Maio/Junho/Julho
de 2007
NÚMERO 53
ANO 5

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ENTREVISTA
 
Marcial Carlos Ribeiro Júnior

Ao sul da crise

 



Segundo dados da Associação Paranaense de Instituições Hospitalares (APIH), mais de 100 hospitais do estado encerraram as atividades desde 1997. Boa parte, motivada pelo baixo pagamento proveniente do Sistema Único de Saúde (SUS) e dificuldades na administração dessas instituições. Esse foi um dos temas discutidos pelo 2º Fórum Paranaense de Gestão Hospitalar, que ocorreu em abril, em Curitiba (PR). Havia pesos-pesados do setor no evento, como Luiz Nelson Porto Araújo, diretor da Trevisan Consultores; Genésio Körbes, diretor do Hospital Bandeirantes de São Paulo; e Adriano Matheus Londres, vice presidente da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp).
Para o presidente da APIH e organizador do fórum, o médico Marcial Carlos Ribeiro Júnior, 43 anos, o encontro foi necessário para discutir os principais temas sobre organização financeira,
tecnologia e modernização dos hospitais. No cargo desde janeiro do ano passado, ele comenta nesta entrevista os resultados do fórum e destaca quatro objetivos principais para as instituições que
desejam ser bem-sucedidas: controle de custos, estratégia de mercado, qualificação de
processos e representatividade política.

Notícias Hospitalares – Quais os principais temas discutidos duran-te 2º Fórum Paranaense de Gestão Hospitalar?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – Os temas giraram em torno de questões econômicas, de tecnologia, modernização e especialização dos hospitais. Podem-se des-tacar os debates sobre a conjuntura econômica e as perspectivas para o setor da saúde, gestão hospitalar, custos hospitalares, hotelaria hospitalar, tecnologia da informação na saúde, comissões farmacoterapêuticas e modernização e especialização das instituições. A intenção foi levar aos gestores hospitalares temas atuais e que são relevantes ao setor. O fórum pode ser considerado o principal evento de gestão hospitalar do sul do país.

NH – Como foi a participação, em quantidade e representatividade?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – O fórum felizmente contou com re-presentantes dos principais hospitais paranaenses, além de catarinenses e outros estados, além de dirigentes de diversas instituições de grande porte. O mais importante foi a boa participação de proprie-tários, diretores e gerentes dessas instituições, já que são eles que decidem o rumo de seus hospitais. Ou seja, são multiplicadores.

NH – De acordo com a APIH, nos últimos dez anos, mais de cem hospitais paranaenses encerraram as atividades. Quais as razões disso?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – O principal motivo é financeiro, pois como a maioria desses hospitais dependia do SUS, e a tabela está sem a devida correção há pelo menos oito anos, não há possibilidade de manutenção dos serviços de atenção aos pacientes. Os preços da Folha de Pagamento, dos medicamentos e demais insumos, aumentam todos os anos. Alguns mais de uma vez por ano. Os baixos valores de remuneração, assim como a própria dificuldade dos gestores em determinar os custos reais de instituições que são altamente complexas, fazem com que haja uma tendência muito grande à contínua gestão de crises, principalmente de ordem financeira. Esses fatores tendem a inviabilizar os investimentos ne-cessários para que se possam estabelecer processos de qualificação e eficiência.

NH – Qual a opinião do sr. sobre a gestão de entidades privadas em hospitais públicos?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – Ao meu ver, é uma das saídas para profissionalizar a gestão pública, ao trazer a experiência e o co-nhecimento a essas instituições por meio de uma abordagem mo-derna de administração hospitalar.

NH – Em geral, como está a saúde financeira dos hospitais privados brasileiros?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – É comum falar que os hospitais pú-blicos têm dificuldades, mas mes-mo os privados também com aten-dimento apenas a pacientes oriundos de operadoras de planos de saúde e particulares estão em situação de risco. É possível destacar como alguns dos motiva-dores dessa situação a necessidade de utilizar novas – e caras – tecnologias, investimentos primordiais no corpo clínico e funcional, além de se adequar às exigências dos órgãos de fiscalização, co-mo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ANS (Associação Nacional de Saúde Comple-mentar), entre outros. A atenção para os custos e processos de serviços deve ser diária para evitar prejuízos.

