Julho/Agosto/Setembro
de 2006
NÚMERO 51
ANO 5

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HUMANIZAÇÃO
 
Cristina Rodrigues
Consultoria de Enfermagem e Especialista em Administração
Hospitalar e Saúde Pública

A Começar por nós

Para que haja ética e uma assistência humanizada
é preciso "perceber" o outro

 

O hospital é um ambiente complexo e sua razão de ser são as pessoas e não apenas seus problemas físicos ou psíquicos. Diversas iniciativas têm sido implementadas no sentido de resgatar a dimensão do cuidado, reconhecer que o ofício da equipe de saúde não se encerra nas possibilidades terapêuticas, ao contrário, vai muito além dela (Balint, 1984).
Nos últimos anos, temos assistido a estruturação de diversificados programas de humanização, procurando se aproximar da individualidade do cliente, respeitando a essência do Ser – emoções, crenças, valores, particularidades e que implica ainda na valorização do profissional e do diálogo inter equipes. Vários projetos de humanização vêm sendo desenvolvidos em áreas específicas da assistência. Por exemplo, para a saúde da criança (Doutores da Alegria, Projeto Canguru para recém-nascidos de baixo peso, brinquedotecas, Contadores de Histórias), para a saúde da mulher (presença do pai na sala de parto, humanização do parto), em UTIs (comemoração de aniversários, flexibilidade nos horários de visitas), em Centro Cirúrgico (mães que acompanham crianças na sala de recuperação), áreas de acolhimento em serviços de pronto atendimento.
Para uma avaliação da tarefa assistencial deve-se considerar que o paciente está inserido em um contexto pessoal, familiar e social complexo. A assistência deve fazer uma leitura das necessidades pessoais e sociais do paciente – na instituição interagem as necessidades de quem assiste e de quem é assistido.
As reflexões sobre a tarefa assistencial conduzem também ao campo ético. A questão surge quando alguém se preocupa com as conseqüências que sua conduta tem sobre o outro. Para que haja ética e uma assistência humanizada é preciso “perceber” o outro. A humanização é um processo amplo, demorado e complexo, ao qual se oferecem resistências, pois envolve mudanças de comportamento, que sempre despertam insegurança. Os padrões conhecidos parecem ser sempre os mais seguros. É importante ressaltar que cada instituição deve ter seu programa próprio de humanização, utilizando-se de elementos da sua realidade. Dessa maneira, o envolvimento e a aceitação serão maiores e mais rápidos. No processo devem estar envolvidas várias instâncias, profissionais de todos os setores, direção e gestores da instituição.
Merece reflexão a atual tendência e as ações humanizadoras no âmbito institucional: como se comportam as relações humanas entre indivíduos? Como trabalhar pela humanização em ambientes de saúde, se cada vez mais as pessoas se individualizam em casulos, vivendo para si e seus objetivos? Precisamos começar a humanizar as relações mais básicas: familiares, profissionais, institucionais.
Nesse sentido, humanizar a assistência hospitalar implica em dar lugar tanto à palavra do usuário quanto à dos profissionais da saúde, de forma a que possam fazer parte de uma rede de diálogo, que pense e promova ações, campanhas, programas e políticas assistenciais a partir da dignidade ética da palavra, do respeito, do reconhecimento mútuo e da solidariedade. Podemos refletir sobre a frase de Leo Tolstoy: ”Todos querem mudar o mundo, mas ninguém quer mudar a si mesmo”. Como criar ambientes mais humanos se não lembrarmos de começar o processo por nós mesmos? .


Contato: cristina@prosaude.org.br
                                                             

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