Fevereiro/Março/Abril
de 2007
NÚMERO 52
ANO 5

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CAPA
 

Aposta no crescimento

Ainda que a crise na saúde brasileira seja real e recorrente, alguns
empreendedores estão investindo e acreditando no setor


Projeto do Hospital das Américas, no Rio de Janeiro: investimento de R$ 180 milhões

As crises brasileiras costumam ser recorrentes e apenas mudam de no-me. No caso da saúde, as atribulações parecem infindáveis e perenes. Mas, enquanto alguns empresários se queixam da falta de perspectivas e principalmente de crédito na saúde – na maioria das vezes com total razão –, alguns investidores arregaçam as mangas e se movimentam para construir novos hospitais ou ampliar os já existentes, previstos para estarem em funcionamento até 2009, com investimentos divulgados que chegam a cerca de R$ 250 milhões.
No Rio de Janeiro, o Grupo Fator, a Amil e a DixAmico já iniciaram as obras do Hospital das Américas, localizado na Barra da Tijuca, área nobre da cidade. Os empreendedores estão investindo R$ 180 mi-lhões no que consideram “o mais moderno e sofisticado complexo hospitalar do Brasil”. O hospital é a terceira unidade da rede Alfa, criada pelo Grupo Fator. As duas primeiras, com características técnicas idênticas, foram cons-truídas em Recife e Salvador. Serão 360 leitos que visam suprir a carência numa região de alto poder aquisitivo. Segundo o IBGE, a Barra da Tijuca, incluindo Recreio, Jacarepaguá e Méier, tem mais de um milhão de moradores, com demanda atual diária de 1.600 leitos para usuários de planos de saúde. Porém, dispõe atualmente de 650 leitos destinados a esse público, ou seja, um déficit de quase 1.000 unidades.
Para o futuro superintendente do hospital, o médico mastologista Maurício Magalhães Costa, a estratégia é a abrangência de serviços. “É oferecer tudo num só lugar, para atender tanto pa-cientes quanto os médicos, que podem acompanhar de perto todas as etapas do tratamento”, explica Costa. Isso significa, desde a consulta, exames e, se necessário, cirurgia e pós-operatório. Por meio da intranet será possível acessar o prontuário eletrônico do paciente, cujas informações serão constantemente atualizadas. “Esse sistema já funciona com sucesso nas outras duas unidades de Recife e Salvador. Até a alta pode ser dada sem a presença física do médico”.
Outro ponto tido como de desta-que da obra é a maternidade, considerada uma das carências dos moradores do Rio de Janeiro. A do Hospital das Américas terá 37 apartamentos de luxo, centro obstétrico, quatro salas de cirurgia, três salas de pré-parto, inter-ligação direta com a UTI do hospital, 50 leitos de UTI neonatal, unidade de reprodução humana e um centro de ginástica para gestantes. O hospital oferecerá ainda transplante de medula e bancos de sangue de cordão umbilical.

Espírito Santo


Nossa Senhora de Lourdes: objetivo é dobrar o atendimento em 2007.


Além do prontuário eletrônico, um sistema de controle de admi-nistração de medicamentos, com leitores de código de barra conectados a computadores ao lado de cada leito verificam se o medicamento deve ser ministrado para aquele paciente. Um outro sistema de correio pneumático transportará, através de grandes ampolas, todos os medicamentos da Farmácia central até os diversos postos de enfermagem e farmácias satélites. A tecnologia também estará presente no transporte de pacientes ao centro cirúrgico. No Hospital das Amé-ricas o paciente será transportado do leito para a mesa cirúrgica por meio de um sistema de esteira, chamado de transfer, sem contato com o paciente.
No Espírito Santo estava previsto para março a inauguração do Vila Velha Hospital, na cidade do mes-mo nome, com investimento informado de R$ 25 milhões. Com 850 funcionários, o empreendimento conta com 190 médicos-sócios e deve atender 9.000 consultas por mês em 40 especialidades. São 20 mil metros quadrados, três salas de parto, 11 de cirurgia, 13 leitos de UTI pediátrica e neonatal e 19 leitos de UTI geral e coronariana. A prefeitura fez as obras de drenagem e pavimentação das duas ruas que dão acesso ao hospital, que terá uma estação de tratamento de esgoto própria e que tratará 90% dos resíduos e reutilização de água nos vasos sa-nitários.
Para não ficar apenas nos em-preendimentos do Sudeste, a Unimed inaugurou, em fevereiro, um novo hospital em São Luís, no Maranhão. O investimento de R$ 8 milhões, com recursos próprios, abrangeu a compra do prédio e as reformas necessárias. Ao todo são 47 leitos, divididos em 30 apartamentos e quatro enfermarias, exclusivos para os usuários do plano de saúde da Unimed. Uma pesquisa feita pela Unimed verificou que o bairro Cohab, onde está localizado o hospital, possui 60% de usuários do seu plano de saúde. Em todo o Estado, esse contingente chega a 50 mil vidas. O hospital vai começar com o atendimento ambulatorial, com uma equipe de 100 médicos. Segundo o diretor do hospital João Bentivi, a unidade estará totalmente insta-lada em 36 meses. São Luís era a única capital brasileira em que a Unimed não tinha hospital pró-prio.
Na Zona Norte da cidade de São Paulo foi inaugurado o Hospital San Paolo, sem informação do total investido. Um dos trunfos do hospital é contar em seu quadro clínico com o cardiologista Ênio Buffolo, conhecido por ter desenvolvido uma técnica de cirurgias nas coronárias sem a necessidade de paralisar o coração e desviar o fluxo sangüíneo. O hospital aposta ainda no que considera um serviço inovador no segmento, que são os “protocolos de serviço” com va-lores predeterminados, o que, segundo informa os responsáveis pelo hospital, significa “ter um preço único para o conjunto das atividades necessárias, que cobre a internação cirúrgica em sua totalidade”. O processo, segundo o diretor administrativo Jociliano Leonel, faz a previsão de preços para pacientes e operadoras.

