviços prestados à comunidade. O crescimento da área hospitalar possibilitou a geração de novos empregos e de novas profissões.

NH – Estamos numa fase de mudança de governo. A Sra. está otimista em relação à política pública da saúde para os próximos quatro anos?


Teresinha Covas Lisboa – Sentimos neste último governo que o investimento em saúde deixou a desejar. Há otimismo quando vemos que as políticas de saúde priorizam as necessidades da população e não as prioridades partidárias. Infelizmente, no Brasil, padecemos pela descontinuidade das práticas e ações, pois de quatro em quatro anos mudamos de partidos.

NH – O SUS é ainda o melhor modelo para administrar a saúde pública no país?

Teresinha Covas Lisboa – Legal-mente, sim. Somos elogiados pela legislação do SUS. Porém, a gestão das políticas públicas é que poluem a efetividade do modelo. Precisamos ter gestores que realmente se preocupem com a saúde da população.

NH – O que fazer para se tentar um salto de qualidade no atendimento à população?

Teresinha Covas Lisboa – Para isso, seria necessário Implementar programas de saúde que não sofram a interferência política. Seria importante que os programas sociais englobassem a obrigatoriedade de exames periódicos de saúde física e mental, saúde bucal, entre outros. E o maior salto seria a interatividade com a área da educação, no qual as escolas fariam o acompanhamento conjunto com a saúde. É importante, também, que haja um programa de conscientização da necessidade na prevenção das doenças. O Ministério da Saúde tem condições de organizar e administrar essas campanhas. Basta ter boa vontade e responsabilidade.

NH – Você acredita que estamos preparando bons gestores para os novos desafios que o setor da saúde exige?

Teresinha Covas Lisboa – Sim, estamos. Temos boas escolas e universidades que preparam os profissionais para os desafios da área de saúde. Precisamos incentivar os cursos de tecnologia, também, para dar suporte a esses gestores. Como docente da área de saúde vejo o potencial dos alunos que chegam à universidade com um histórico profissional muito bom. Isso considerando a pouca idade de muitos. Observo, também, que a área médica está buscando cursos de pós-graduação em Administração Hospitalar, o que é um avanço. Suas clínicas estão crescendo, a população crescendo, envelhecendo. Portanto, considero que a área de saúde está em grande expansão, o que resulta em boas oportunidades de emprego e de crescimento profissional.

NH – Há um grande líder na área de saúde do Brasil hoje?

Teresinha Covas Lisboa – Encontramos vários líderes. Nas grandes cidades, nos pequenos hospitais localizados no sertão do Nordeste, nas Santas Casas de cada estado. O grande líder na área de saúde no Brasil, hoje, não é aquele que administra com folga de caixa. É aquele que, usando de sua criatividade, consegue administrar seu hospital ou serviço, oferecendo bons serviços, corpo profissional preparado e eficiente atendimento à população. Temos um exemplo muito importante, que são os projetos que participam do Prêmio Johnson & Johnson. Ali encontramos participantes que vivem no anonimato, mas que são verdadeiros líderes. Administram sem recursos, têm a confiabilidade da população e alcançam resultados em suas propostas de trabalho.

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