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As
fundações de saúde
Governo
e sociedade discutem um novo modelo de gestão
para os serviços de saúde do país
As graves deficiências da Saúde no país estão
trazendo pelo menos um benefício, ainda que não eliminem
os problemas existentes. Colocou as questões da gestão e
do financiamento dos serviços de assistência na linha de
frente de um debate amplo e geral. Ao lado da renovação
da CPMF e da regulamentação da Emenda Constitucional nº
29, surgiu a questão do Projeto de Lei das Fundações
Estatais de Direito Privado. O que são na verdade essas fundações?
Funcionam? São boas para os brasileiros? As opiniões sobre
se esse modelo ajuda ou não a melhorar a gestão da Saúde
pública brasileira são muito divergentes e algumas pecam
pelo excesso emocional nos argumentos. Mas, e esse pode ser o lado bom
do problema, pelo menos está se propondo um caminho. Ainda que,
como disse o filósofo alemão Friedrich Nietzche, sobre os
vários lados de uma questão, “você tem o seu
caminho, eu tenho o meu caminho. Quanto ao caminho exato, correto, o único
caminho, esse não existe”.
O Projeto de Lei Complementar nº 92 de 2007 foi encaminhado ao Congresso
Nacional pelo governo em julho passado. Atualmente, a proposta tramita
no Congresso Nacional e busca regulamentar a “fundação
estatal”, figura jurídica prevista na Constituição
de 1988. Com esse projeto, hospitais públicos, por exemplo, poderão
adotar um movo modelo de organização administrativa, entre
elas a contratação de profissionais pela Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) e não mais com a estabilidade de servidores
públicos. Para criar fundações em qualquer área,
o governo primeiro precisa conseguir no Congresso a aprovação
do projeto de lei complementar. Depois, terá que enviar projetos
de lei específicos, segundo informou o ministro do Planejamento,
Paulo Bernardo. O ministro disse ainda que nenhuma fundação
está em processo de criação e que isso será
discutido “caso a caso”.
As
experiências de sucesso
O projeto de regulamentação das fundações
estatais é uma aposta do governo para melhorar a gestão
do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o secretário
de Gestão Estratégia e Participativa do Ministério
da Saúde, Antônio Alves de Souza, num seminário organizado
pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), exatamente para debater
o tema, a intenção do governo ao propor a criação
do sistema de fundação estatal é criar a possibilidade
de se ter um regime de contratação diferenciado, um novo
tipo de repasse de recursos, que são os contratos de gestão,
entre outras modificações que poderão agilizar e
romper alguns obstáculos presentes no SUS. “É um modelo
que vai ser experimentado, porque ainda não tem nenhuma experiência
concreta”, disse. Algumas experiências próximas desse
modelo, no entanto, vêm sendo experimentadas em alguns estados brasileiros,
com bons resultados. Foram os casos do Rio Grande do Sul e São
Paulo, que possuem modelos de Organização da Sociedade Civil
de Interesse Público (Oscip) e Organizações Sociais
(OS). Entre as experiências apresentadas estiveram os consórcios
intermunicipais no Paraná, o Grupo Hospitalar Conceição
do Rio Grande do Sul e a Fundação Ary Frauzino e o Instituto
Nacional do Câncer, do Rio de Janeiro.
Para Luiz Roberto Barradas Barata, secretário de Saúde do
Estado de São Paulo, uma das primeiras unidades da Federação
a implantar a gestão terceirizada, a questão de quem gerencia
o hospital é secundária. “O que realmente importa,
quando o cidadão adoece, é ser bem atendido e, se possível,
ter seu problema de saúde rapidamente solucionado”, afirma.
Em São Paulo, há cerca de 10 anos o Hospital das Clínicas
de São Paulo, o InCor, o Dante Pazzanese, o HC de Ribeirão
Preto e o Instituto Nacional do Câncer aplicam esse modelo de gestão.
Além disso, 19 hospitais são geridos por Organizações
Sociais (OS). Pelas leis paulistas, uma entidade só poderá
ser qualificada para administrar um hospital do governo se tiver, no mínimo,
cinco anos de experiência na prestação de serviços
de saúde.

Divisão
No
lado oposto do debate representantes de trabalhadores e da sociedade civil
iniciaram um processo de articulação política para
impedir a aprovação do projeto que regulamenta a criação
das fundações estatais. O Conselho Nacional de Saúde
(CNS) agendou reuniões com parlamentares e pediu audiência
com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Vamos fazer
alguns movimentos políticos para inviabilizar essa proposta”,
disse o presidente do CNS, Francisco Batista Júnior. Ele lembrou
que antes de o governo enviar a proposta ao Congresso, o conselho já
havia se manifestado contrário, por conside-rá-la inconstitucional,
rejeitando a proposta por 20 votos a 14. Segundo Batista, a criação
de fundações estatais vai terceirizar o serviço de
saúde e criar diferenças salariais no setor. O novo regime,
o mesmo de empresas estatais, de agências reguladoras e da iniciativa
privada, de fato acaba com a estabilidade, mas dá aos funcionários
a possibilidade de ganhos por produtividade.
