Maio/Junho/Julho
de 2007
NÚMERO 53
ANO 5

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CRÔNICAS
 
Sixto Carlo Bombardelli
Médico e escritor

 

Vai dar para rir hoje?

Sou formado em Medicína e não em artes circenses, mas o sinal daquela
senhora era claro: de problemas a vida está lotada


Ando de comunidade em comunidade da zona rural como atividade de minha atividade como Médico de Família. Durante uma tarde, reunido na Escolinha com a comunidade local, antes de começar o grupo de Saúde (metodologia usada em Três de Maio, no Rio Grande do Sul, para educação em saúde), uma senhora me cumprimentou com a pergunta: “E aí, vai dar para rir hoje?”

Ela explicou que gostava de vir nas oficinas/reuniões para se divertir e queria que fosse possível rir naquela tarde como havia rido na última vez. Detalhe: fui proposto naquele dia a conversa sobre prevenção de câncer. Tudo estava preparado, com dados, dicas, protocolos de exame para sugerir...

Desnecessário dizer, mas sou formado em medicina e não em artes circenses. No entanto, o sinal que ela me dava era nítido: de problemas a vida está lotada, falar sério apenas não basta, precisamos de descontração. Já havia percebido isso em outras oportunidades. Em palestras, não basta transmitir um conhecimento, é preciso fazer sua conexão com o comportamento das pessoas para que elas gostem de ouvir. Um laço com a cultura e costumes populares.

Rindo parece que a gente entende melhor as coisas? Pode ser. Foi uma grande dificuldade falar sobre câncer (tema para lá de sério) no mesmo tempo que tentava deixar aparecer sentimentos das pessoas ali presentes, ou seja, do sujeito coletivo. Por exemplo, quando falava do câncer de próstata, precisava brincar com a sexualidade masculina e seus tabus. Inúmeras vezes até me envergonho com as saídas que escolho para tornar um assunto atraente aos olhos e ouvidos dos presentes. Assim, parece que há uma maior entrega pessoal de quem escuta, uma maior disponibilidade em incluir-se. Viver é aprender com os outros, ainda bem.


Freqüentemente os pacientes recordam frases divertidas que ouviram de médicos em consultas, em uma evidente manifestação do quanto isto estreita o vínculo entre profissional e usuário do atendimento. Pode ser uma brincadeira com uma receita, ou com um familiar ou sobre um acontecimento recente. Ajuda a descontrair e quebrar a natural formalidade. Como a história que uma paciente contou que aconteceu com ela há muitos anos. Após receber de seu médico a proibição de que não poderia comer mais nata por estar com colesterol muito alto, disse: “mas, doutor, lá em casa tem nata sobrando, a gente tem vaca de leite e faz nata”. Seu médico, após segundos pensando, responde: “Então pode doar pra mim que eu não tenho problema com colesterol”. Brincadeiras que falam verdades. Verdades que ficam para toda vida.


Contato: sixtocarlos@terra.com.br


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