|
|
Santas
Casas
No início de maio, parte das Santas Casas do Estado de São Paulo ganharam um fôlego extra para resolver os graves problemas que acometem essas instituições, seja por desafagem da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), seja por deficiências admi-nistrativas. Durante o encerramento do 16º Congresso de Presidentes, Provedores, Diretores e Administradores de Santas Casas do Estado de São Paulo, realizado de 9 a 11 de maio, em Campinas, a Secretaria de Saúde divulgou um pacote de auxílio aos hospitais beneficentes paulistas, denominado de Pró-Santa Casa. O orçamento total, divulgado pelo governo paulista, é respeitável, cerca de R$ 250 milhões, ainda que só che-gue à metade da dívida desses hospitais.
O
total a ser repassado foi dividido em dois programas. O primeiro desses
repasses, de R$ 32 milhões (parte dos R$ 250 milhões), foi
lançado no começo do ano pelo governador José Serra,
que promete enviar repasse mensal fixo para hospitais que sofrem com o
déficit da tabela de procedimentos do SUS. Segundo a Secretaria
de Saúde, 43 unidades vão receber essa verba em nove parcelas,
até o fim do ano. O segundo repasse, considerado uma verba adicional,
no valor de R$ 16 milhões, será pago até agosto e
beneficiará centenas de hospitais em todas as regiões paulistas.
"É uma medida temporária, emergencial, até que
se estabeleçam canais de financiamento estáveis", observou
Renílson Souza. O secretário adjunto ainda reconheceu que
a crise financeira das entidades é séria e que esses recursos
"não vão solucionar os problemas do setor". Para
isso, anunciou seu comprometimento para "empreender um trabalho político"
em busca da regulamentação da Emenda Constitucional nº
29 e da “efetiva” correção da tabela do SUS.
Em
seu discurso de encerramento, o presidente da Fehosp, José Reinaldo
Nogueira de Oliveira Júnior, acenou na mesma direção.
"Louvamos a iniciativa dessa verba complementar, mas precisamos ter
consciência, e deixarmos claro, de que se trata de uma medida insuficiente
para acabar com todos os problemas". Com
o tema “Saúde 2007: para onde ir e como chegar?”, o
congresso das Santas Casas paulistas reuniu, este ano, cerca de 400 representantes
de hospitais de São Paulo e também de outros estados, além
de autoridades e especialistas em saúde. O principal foco dos debates,
como não podia deixar de ser, foi a procura por soluções
para a crise que afeta o setor. Dados da Confederação das
Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas
apontam que o setor acumula R$1,8 bi em dívidas com fornecedores.
O débito das entidades beneficentes paulistas é estimado
em R$ 500 mi, ou seja, quase um terço do montante nacional. As
Santas Casas que ficaram de fora do programa do governo paulista, por
não atender o piso mínimo de 30 leitos destinados ao SUS,
vão ter que continuar buscando soluções criativas
para equilibrar seus orçamentos. Um exemplo é a Santa Casa
de Cardoso, cidade de 11 mil habitantes, a 400 km da capital. Há
oito anos como gestor da Santa Casa Leonor Mendes de Barros, o administrador
hospitalar Antônio Carlos Romano se queixou, segundo ele, de o programa
do governo paulista ser injusto para com as Santas Casas que ficaram de
fora. O hospital tem 34 leitos, sendo 18 para o SUS, mas mantém
um Instituto de Olhos que atende 52 municípios da região,
com 95% do atendimento feito pelo sistema público. “Não
recebemos nenhuma ajuda do governo, mas graças ao Instituto de
Olhos estamos com as contas em dia, sem dívidas com fornecedores
ou funcionários”, explicou Romano. A Santa Casa também
recebe importante ajuda de empresas como o Grupo Votorantim e até
de um programa mantido pelo Consulado do Japão. O
presidente da Santa Casa de Palmital, com 22 mil habitantes, também
no interior de São Paulo, Edson Rogatti, tem opinião parecida.
“O programa é excelente. Mas, foram poucas os hospitais que
conseguiram se enquadrar. Somente aqueles que estão com Gestão
Plena Estadual. E os que estão em Gestão Plena Municipal,
e que fazem a mesma coisa, como é que ficam?”, pergunta.
Para Rogatti, a solução é estender o programa a todas
as Santas Casas que atendam mais de 80% pelo SUS. Para
Rogatti, é imperioso regulamentar a EC 29. “A área
econômica do Governo Federal vem se posicionando sistematicamente
contra a medida, inclusive retirando verbas da saúde e destinando
a outros programas do governo, como na área social”. Para
ele, além disso, é prioritário que as Santas Casa
tenham uma administração profissional, com pessoas qualificadas,
competentes e treinadas. Ele destaca, nesse aspecto, o programa da Fehosp,
em parceria com a Secretária de Saúde, os cursos de capacitação
profissional realizado com cerca de quatro mil funcionários de
Santas Casas em todo o Estado.
O
ministro José Gomes Temporão parece seguir no mesmo caminho.
Para ele, a questão da saúde pública não pode
ser avaliada apenas a partir do valor investido. Para Temporão,
a qualificação permanente da gestão é vital.
"Como maior sistema público de saúde, o SUS tem que
ser gerido e cuidado como um bem caro aos brasileiros, termo empregado
não no sentido monetário”. Ele adiantou que um programa
de qualificação permanente dos profissionais do SUS está
em fase de elaboração.
Em
agosto, o 17º Congresso Nacional das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos,
a ser realizado no Hotel Nacional, em Brasília, vai se concentrar
nesses temas e na busca de soluções, como bem antecipam
os temas divulgados pela Confederação das Santas Casas (CMB).
Entre esses temas estão a busca de fontes alternativas de renda,
a experiências das Organizações Sociais na gestão
dos hospitais e modelos alternativos bem-sucedidos de gestão. Soluções
existem muitas. Boa vontade governamental, capacitação administrativa
e criatividade são bons caminhos para as Santas Casas recuperarem,
pelo menos em parte, seu importante papel perante a sociedade.
|