Se não
posso dar a cura física, posso
dar a cura psicológica, a força interior, a coragem da
fé
Toda
limitação implica sofrimento: sofre a criança que
vê limitado seu tempo de diversão ou de sono; sofre o que
limitado o alimento que lhe é necessário; sofre quem sente
a limitação do dinheiro; sofre quem vê limitada
sua saúde.
Todo o criado, porque criado é limitado. O Criador encontra em
cada sua criatura o prisma da limitação dessa mesma criatura.
Quem vai fazer uma casa determina, antes, o seu tamanho, os seus limites.
Deus, em sua criação, encontra em cada criatura os seus
limites específicos e que a determinam.
Vemos, com facilidade o sofrimento dos animais. O homem, no entanto,
sofre mais que qualquer animal, por ter consciência de seus limites
e, por conseqüência, de seu sofrimento.
O tema do sofrimento é tratado finamente, por João Paulo
II, em sua carta apostólica “Salvici Doloris”: que
em português traz o nome: “O Sentido do Sofrimento Humano”.
Logo no seu início, o Papa escreve que “o sofrimento é
quase inseparável da existência terrena do homem”.[1]
Em Gênesis 3,14 lemos: “À mulher, ele disse: multiplicarei
as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos”.
O tema desta reflexão tem seu sentido, pois o ponto de provocação
da eutanásia é o medo do sofrimento, é o não
ter feito paz com a dor. É o resultado de uma sociedade consumista,
hedonista e utilitarista. Tudo aquilo que não trouxer prazer
total e sem conseqüências à pessoa humana, tudo aquilo
que não trouxer lucros ou vantagens ao homem deve ser evitado.
Nasce em nossa época um novo direito: o direito ao prazer total,
sem conseqüências.
A proposta de uma atitude cristã diante do mistério da
dor e da morte só será entendida e acolhida por quem perceber
toda a riqueza espiritual embutida no mistério do sofrimento
humano.
Nunca se pode perceber o quanto uma pessoa sofre, física e espiritualmente,
sobretudo na fase terminal de vida. Toda dor traz solidão e o
sofrimento humano além de físico, ele é também
psíquico e espiritual. Se eu não tenho uma experiência
pessoal da doença e da morte, naturalmente não conseguirei
perceber todo o alcance do sofrimento de quem se encontra em tais condições.
A resposta à necessidade de um doente nasce de um comum “ser
na vida”.
Ensina o Papa, em sua carta, que o sofrimento é algo mais amplo
e mais complexo que a doença. A etimologia desta palavra é:
“sub-fero”: estar sob um peso, suportar. O cristianismo
mostra que o existir é essencialmente um bem. O homem sofre por
causa do mal que é uma certa falta, limitação ou
distorção de um bem. O homem sofre por causa de um bem
do qual não participa.[2]
O sentido do sofrimento - O homem sabe que sofre e se pergunta porquê.
Vê ao seu redor pessoas que sofrem sem culpa e vê pessoas
culpadas sem a pena correspondente. Desde o início de minha vida
sacerdotal senti estar nesse tema um dos mais sérios obstáculos,
para muitos, na caminhada de fé. O sofrimento do justo e o bem-estar
do injusto são questões angustiantes para o homem.
Começamos a perceber o nexo da questão ao entendermos
que vale a pena sacrificar um bem menor para se ter um bem maior. Renuncia-se,
sem muita dificuldade, a uma lauta refeição em benefício
do próprio coração combalido. O atleta se impõe
regimes de vida, exercícios e controle alimentar para atingir
um equilíbrio físico almejado. Vê-se que há
sofrimento transitório para se livrar de um outro definitivo.
