AGO/SET/OUT
de 2007
NÚMERO 54
ANO 5

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Artigo Especial
 
D. João Bosco Óliver de Faria
Acerbispo Metropolitano de
Diamantina (MG)

 

A dor e o sofrimento na vida do
Cristão: o magistério da Igreja

Se não posso dar a cura física, posso
dar a cura psicológica, a força interior, a coragem da fé

Toda limitação implica sofrimento: sofre a criança que vê limitado seu tempo de diversão ou de sono; sofre o que limitado o alimento que lhe é necessário; sofre quem sente a limitação do dinheiro; sofre quem vê limitada sua saúde.

Todo o criado, porque criado é limitado. O Criador encontra em cada sua criatura o prisma da limitação dessa mesma criatura. Quem vai fazer uma casa determina, antes, o seu tamanho, os seus limites. Deus, em sua criação, encontra em cada criatura os seus limites específicos e que a determinam.
Vemos, com facilidade o sofrimento dos animais. O homem, no entanto, sofre mais que qualquer animal, por ter consciência de seus limites e, por conseqüência, de seu sofrimento.

O tema do sofrimento é tratado finamente, por João Paulo II, em sua carta apostólica “Salvici Doloris”: que em português traz o nome: “O Sentido do Sofrimento Humano”. Logo no seu início, o Papa escreve que “o sofrimento é quase inseparável da existência terrena do homem”.[1] Em Gênesis 3,14 lemos: “À mulher, ele disse: multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos”.
O tema desta reflexão tem seu sentido, pois o ponto de provocação da eutanásia é o medo do sofrimento, é o não ter feito paz com a dor. É o resultado de uma sociedade consumista, hedonista e utilitarista. Tudo aquilo que não trouxer prazer total e sem conseqüências à pessoa humana, tudo aquilo que não trouxer lucros ou vantagens ao homem deve ser evitado. Nasce em nossa época um novo direito: o direito ao prazer total, sem conseqüências.

A proposta de uma atitude cristã diante do mistério da dor e da morte só será entendida e acolhida por quem perceber toda a riqueza espiritual embutida no mistério do sofrimento humano.

Nunca se pode perceber o quanto uma pessoa sofre, física e espiritualmente, sobretudo na fase terminal de vida. Toda dor traz solidão e o sofrimento humano além de físico, ele é também psíquico e espiritual. Se eu não tenho uma experiência pessoal da doença e da morte, naturalmente não conseguirei perceber todo o alcance do sofrimento de quem se encontra em tais condições.

A resposta à necessidade de um doente nasce de um comum “ser na vida”.

Ensina o Papa, em sua carta, que o sofrimento é algo mais amplo e mais complexo que a doença. A etimologia desta palavra é: “sub-fero”: estar sob um peso, suportar. O cristianismo mostra que o existir é essencialmente um bem. O homem sofre por causa do mal que é uma certa falta, limitação ou distorção de um bem. O homem sofre por causa de um bem do qual não participa.[2]
O sentido do sofrimento - O homem sabe que sofre e se pergunta porquê. Vê ao seu redor pessoas que sofrem sem culpa e vê pessoas culpadas sem a pena correspondente. Desde o início de minha vida sacerdotal senti estar nesse tema um dos mais sérios obstáculos, para muitos, na caminhada de fé. O sofrimento do justo e o bem-estar do injusto são questões angustiantes para o homem.
Começamos a perceber o nexo da questão ao entendermos que vale a pena sacrificar um bem menor para se ter um bem maior. Renuncia-se, sem muita dificuldade, a uma lauta refeição em benefício do próprio coração combalido. O atleta se impõe regimes de vida, exercícios e controle alimentar para atingir um equilíbrio físico almejado. Vê-se que há sofrimento transitório para se livrar de um outro definitivo.