NH – Quais são os principais objetivos a serem traçados para os hospitais melhorarem sua saúde financeira?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – É uma missão difícil e dependente de uma séria de fatores, mas é possível destacar quatro itens principais: controle de custos, es-tratégia de mercado, qualificação de processos e representatividade política.

NH – A classe hospitalar, no que diz respeito ao âmbito dos ges-tores, é unida?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – A união dos gestores hospitalares e hospitais é um grande paradigma a ser quebrado. Aos poucos, com algumas ações conjuntas, têm le-vado a bons resultados em determinadas situações. A Anahp é um ótimo exemplo de união bem-sucedida. A troca de informações e experiências é a melhor maneira de se conseguir aglutinar os hospitais na busca por respostas aos problemas do setor. Foi com esse objetivo que criamos o fórum de Gestão Hospitalar.

NH – Qual a importância de um gestor de hospital ser formado em administração hospitalar?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – Certamente é recomendável dispor de um profissional com formação acadêmica, mas há várias situações em que profissionais com outras formações, como Administração de Empresas e Engenharia, e que tenham grande experiência no mercado e tenham trabalhado em corporações de outros setores, como serviços e indústria, têm colaborado muito com o amadurecimento da gestão hospitalar e conseqüentemente com o setor de saúde. A gestão hospitalar é necessariamente multiprofissional.

NH – Qual o papel das operadoras de planos de saúde para melhorar o sistema de saúde brasileiro?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – As operadoras de planos de saúde, no modelo predominante de pré-pagamento, com fins lucrativos, dificilmente poderão se tornar efetivas parceiras dos hospitais. Apesar de viver uma enorme crise, e sem a menor possibilidade de vir a atender as particularidades da sociedade brasileira, mesmo em longo prazo, o modo norte-americano persiste, sendo o modelo para a grande maioria dos to-madores de decisão atuantes no sistema de saúde brasileiro. Mas, não resta dúvida de que a transformação da triste situação atual, de hospitais que se comportam como simples vendedores de materiais e medicamentos para uma nova lógica, baseada na qua-lidade e na eficiência dos serviços prestados, é que poderá representar uma verdadeira luz no fim do túnel. Mas, para que isto aconteça haverá a necessidade de um verdadeiro pacto, que deve envolver inclusive os órgãos representativos dos usuários e a própria ANS. Esse cenário ainda está bastante distante da nossa realidade atual.

NH – Um dos temas do encontro foi “Uso Controlado de Medica-mentos”. Em linhas gerais, quais são as atitudes que hospitais de-vem tomar para usar os medicamentos de forma racional e quais as vantagens em alcançar essa meta?
Marcial Carlos Ribeiro Júnior – Para a racionalização na utilização de medicamentos é de suma importância a participação do Ser-viço de Controle da Infecção Hospitalar, por meio de comissão formada por representantes da Farmácia, enfermagem, corpo clínico, nutrição e outros setores. O objetivo deve ser definir, após consultas e levantamentos das pa-tologias e pacientes atendidos no hospital, qual o rol de medicamentos a serem protocolados e tornados disponíveis para a prescrição médica, reduzindo a utilização de grande variedade para a mesma finalidade, que pode comprometer a eficácia do tratamento.

NH – O Brasil possui um novo ministro da saúde, José Gomes Temporão. Qual sua expectativa para a pasta nos próximos anos?

Marcial Carlos Ribeiro Júnior – A expectativa não é animadora. Basta verificar a redução do orçamento da Saúde, a inclusão de recursos em projetos como o Bolsa Família e outros, que diminuem investimentos diretamente na Saúde. Mas, certamente esses pro-blemas não são relacionados especificamente com o novo mi-nistro, mas com as políticas de governo, que, infelizmente, há muito tempo é caracterizada pelo absoluto menosprezo ao setor de saúde. Proliferam as atitudes de-magógicas e o desrespeito às determinações constitucionais. De outro lado, precisamos reconhecer que enquanto todos os atores do sistema, como hospitais, médicos, sociedade civil e operadoras, insis-tirem em tentar resolver seus problemas de forma individualista e oportunista, dificilmente serão criadas as forças de pressão sobre os poderes Executivo e Legislativo, capazes de propiciar o alcance das verdadeiras soluções para o setor de saúde brasileiro.

"As políticas de governo há muito tempo são
de menosprezo ao setor da saúde
e a sociedade tenta resolver
os problemas de forma individualista."


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