Bolsa de Valores

Também em São Paulo, mas na Zona Leste, no tradicional bairro da Mooca, será inaugurado até junho o Hospital Villa-Lobos. O projeto é do mesmo grupo que controla o Hospital Cema, instalado há 30 anos na mesma região da capital paulista. O investimento, nesse caso, é de R$ 36 milhões, dos quais R$ 12 milhões foram destinados a equipar o centro cirúrgico e as UTIs intensiva e semi-intensiva. O hospital terá capacidade para atender 600 pacientes por dia no pronto-socorro e realizar cerca de 1.000 cirurgias de alta complexidade por mês. Serão atendidas todas as especialidades médicas, exceto maternidade, oftalmologia e otorrinolaringologia. Construído numa área de 16 mil metros quadrados, o hospital terá 200 leitos, distribuídos em 10 andares. Quando estiver pronto, terá cerca de 700 funcionários, incluindo corpo clínico, e disporá de todos os protocolos médicos. “Nossa intenção é conquistar a credibilidade de médicos e pacientes de toda a cidade. Para isso, precisamos ter as melhores certificações de qua-lidade desde o início de funcionamento”, argumenta Paulo Roberto Cretella, futuro diretor clínico do hospital.
A escolha do nome de um dos maiores compositores brasileiros para o hospital (e o slogan “Por-que medicina é uma arte”) surgiu de uma pesquisa com médicos, pacientes e especialistas em marketing. “Conseguimos unir saúde e arte, dois conceitos vitais para o ser humano, e ainda fugimos da mesmice de nomes de ruas, cidades e santos”, justifica Luiz Carlos Lazarini, diretor-executivo do Grupo Cema. A estratégia do nome também foi para não associar o novo hospital ao antigo. “O Hospital Cema em 30 anos virou sinônimo de atendimento em oftalmologia e otorrinolaringolia. A marca Cema é um patrimônio do grupo e precisa ser preservada. Já o Villa-Lobos será um hospital geral, com foco em cirurgias de alta complexidade”.
Quem também está apostando no crescimento é o Grupo Nossa Se-nhora de Lourdes, na Zona Sul da cidade de São Paulo. Localizado há 48 anos na região, o grupo reúne 10 empresas na área da saúde, entre elas o Hospital Nossa Senhora de Lourdes e a Mater-nidade e Hospital da Criança. Em 2007, a previsão é que o grupo atinja o faturamento de R$ 200 milhões, quase 10% acima do ano passado.
Para crescer e dobrar a capacidade de atendimento, o HNSL vai expandir sua área de 11 mil me-tros quadrados para 23 mil metros quadrados. O investimento será de R$ 30 milhões, feito em etapas. A previsão é que a primeira torre esteja pronta até outubro. A segunda fase, a conclusão da segunda torre, deve ser finalizada até o fim de 2008.
Em 2006, o HNSL lançou na Bolsa de Valores um fundo imobiliário, com cotas no valor total de R$ 88 milhões. “Cerca de R$ 30 milhões foram vendidas em apenas dois dias, o que demonstra a excelente percepção dos investidores em relação à gestão do hospital”, informou Cícero Aurélio Sinisgalli, presidente e fundador do grupo. O Ebitda (sigla em inglês para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, que mede a capacidade de ge-ração de caixa e resultado operacional) do HNSL em 2006 foi de 16,6% sobre as receitas e a projeção para 2007 é de 17,82%. De acordo com Fábio Sinisgalli, diretor geral do grupo, “o Ebitda é que está alavancando o crescimento do hospital”. Antes de planejar a ampliação, a diretora do HNSL, como sempre faz, viajou para os Estados Unidos com o objetivo de visitar o que há de novidades nos centros hospitalares americanos. “Isso é uma constante na rotina de nossa equipe médica que de tempos em tempos visita esses hospitais com a proposta de investir no desenvolvimento da infra-estrutura, tecnologia e qualidade da assistência médica”, esclarece Cícero Sinisgalli.
Como se vê, o montante de in-vestimentos na construção de no-vos hospitais e ampliação de ou-tros é significativo para um país no qual a saúde é sempre a prima po-bre em termos de novos empreen-dimentos. As boas perspectivas merecem, ao menos, serem ava-liadas pelos analistas de economia para que seja medido o verdadeiro potencial do mercado brasileiro, cujas perspectivas podem ser bem melhores do que se pensa.


Hospital Villa-Lobos: do mesmo grupo do Cema

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