|
Médica Ortopedista
Geração
Saúde ?
Os
conhecimentos que vinham conosco
estão se perdendo e as famílias se desestruturando
Fosse
o problema deste país apenas os “sem-terra”, os “com
fome” ou os “sem-teto”, estaríamos bem. Admira-se?
Pois é. Quem trabalha diretamen-te com a população
considerada como sendo de classe C e D nos grandes centros urbanos, já
notou a quantas anda a educação do nosso povo. Este é
um dos maiores problemas deste país.
Estamos formando gerações de ignorantes, pessoas que freqüentam
as salas de aula mas que não conseguem sequer diferenciar um papel
de receituário de um de atestado médico. Poder-se-ia dizer
que a letra do médico é ruim (uma verdade absoluta). No
entanto, o título desses papéis vêem escrito em papel
timbrado do hospital.
Triste realidade: os jovens não sabem ler, não são
estimulados suficientemente para se interessar pelo novo, pelo diferente
e nem para buscar soluções para seus problemas.
Exemplo simples e prático é aquele encontrado nos hospitais
de periferia: chega o paciente, o médico examina, pede o exame,
faz o diagnóstico e explica ao doente e a seus acompanhantes o
que o enfermo tem e como deve ser seu tratamento. Percebe-se pelo olhar
de um e de outro que eles não compreenderam o que foi dito. Muda-se,
então, a linguagem. Metáforas são utilizadas. Vale-se
de situações conhecidas para melhorar a explicação.
Agora todos balançam a cabeça como que concordando com o
roteiro ali apresentado. O médico, ainda na dúvida, faz
uma terceira explicação, mais resumida, frisando os pontos
importantes. Ao final, como que num teste de si mesmo, solicita aos familiares
que repassem, com suas próprias palavras, o que lhes foi pacientemente
explicado. Não há resposta satisfatória em quase
100% das vezes.
Este fato não é isolado. Converse com outros profissionais
que dependem da compressão de terceiros para que algum procedimento
dê resultado. Todos, sem exceção, vão queixar-se
do mesmo problema.
Nem mesmo a cultura “pai para filho” é mais passada.
Os conhecimentos que vinham conosco estão se perdendo. As famílias
estão desestruturadas, sob todos os aspectos. Não existe
comprometimento do ensino familiar nem do governo. Não se conhece
o respeito, não se aprende sobre hierarquia e se cria verdadeira
anarquia, que facilita a continuidade das más administrações,
das políticas de resultados próximos das eleições,
da falta de cobrança daquelas antigas promessas de campanha pela
po-pulação, da falta de discernimento entre o certo e o
errado, entre a verdade e a mentira e entre o “conto de fadas”
(onde vivem alguns idealistas) e a realidade da vida.
A procura pelo pronto-socorro por casos crônicos é mais um
exemplo da (falta de) cultura atual. Ora, se o paciente precisa de um
médico, se este pode atendê-lo imediatamente na emergência
e solucionar rapidamente o seu problema e ainda fornecer um remédio
encontrado na Unidade Básica de Saúde (UBS), porque, então,
procurar a mesma UBS para agendar consulta, esperar meses por ela e sequer
saber se será atendido (o médico pode ter se demitido, estar
afastado, faltar no dia etc.)?
Como convencer o paciente que, no pronto-socorro, ele vai ser avaliado
“superficialmente” do ponto de vista da doença, dando
solução àquela “emergência” sem
muitas vezes aprofundar-se nas causas e, principalmente, na prevenção
de outros problemas? Exemplo típico e freqüente: dor nas costas.
Tempo médio dos sintomas relatado pelos pacientes: meses. Os ortopedistas
plantonistas estão acostumados a atender inúmeros pacientes
com essa queixa.
Os pacientes trazem pilhas de receitas, mostrando o uso de inúmeros
antiinflamatórios sem qualquer preocupação quanto
aos seus efeitos colaterais, prescritos por diversos médicos, em
várias ocasiões, repetidos de forma de-sordenada. Não
sabem referir a causa da dor, não entendem porque não melhoram,
retornam em locais diferentes do inicial, apesar das inúmeras orientações
da equipe médica sobre o tipo de atendimento realizado ali e por
aí vai.
O que fazer? Deixá-lo sem tratamento naquele momento de dor é
antiético, além de desumano. Tirar-lhe a dor é a
certeza de que ele não vai procurar o ambulatório nem um
especialista para investigar a causa da sua enfermidade.
E aí retornamos na idéia inicial: o que estão ensinando
nas escolas? Onde está a cultura, que poderia criar uma população
orientada, capaz de entender e exigir os seus direitos, lutar por eles,
melhorar sua condição de saúde e, talvez, sua condição
sócio-econômica?
A saúde só reflete um pedacinho do nosso país. Seria
salutar se tudo fosse diferente e que os nossos dirigentes começassem
a pensar nas escolas com o carinho que a população merece.
Aí, sim, poderíamos acreditar num futuro melhor, não
mais para nós, mas talvez para os nossos filhos ou netos, porque
esse não é um processo rápido e nem elegerá
ninguém nos próximos quatro anos.
Contato:
www.ombro.me.br
topo
|