AGO/SET/OUT
de 2007
NÚMERO 54
ANO 5

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CRÔNICAS
 
Sixto Carlo Bombardelli
Médico e escritor

 

"Fui ao médico,
mas não segui suas
recomendações"

A noção de doença de cada pessoa nem sempre é a mesma da concepção do profissional de saúde


Cena cotidiana: um paciente, um médico, uma consulta acontecendo. Ação! “A srª. seguiu as orientações e tomou o medicamento conforme havíamos combinado?” pergunta o médico. Responde então a paciente, temerosa:”Bem doutor, mais ou menos”.

O assunto é sobre a adesão aos tratamentos indicados por médicos. Penso que uma consulta médica é um diálogo e supõe-se que o doente, ou portador de algum sofrimento, a priori, adere ao tratamento tal como ele foi prescrito. Entretanto, uma tese do médico francês Y. Matillon (2002) mostra que a aderência, ou seja, o cumprimento às orientações médicas, só acontece em 54% dos casos. As mulheres costumam modificar ainda mais aquilo que foi combinado, diferente da população masculina, que tende a seguir mais detalhadamente o receitado.

Após sair do consultório, nem tudo que foi dito é captado pelos sentidos e depois realmente entendido, assimilado e colocado em prática. Um tanto, entra por um ouvido e sai pelo outro. Cada um acaba usando seu livre arbítrio na escolha do que pensa ser melhor para sua vida. Contudo, o pro-blema é quando as orientações são vitais para a saúde do indivíduo e este as ignora, propositadamente.

Mas por que as pessoas vão consultar e depois não fazem aquilo que o médico pede? Cada um sabe de si, com certeza. Como também nenhum médico é o senhor de todas as verdades. Mas quem normalmente procura ajuda dela precisa, então parece um paradoxo imaginar que muitas pessoas buscam atendimento médico, às vezes com dificuldades (filas, tempo de espera, autorização do convênio) e depois dele se desfazem sem medir conseqüências. Sem falar no custo. Lembro que a noção de doença de cada pessoa nem sempre é a mesma da concepção do profissional de saúde.
Para nossa reflexão, é preci-so dizer que o ser humano tem não somente a possibilidade de se instalar na doença e de tirar proveito disso, mas, ainda, “a possibilidade de exprimir através da doença suas tendências profundas”, como afirmou Freud. Nem todos que acessam serviços de saúde buscam uma solução prática e, às vezes, restrita ao poder do médico em resumir a questão em seu receituário. O problema é mais complexo. Nós médicos deixamos de ser refúgio apenas da dor, nos é exigido atualmente um retorno às origens da prática médica, que é de ouvir mais que falar, por exemplo. Por outro lado, há um apetite social que espera da Medicina poderes que ela sozinha não tem, como resolver questões relacionadas à pobreza, habitação inadequada, conflitos, fome e outras condições ligadas ao ambiente de um país em desenvolvimento.

Mas não percamos a linha de raciocínio. Precisamos apontar fatores que fazem com que as pessoas reorganizem prescrições por conta, troquem medicamentos, alterem a forma de uso, acrescentem tratamentos antigos, copiem o que deu certo para a vizinhança, sob a alegação popular que “de médico e de..., todo mundo tem um pouco.”

Entre esses fatores, a doença é o primeiro. Quanto menos respeito ao ato de adoecer tivermos, mais “lutamos” contra o tratamento ao invés de lutarmos contra a doença. Em segundo, o indivíduo, pois a personalidade do indivíduo é primordial, assim como sua idade, nível intelectual, grau de informação. Algumas pessoas esperam que um tratamento médico resolva aquilo que elas mesmas não querem (e muitas vezes podem) enfrentar na vida. Outras, entram na consulta mudas e saem caladas, não conseguem dizer aquilo que desejam de fato. O terceiro fator é o tratamento, no qual a duração do tratamento, o apoio familiar e o número de medicamentos intervém na aderência. E por fim, o médico: seu comportamento, seu lugar no imaginário do paciente e a relação médico-paciente exercem um papel considerável. O resultado de uma consulta é nitidamente melhor se o médico é amistoso e compreensivo, se ele se inquietar com as preocupações, se for facilmente comunicativo. O ambiente deve ser acolhe-dor e sem desconfiança cínica.

Como disse Galeno (considerado mentor da Medicina moderna), “a cura depende da idéia que fizemos de quatro coisas: da oportunidade, do indivíduo, do médico e da vida”.



Contato: sixtocarlos@terra.com.br


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