Para Batista, o projeto foi se formando durante mais de dois anos, mas
sem a participação dos principais interessados, que seriam
os usuários e os trabalhadores. “É um projeto que
aponta a curto prazo para a extinção do serviço público
estatal de saúde, que com certeza não teria condições
de competir com fundações com autonomia financeira e administrativa”,
contra-argumenta. O conselho pretende entrar com Ação Direta
de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF), contra o Ministério
da Saúde por descumprimento da decisão do conse-lho, que
é contrário à proposta.
Outra instituição que busca apoio político para barrar
a proposta é a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que
também não descarta a possibilidade de impetrar ações
judiciais. Para o secretário-geral da CUT, Quintino Severo, as
fundações estatais retirariam do Estado a responsabilidade
de oferecer serviços à população, além
da possibilidade de criar políticas salariais e de carreiras diferenciadas
para os servidores. “Acaba com estabilidade dos trabalhadores e
isso tornaria o serviço público vulnerável, na medida
em que cada governante poderá utilizar de política que altere
esse quadro de funcionários”, disse, acrescentando que isso
“criaria uma profunda divisão entre os servidores, porque
cada fundação estatal poderá ter um política
salarial e de carreira”.
A presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Seguridade Social (CNTSS), Maria Aparecida Godoy, afirma que a proposta
retira do Estado o dever de cuidar da área de saúde e tenta
“desconfigurar” as bases do SUS. “Na Constituição
está dito que saúde é dever do Estado e direito do
cidadão. Então, para mim, são medidas paliativas
e tentativas de desconfigurar o SUS e é nosso papel defendê-lo”,
disse. Os representantes do Conselho Nacional de Secretários Municipais
de Saúde (Conasems), José Eri de Medeiros, e do Conselho
Nacional de Secretários de Saúde (Conass), querem mais tempo
para debater o projeto e tomar uma posição. Valéria
Salgado, gerente de projeto do Ministério do Planejamento e responsável
pela elaboração da proposta, pediu aos conselheiros a abertura
do debate e a oportunidade de mostrar as diversas implicações
do projeto: “Na fundação estatal, o Estado continua
atuando. Só que, ao invés de ter regime estatutário,
ela tem um regime celetista, como uma empresa pública normal”.
Ela citou como exemplo o Hospital de Clínicas de Porto Alegre,
que pertence ao Ministério da Educação mas funciona
com regime celetista.
Estados
a favor
O ministro da Saúde diz que as reações contra a criação
de fundações estatais de saúde são naturais.
“As instituições são tradicionais e o primeiro
movimento é defender o status quo, nada pode mudar. À medida
que o projeto for divulgado e debatido de maneira clara, tenho certeza
que a sociedade vai perceber um instrumento muito importante”, defendeu
Temporão. Para o ministro, a criação das fundações
vai permitir a melhoria na gestão e nos gastos dos recursos, além
de reduzir burocracia. “Estamos propondo um novo modelo de gestão.
É um modelo que estará controlado pelo estado, mas haverá
um conjunto de flexibilidades que permitem que o dinheiro seja gasto de
maneira eficiente e as respostas sejam mais rápidas”. Será
mantida a realização de concurso público, mas de
maneira simplificada. As regras para fazer um concurso são tão
rígidas que um concurso dura cerca de um ano, explica o ministro.
“As vagas não são preenchidas porque os salários
são tão ridículos que não se consegue trazer
gente qualificada”, complementa. Para o governo, com as fundações
haverá mais agilidade na contratação e os funcionários
serão recompensados por bom desempenho. “Haverá ganhos
por desempenho indivi-duais e coletivos, já que a organização
vai passar a ter metas”.
O ministro acrescentou que, além de melhorar a eficiência
do gasto, é necessário buscar mais recursos para a saúde.
“É metade do que a Argentina gasta e está a anos luz
de distância do que os países ricos gastam”. Segundo
Temporão, o Brasil aplica US$ 500 por pessoa por ano em saúde,
enquanto o Canadá, por exemplo, gasta cerca de US$ 1.000 por ano,
por pessoa. “Temos que resolver essa dupla equação,
gastar melhor e brigar junto com sociedade brasileira por mais recursos”.
Segundo o ministro, numa entre-vista em setembro à revista Época,
dos 27 estados brasileiros apenas o Paraná não pretende
adotar o mo-delo de fundação estatal. “Talvez o Paraná
perceba que isso serve para a sua realidade, onde não exis-tem
muitos hospitais públicos”. Os outros 26 estados, no entanto,
segundo Temporão, se mostraram simpáticos à idéia.
“Alguns já estão tomando iniciativas, como Bahia,
Sergipe, Rio de Janeiro e Piauí, e outros estão num processo
de estudo. Para mim, o mais importante é ganhar a batalha no Congresso”.
A criação das fundações privadas, a regulamentação
da Emenda Cons-titucional nº 29, a contratualização
dos hospitais filantrópicos e o Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC) da Saúde, são cartas postas na mesa
para tentar encontrar os caminhos que a saúde pública do
Brasil necessita. Esperam-se agora que esses caminhos sejam definidos,
não só o de um lado, nem o de outro, mas o melhor para o
país.
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