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Médico e escritor
Vai
dar para rir hoje?
Sou
formado em Medicína e não em artes circenses, mas o sinal
daquela
senhora era claro: de problemas a vida está lotada

Ando
de comunidade em comunidade da zona rural como atividade de minha atividade
como Médico de Família. Durante uma tarde, reunido na Escolinha
com a comunidade local, antes de começar o grupo de Saúde
(metodologia usada em Três de Maio, no Rio Grande do Sul, para educação
em saúde), uma senhora me cumprimentou com a pergunta: “E
aí, vai dar para rir hoje?”
Ela explicou que gostava de vir nas oficinas/reuniões para se divertir
e queria que fosse possível rir naquela tarde como havia rido na
última vez. Detalhe: fui proposto naquele dia a conversa sobre
prevenção de câncer. Tudo estava preparado, com dados,
dicas, protocolos de exame para sugerir...
Desnecessário dizer, mas sou formado em medicina e não em
artes circenses. No entanto, o sinal que ela me dava era nítido:
de problemas a vida está lotada, falar sério apenas não
basta, precisamos de descontração. Já havia percebido
isso em outras oportunidades. Em palestras, não basta transmitir
um conhecimento, é preciso fazer sua conexão com o comportamento
das pessoas para que elas gostem de ouvir. Um laço com a cultura
e costumes populares.
Rindo parece que a gente entende melhor as coisas? Pode ser. Foi uma grande
dificuldade falar sobre câncer (tema para lá de sério)
no mesmo tempo que tentava deixar aparecer sentimentos das pessoas ali
presentes, ou seja, do sujeito coletivo. Por exemplo, quando falava do
câncer de próstata, precisava brincar com a sexualidade masculina
e seus tabus. Inúmeras vezes até me envergonho com as saídas
que escolho para tornar um assunto atraente aos olhos e ouvidos dos presentes.
Assim, parece que há uma maior entrega pessoal de quem escuta,
uma maior disponibilidade em incluir-se. Viver é aprender com os
outros, ainda bem.
Freqüentemente os pacientes recordam frases divertidas que ouviram
de médicos em consultas, em uma evidente manifestação
do quanto isto estreita o vínculo entre profissional e usuário
do atendimento. Pode ser uma brincadeira com uma receita, ou com um familiar
ou sobre um acontecimento recente. Ajuda a descontrair e quebrar a natural
formalidade. Como a história que uma paciente contou que aconteceu
com ela há muitos anos. Após receber de seu médico
a proibição de que não poderia comer mais nata por
estar com colesterol muito alto, disse: “mas, doutor, lá
em casa tem nata sobrando, a gente tem vaca de leite e faz nata”.
Seu médico, após segundos pensando, responde: “Então
pode doar pra mim que eu não tenho problema com colesterol”.
Brincadeiras que falam verdades. Verdades que ficam para toda vida.
Contato: sixtocarlos@terra.com.br
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