Prazer e felicidade - Jesus vem ao mundo para livrar o homem do sofrimento
definitivo. Um irmão Bispo costuma comparar o mundo em que vivemos
a um pequeno e pobre hospital de nossas cidades do interior. Ali, com
exceção da maternidade, tudo é sofrimento. Sofrem
os doentes e sofrem os que acompanham os doentes. A mãe, que
goza de saúde, e fica no hospital ao lado de seu filho doente,
ela o faz por solidariedade ao filho, desejando que ele recupere sua
saúde. Ela não precisa ficar no hospital, pois está
com saúde. O hospital é pobre, há calor, é
mal ventilado, é apertado. Há o cheiro dos remédios.
Há os gemidos dos que sofrem. E ela sofre ao ver seu filho sofrer.
Mas ela sofre em solidariedade ao filho na esperança de que ele
se recupere e volte para casa.
O mundo é um grande hospital. Nele sofre quem está doente
pelo pecado e quem tem a saúde de Deus, a salvação
de Deus, quem está na graça e não sofre a grande
e maior privação: a da vida de Deus, da saúde de
Deus, da graça de Deus. Esta privação é
mais dolorosa que aquelas de que falávamos no início desta
exposição: a privação do lazer, do alimento,
do dinheiro, e da saúde física e psíquica.
Jesus Cristo ao entrar neste mundo, neste grande hospital com tantos
doentes pelo pecado, sofre com o ambiente do pecado. Sofre sem ser doente.
Sofre sem ser pecador. Sofre os sofrimentos transitórios para
dar ao homem, à humanidade, a saúde definitiva, a saúde
de Deus, a salvação de Deus. Jesus sofre os sofrimentos
transitórios, em solidariedade ao homem que corre o risco de
se acabar num sofrimento definitivo.

Cristo com sua morte não suprime os sofrimentos temporais, mas
traz luz nova e esperança ao homem. Ele se coloca próximo
do sofrimento humano e proclama as oito bem-aventuranças.
“Pois nossas tribulações de um momento são
leves com relação ao peso extraordinário de glória
eterna que elas nos preparam. O nosso objetivo não é o
que se vê, mas o que não se vê; o que se vê
é provisório, mas o que não se vê é
eterno”.[3]
O pecado do homem é a causa do sofrimento do Redentor. Cristo
sofre voluntariamente e inocentemente. Ensina-nos João Paulo
II, que na cruz de Cristo, não só se realizou a redenção,
mas o próprio sofrimento foi redimido e eleva o sofrimento humano
ao nível da redenção. Toda pessoa que assume em
sua vida o sofrimento redentor de Cristo, ela se coloca como justo que
sofre em solidariedade ao irmão que está na doença
do pecado.
Ao perceber e aceitar a dimensão transitória e fugaz do
sofrimento, o próprio sofrimento passa a se constituir um chamamento
a manifestar a grandeza moral do homem, bem como a sua maturidade espiritual.[4]
Continua o Papa dizendo que aqueles que participam do sofrimento de
Cristo têm diante dos olhos o mistério pascal da cruz e
da Ressurreição. “As fraquezas de todos os sofrimentos
humanos podem ser penetradas pela mesma potência de Deus, manifestada
na Cruz de Cristo. Nesta concepção, sofrer significa tornar-se
particularmente receptivo, particularmente aberto à ação
das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à
humanidade”.[5]
Permitam-me transcrever mais umas linhas preciosas do Santo Padre:
“No decorrer dos séculos e das gerações,
tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força particular
que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma graça particular.
A esta fica-ram a dever sua conversão muitos santos. ... O fruto
de semelhante conversão é não apenas o fato de
que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo
que no sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. ... O homem
percebe a sua resposta salvífica à medida que se vai tornando
ele próprio participante dos sofrimentos de Cristo. ... Cristo
não explica abstratamente as razões do sofrimento; mas,
antes de mais nada, diz: “Segue-me!” Vem! Participa com
o teu sofrimento desta obra da salvação do mundo, que
se realiza por meio do meu próprio sofrimento!. Por meio da minha
cruz. À medida que o homem toma a sua cruz, unindo-se espiritualmente
à Cruz de Cristo, vai-se-lhe manifestando mais o sentido salvífico
do sofrimento”.[6]
Outra perspectiva que ilumina a compreensão do sofrimento é
que ele está a desencadear no coração do homem
o amor e a sensibilidade para com o irmão que sofre. O homem
só se realiza pelo dom de si mesmo. Entrem numa casa onde há
uma criança excepcional e notarão que as pessoas são
mais humanas e que se tratam com mais carinho e respeito. Entrem noutra
casa onde não se vê o sofrimento físico ou psíquico
e se perceberá que as pessoas criam ao redor de si um outro tipo
de sofrimento pela falta do amor cristão e do respeito mútuo.