Prazer e felicidade - Jesus vem ao mundo para livrar o homem do sofrimento definitivo. Um irmão Bispo costuma comparar o mundo em que vivemos a um pequeno e pobre hospital de nossas cidades do interior. Ali, com exceção da maternidade, tudo é sofrimento. Sofrem os doentes e sofrem os que acompanham os doentes. A mãe, que goza de saúde, e fica no hospital ao lado de seu filho doente, ela o faz por solidariedade ao filho, desejando que ele recupere sua saúde. Ela não precisa ficar no hospital, pois está com saúde. O hospital é pobre, há calor, é mal ventilado, é apertado. Há o cheiro dos remédios. Há os gemidos dos que sofrem. E ela sofre ao ver seu filho sofrer. Mas ela sofre em solidariedade ao filho na esperança de que ele se recupere e volte para casa.
O mundo é um grande hospital. Nele sofre quem está doente pelo pecado e quem tem a saúde de Deus, a salvação de Deus, quem está na graça e não sofre a grande e maior privação: a da vida de Deus, da saúde de Deus, da graça de Deus. Esta privação é mais dolorosa que aquelas de que falávamos no início desta exposição: a privação do lazer, do alimento, do dinheiro, e da saúde física e psíquica.

Jesus Cristo ao entrar neste mundo, neste grande hospital com tantos doentes pelo pecado, sofre com o ambiente do pecado. Sofre sem ser doente. Sofre sem ser pecador. Sofre os sofrimentos transitórios para dar ao homem, à humanidade, a saúde definitiva, a saúde de Deus, a salvação de Deus. Jesus sofre os sofrimentos transitórios, em solidariedade ao homem que corre o risco de se acabar num sofrimento definitivo.


Cristo com sua morte não suprime os sofrimentos temporais, mas traz luz nova e esperança ao homem. Ele se coloca próximo do sofrimento humano e proclama as oito bem-aventuranças.

“Pois nossas tribulações de um momento são leves com relação ao peso extraordinário de glória eterna que elas nos preparam. O nosso objetivo não é o que se vê, mas o que não se vê; o que se vê é provisório, mas o que não se vê é eterno”.[3]

O pecado do homem é a causa do sofrimento do Redentor. Cristo sofre voluntariamente e inocentemente. Ensina-nos João Paulo II, que na cruz de Cristo, não só se realizou a redenção, mas o próprio sofrimento foi redimido e eleva o sofrimento humano ao nível da redenção. Toda pessoa que assume em sua vida o sofrimento redentor de Cristo, ela se coloca como justo que sofre em solidariedade ao irmão que está na doença do pecado.

Ao perceber e aceitar a dimensão transitória e fugaz do sofrimento, o próprio sofrimento passa a se constituir um chamamento a manifestar a grandeza moral do homem, bem como a sua maturidade espiritual.[4]

Continua o Papa dizendo que aqueles que participam do sofrimento de Cristo têm diante dos olhos o mistério pascal da cruz e da Ressurreição. “As fraquezas de todos os sofrimentos humanos podem ser penetradas pela mesma potência de Deus, manifestada na Cruz de Cristo. Nesta concepção, sofrer significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à ação das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à humanidade”.[5]

Permitam-me transcrever mais umas linhas preciosas do Santo Padre:

“No decorrer dos séculos e das gerações, tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força particular que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma graça particular. A esta fica-ram a dever sua conversão muitos santos. ... O fruto de semelhante conversão é não apenas o fato de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo que no sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. ... O homem percebe a sua resposta salvífica à medida que se vai tornando ele próprio participante dos sofrimentos de Cristo. ... Cristo não explica abstratamente as razões do sofrimento; mas, antes de mais nada, diz: “Segue-me!” Vem! Participa com o teu sofrimento desta obra da salvação do mundo, que se realiza por meio do meu próprio sofrimento!. Por meio da minha cruz. À medida que o homem toma a sua cruz, unindo-se espiritualmente à Cruz de Cristo, vai-se-lhe manifestando mais o sentido salvífico do sofrimento”.[6]
Outra perspectiva que ilumina a compreensão do sofrimento é que ele está a desencadear no coração do homem o amor e a sensibilidade para com o irmão que sofre. O homem só se realiza pelo dom de si mesmo. Entrem numa casa onde há uma criança excepcional e notarão que as pessoas são mais humanas e que se tratam com mais carinho e respeito. Entrem noutra casa onde não se vê o sofrimento físico ou psíquico e se perceberá que as pessoas criam ao redor de si um outro tipo de sofrimento pela falta do amor cristão e do respeito mútuo. Por tudo aquilo que fizermos de bem ao irmão sofredor, teremos a doce resposta de Cristo que nos diz: “A mim o fizestes”.

Algumas pistas concretas - O que dizer a uma pessoa que sofre, a uma pessoa doente? É bom lembrar que o paciente que não fala é porque não se sente compreendido. Às vezes é melhor estar junto do doente e fazer silêncio. Quem prepara um discurso para o doente satisfaz a si próprio.

O doente quer falar, expressar seus medos, suas esperanças. Quando se fala ao doente das esperanças, ele dormirá bem.

Escutar não é fácil. Saber perceber não só as palavras, mas é importante entender os sentimentos, os pensamentos, os estados de ânimo.

Muitos dizem: “Comigo foi muito pior”. Fazem de si o centro da conversa.

No acompanhamento de um doente, em processo de morte, é melhor escutar o moribundo, aceitar suas reações (mecanismo de defesa). É bom tranqüilizar o paciente – evitando palavras inúteis - aceitá-lo sem julgamento, sem confrontá-lo com alguém. É importante permanecer disponível e deixá-lo afrontar o tema da morte, bem como ajudá-lo a afrontar progressivamente a realidade.

Não deixá-lo só em circunstâncias de depressão. É melhor escutá-lo, sustentá-lo, respeitar seu choro, seus silêncios. É bom ajudá-lo na retrospectiva de sua vida, mostrar-lhe que é uma pessoa importante.

Toda pessoa tem uma ferida. Toda pessoa tem a capacidade interior de curar sua ferida. Se nos aproximarmos da ferida, podemos chorar juntos. Se nos aproximarmos da pessoa, a ajudamos a se curar.

Há limites na relatividade da ajuda humana. Há dificuldade na relação interpessoal. Há uma dificuldade maior num colóquio entre uma pessoa sã e uma doente. Se não posso dar a cura física, posso dar a cura psicológica, a força interior, a co-ragem da fé. A cura acontece quando o paciente entende o sentido de seu sofrimento e o vive usando todas as suas capacidades e energias.

A fé cristã nos ensina que nossos sofrimentos não são castigo de nossos pecados pessoais. Os santos também sofreram. Lembremo-nos de Santa Rita, São Lázaro, Nossa Senhora das Dores e outros. É muito importante dizer, ao doente ou a quem sofre, que Deus nunca permite a alguém um sofrimento superior à sua força. Isso seria contra a bondade divina.

Não é Deus que nos manda o sofrimento. Ele permite o sofrimento. Jesus combateu o sofrimento e curou os doentes. Ele chorou à porta do túmulo de seu amigo Lázaro.

A paixão de Cristo continua na história de cada irmão que sofre.
A ressurreição de Cristo continua na história em cada lágrima que é enxugada, em cada dor aliviada, em cada sofrimento que é consolado.

O cristão carrega consigo a esperança e a força ressuscitadora do Cristo que vive para sempre, que com seus sofrimentos transitórios nos trouxe, com a saúde de Deus, a alegria e a vida sem fim.

[1] João Paulo II, Salvici Doloris, 3.
[2] O. C.: 7
[3] Cor 4,17-18
[4] O. C.: 22
[5] O. C.: 23
[6] O. C.: 26


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