Fevereiro/Março/Abril
de 2007
NÚMERO 52
ANO 5

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ENTREVISTA
 
Roberto Carvalho Cardoso

Administrador em ascensão

Um Hospital é uma empresa tão complexa que são necessários vários
administradores para gerir seus diversos departamentos



A profissão de administrador está em alta. Segundo dados do Conselho Federal de Administração (CFA), trata-se da profissional regulamentada que mais cresce no país. Cerca de 2.000 faculdades no país oferecem o curso para 600 mil alunos, número maior do que todos os outros estudantes da área de saúde somados, por exemplo. No Brasil já há 250 mil profissionais cadastrados nos Conselhos Regionais de Administração. Em 12 de janeiro, numa disputa acirrada, o paulistano Roberto Carvalho Cardoso assumiu o CFA, depois de presidir a regional de São Paulo por 38 anos. Aos 66 anos, empresário e professor de Finanças pela Escola de Administração de Empresas do Estado de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV), presidente do Fundo de Bolsas da FGV, presidente do Sindicato dos Administradores do Estado de São Paulo e membro do Conselho Nacional de Gestão em Saúde da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares (FBAH), Cardoso quer nos próximos dois anos fortalecer ainda mais a atividade. “O administrador possui condições, como conhecimentos, competências e habilidades, para a gestão adequada das empresas públicas e privadas”.
Nesta entrevista exclusiva, ele analisa como está a profissão atualmente no Brasil e de como ela pode ajudar o país a avançar e se desenvolver. Ele não condena as nomeações políticas em detrimento dos especialistas em administração, mas ressalva que, ao menos, é necessário uma mescla. “O certo seria ter uma simbiose entre o técnico e o político. Para uma boa gestão, abominável é levar em conta somente o aspecto político”. Na área da saúde, as perspectivas para a profissão também são otimistas, segundo o presidente do CFA. “O que se verifica é que os hospitais estão se conscientizando da necessidade de se ter um administrador para a área de gestão”.

Notícias Hospitalares - Será que não falta ao Brasil, além de soluções políticas, também bons administradores públicos?

Roberto Carvalho Cardoso - Sem dúvida nenhuma. O que está faltando neste país é gestão em todos os níveis, fe-deral, estadual e municipal. Os recursos são escassos mesmos nos países desenvolvidos e é função do administrador maximizar esses recursos para que se obtenham maiores e me-lhores resultados para a população.

NH - Por que a impressão que se tem é que os problemas do país se repetem por décadas e nunca são resolvidos? Estamos empacados por falta de admi-nistradores competentes?
Roberto Carvalho Cardoso - O que eu acho é que falta vontade política para que se tenha uma melhor gestão da administração pública. Não existe, embora tenha havido diversas ações no sentido de se criar, a carreira de Administrador Pú-blico, ocupada por profissio-nais qualificados em Adminis-tração e selecionados por meio de concurso público.

NH - Há políticos que pregam um “choque de gestão”. Isso é apenas retórica de campanha ou uma solução eficaz para o país?
Roberto Carvalho Cardoso - Uma boa administração não funciona por espasmos, na qual cada governo faz seu trabalho e depois não há continuidade. Pa-ra se ter resultados há necessidade de se ter um processo contínuo e sistemático de gestão.

NH - Muitas dos ministérios são ocupados por indicações políticas que, quase sempre, pouco tem a ver com o perfil do cargo. O que o sr. acha desse procedimento?

Roberto Carvalho Cardoso - É importante considerar que o as-pecto político, no bom sentido, tem que ser levado em conside-ração. Porque de nada adiantaria se ter o melhor técnico, sem habi-lidade política. Ele não conseguiria implantar políticas públicas necessárias. É lógico que é importante o conhecimento técnico. Então o certo seria ter uma simbiose entre o técnico e o político. Para uma boa gestão, abomi-nável é levar em conta so-mente o aspecto político.

NH - Os cursos de administração estão sendo muito procurados, tanto os de gra-duação, quanto os de pós. Além da quantidade, estamos formando bons administra-dores?

Roberto Carvalho Cardoso - Realmente, ultimamente tem se verificado que a Adminis-tração é a profissão mais procurada pelos jovens para fazer sua graduação. Isso se deve a grande empregabili-dade, pois se trata de uma profissão que apresenta inú-meros campos de atuação. O que se verifica hoje é que o profissional será um eterno estudante, porque a geração do conhecimento é tão grande em todas as áreas que é necessária uma contínua atua-lização. No Brasil, especificamente, temos excelentes escolas que formam administra-dores de nível internacional.

NH - Como está o mercado de trabalho para os adminis-tradores?

Roberto Carvalho Cardoso - Uma pesquisa nacional, enco-mendada pelo Conselho Fede-ral de Administração à Funda-ção Instituto de Administração da Universidade de São Paulo, sobre o perfil, formação, atua-ção e oportunidades de traba-lho do administrador, comparou a empregabilidade des-se profissional. Em 2006, um total de 68% dos administra-dores registrados declararam possuir carteira profissional assinada, enquanto apenas 6% estavam desempregados. O administrador está concentrado no setor terciário e esse é o setor que melhor remunera. Os países desenvolvidos focam suas ações nesse setor.

“O que eu acho
é que falta
vontade política para que se tenha uma
melhor gestão da administração pública”

NH - E na área hospitalar e de saúde em geral, há mercado para quem está se formando?

Roberto Carvalho Cardoso - Ao meu ver sim, há mercado. Mas, cabe aqui uma observa-ção. O formado, portador apenas do diploma, em uma pri-meira tentativa, não conse-guirá colocação facilmente. Aliás, terá uma grande dificuldade. Enquanto o adminis-trador, com formação acadê-mica sólida e com qualidade, pode escolher onde quer trabalhar, pois há uma grande escassez de profissionais com boa formação.

NH - Muitos hospitais são administrados por médicos, pelos próprios donos ou até por pessoas da comunidade, nem sempre com formação de administrador. Qual sua opi-nião sobre isso?

Roberto Carvalho Cardoso - Isto ainda é uma realidade presente. Mas o que se tem notado é que esse quadro está mudando muito fortemente. Porque o que se verifica é que os hospitais estão se conscientizando da necessidade de se ter um administrador para a área de gestão. Minha expe-riência demonstra isso. Quando da criação do Proahsa, o Programa de Administração Hospitalar e Sistemas de Saú-de, que era um projeto do Hospital das Clínicas de São Paulo, Fundação Kellog’s e da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, pregava-se, naquela época, que um hospital necessariamente não deve ser administrado por médico. Um hospital é uma empresa tão complexa que são necessários vários administradores para gerir os diversos departamentos da área-meio.

NH - O sr. acabou de ser eleito para o CFA. Quais são os seus planos à frente da entidade?

Roberto Carvalho Cardoso - Nosso plano-macro é o forta-lecimento da atividade profissional do administrador. Enten-demos que o administrador possui condições, como co-nhecimentos, competências e habilidades, para a gestão adequada das empresas públicas e privadas.

“Em 2006, um total de 68% dos administradores
tinham carteira profissional
assinada e apenas 6% estavam desempregados”

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