Por tudo aquilo que fizermos de bem ao irmão sofredor, teremos
a doce resposta de Cristo que nos diz: “A mim o fizestes”.
Algumas pistas concretas - O que dizer a uma pessoa que sofre, a uma
pessoa doente? É bom lembrar que o paciente que não fala
é porque não se sente compreendido. Às vezes é
melhor estar junto do doente e fazer silêncio. Quem prepara um
discurso para o doente satisfaz a si próprio.
O doente quer falar, expressar seus medos, suas esperanças. Quando
se fala ao doente das esperanças, ele dormirá bem.
Escutar não é fácil. Saber perceber não
só as palavras, mas é importante entender os sentimentos,
os pensamentos, os estados de ânimo.
Muitos dizem: “Comigo foi muito pior”. Fazem de si o centro
da conversa.
No acompanhamento de um doente, em processo de morte, é melhor
escutar o moribundo, aceitar suas reações (mecanismo de
defesa). É bom tranqüilizar o paciente – evitando
palavras inúteis - aceitá-lo sem julgamento, sem confrontá-lo
com alguém. É importante permanecer disponível
e deixá-lo afrontar o tema da morte, bem como ajudá-lo
a afrontar progressivamente a realidade.
Não deixá-lo só em circunstâncias de depressão.
É melhor escutá-lo, sustentá-lo, respeitar seu
choro, seus silêncios. É bom ajudá-lo na retrospectiva
de sua vida, mostrar-lhe que é uma pessoa importante.
Toda pessoa tem uma ferida. Toda pessoa tem a capacidade interior de
curar sua ferida. Se nos aproximarmos da ferida, podemos chorar juntos.
Se nos aproximarmos da pessoa, a ajudamos a se curar.
Há limites na relatividade da ajuda humana. Há dificuldade
na relação interpessoal. Há uma dificuldade maior
num colóquio entre uma pessoa sã e uma doente. Se não
posso dar a cura física, posso dar a cura psicológica,
a força interior, a co-ragem da fé. A cura acontece quando
o paciente entende o sentido de seu sofrimento e o vive usando todas
as suas capacidades e energias.
A fé cristã nos ensina que nossos sofrimentos não
são castigo de nossos pecados pessoais. Os santos também
sofreram. Lembremo-nos de Santa Rita, São Lázaro, Nossa
Senhora das Dores e outros. É muito importante dizer, ao doente
ou a quem sofre, que Deus nunca permite a alguém um sofrimento
superior à sua força. Isso seria contra a bondade divina.
Não é Deus que nos manda o sofrimento. Ele permite o sofrimento.
Jesus combateu o sofrimento e curou os doentes. Ele chorou à
porta do túmulo de seu amigo Lázaro.
A paixão de Cristo continua na história de cada irmão
que sofre.
A ressurreição de Cristo continua na história em
cada lágrima que é enxugada, em cada dor aliviada, em
cada sofrimento que é consolado.
O cristão carrega consigo a esperança e a força
ressuscitadora do Cristo que vive para sempre, que com seus sofrimentos
transitórios nos trouxe, com a saúde de Deus, a alegria
e a vida sem fim.
[1]
João Paulo II, Salvici Doloris, 3.
[2] O. C.: 7
[3] Cor 4,17-18
[4] O. C.: 22
[5] O. C.: 23
[6] O. C.: 26
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