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Médico e escritor
"Fui
ao médico,
mas não segui suas
recomendações"
A
noção de doença de cada pessoa nem sempre é
a mesma da concepção do profissional de saúde

Cena
cotidiana: um paciente, um médico, uma consulta acontecendo. Ação!
“A srª. seguiu as orientações e tomou o medicamento
conforme havíamos combinado?” pergunta o médico. Responde
então a paciente, temerosa:”Bem doutor, mais ou menos”.
O assunto é sobre a adesão aos tratamentos indicados por
médicos. Penso que uma consulta médica é um diálogo
e supõe-se que o doente, ou portador de algum sofrimento, a priori,
adere ao tratamento tal como ele foi prescrito. Entretanto, uma tese do
médico francês Y. Matillon (2002) mostra que a aderência,
ou seja, o cumprimento às orientações médicas,
só acontece em 54% dos casos. As mulheres costumam modificar ainda
mais aquilo que foi combinado, diferente da população masculina,
que tende a seguir mais detalhadamente o receitado.
Após sair do consultório, nem tudo que foi dito é
captado pelos sentidos e depois realmente entendido, assimilado e colocado
em prática. Um tanto, entra por um ouvido e sai pelo outro. Cada
um acaba usando seu livre arbítrio na escolha do que pensa ser
melhor para sua vida. Contudo, o pro-blema é quando as orientações
são vitais para a saúde do indivíduo e este as ignora,
propositadamente.
Mas por que as pessoas vão consultar e depois não fazem
aquilo que o médico pede? Cada um sabe de si, com certeza. Como
também nenhum médico é o senhor de todas as verdades.
Mas quem normalmente procura ajuda dela precisa, então parece um
paradoxo imaginar que muitas pessoas buscam atendimento médico,
às vezes com dificuldades (filas, tempo de espera, autorização
do convênio) e depois dele se desfazem sem medir conseqüências.
Sem falar no custo. Lembro que a noção de doença
de cada pessoa nem sempre é a mesma da concepção
do profissional de saúde.
Para nossa reflexão, é preci-so dizer que o ser humano tem
não somente a possibilidade de se instalar na doença e de
tirar proveito disso, mas, ainda, “a possibilidade de exprimir através
da doença suas tendências profundas”, como afirmou
Freud. Nem todos que acessam serviços de saúde buscam uma
solução prática e, às vezes, restrita ao poder
do médico em resumir a questão em seu receituário.
O problema é mais complexo. Nós médicos deixamos
de ser refúgio apenas da dor, nos é exigido atualmente um
retorno às origens da prática médica, que é
de ouvir mais que falar, por exemplo. Por outro lado, há um apetite
social que espera da Medicina poderes que ela sozinha não tem,
como resolver questões relacionadas à pobreza, habitação
inadequada, conflitos, fome e outras condições ligadas ao
ambiente de um país em desenvolvimento.
Mas não percamos a linha de raciocínio. Precisamos apontar
fatores que fazem com que as pessoas reorganizem prescrições
por conta, troquem medicamentos, alterem a forma de uso, acrescentem tratamentos
antigos, copiem o que deu certo para a vizinhança, sob a alegação
popular que “de médico e de..., todo mundo tem um pouco.”
Entre esses fatores, a doença é o primeiro. Quanto menos
respeito ao ato de adoecer tivermos, mais “lutamos” contra
o tratamento ao invés de lutarmos contra a doença. Em segundo,
o indivíduo, pois a personalidade do indivíduo é
primordial, assim como sua idade, nível intelectual, grau de informação.
Algumas pessoas esperam que um tratamento médico resolva aquilo
que elas mesmas não querem (e muitas vezes podem) enfrentar na
vida. Outras, entram na consulta mudas e saem caladas, não conseguem
dizer aquilo que desejam de fato. O terceiro fator é o tratamento,
no qual a duração do tratamento, o apoio familiar e o número
de medicamentos intervém na aderência. E por fim, o médico:
seu comportamento, seu lugar no imaginário do paciente e a relação
médico-paciente exercem um papel considerável. O resultado
de uma consulta é nitidamente melhor se o médico é
amistoso e compreensivo, se ele se inquietar com as preocupações,
se for facilmente comunicativo. O ambiente deve ser acolhe-dor e sem desconfiança
cínica.
Como disse Galeno (considerado mentor da Medicina moderna), “a cura
depende da idéia que fizemos de quatro coisas: da oportunidade,
do indivíduo, do médico e da vida”.
Contato: sixtocarlos@terra.com.br
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