AGO/SET/OUT
de 2007
NÚMERO 54
ANO 5

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SAÚDE PÚBLICA
 
Gonzalo Vecina Neto
Docente da Faculdade de Saúde Pública da USP e
e consultor da Pró-Saúde

Saúde e Qualidade de Vida:
quem faz o que?


Se não aumentar a participação popular, as elites não
irão que o SUS com o qual sonhamos seja construído

Ao discutir este tema, que está sendo o mote de algumas conferências municipais de saúde, a primeira questão, hoje já ultrapassada, é se saúde tem a ver com qualidade de vida. Certamente tem, embora deva ter suas ações acompanhadas por outros setores, como a educação, cultura, lazer, trabalho etc. Ou seja, pela saúde dos idosos, temos que realizar uma ação conjunta entre a saúde e os setores do estado que são responsáveis, por exemplo, por lazer, atividades culturais, pois sem essas ações o idoso terá maior probabilidade de desenvolver quadros depressivos que aparecem associados à maioria dos quadros mórbidos dessa faixa etária.

Outro exemplo importante, é o da gravidez na adolescência, ou o da drogação. É fundamental educar, distribuir métodos anticoncepcionais, mas se o jovem, principalmente da periferia das grandes cidades, não tiver acesso a um conjunto de atividades para se desenvolver (de novo esporte, cultura, lazer, escola em tempo integral), certamente não se conseguirá êxito em diminuir o aparecimento de gravidez na adolescência e/ou droga-adictos.

É óbvio que são fenômenos complexos. Porém, não é somente com a ação do setor da saúde que se poderá combatê-los. Principalmente na periferia das grandes cidades, onde existe uma ausência quase total da presença da sociedade estruturada – seja através do estado – escolas, postos de saúde (quando existe estado é apenas sensível pela presença da polícia), seja através da presença de estruturas sociais como agência bancárias, por exemplo. No bairro do M’Boi-Mirim, na zona sul de São Paulo, residem quase 500 mil habitantes e não existe sequer uma agência bancária. As únicas presenças sensíveis da sociedade são a polícia e as igrejas das mais diversas propostas teológicas. Sem ações intersetoriais será praticamente impossível ter a ação da saúde gerando qualidade de vida. Nesse sentido, o estado é fundamental para articular ações dentro e com a sociedade. Sociedade sem estado leva à barbárie.

Nessa linha de raciocínio, ou seja, a da construção da relação entre saúde e qualidade de vida, quero trazer o que dentro do setor da saúde representa um dos maiores desafios (o maior certamente é o da equidade – dar de acordo com a necessidade, sem cair no foquismo – ação focal) que é o da integralidade da ação. É muito insuficiente tratar doentes e doenças. Temos que evitar, controlar, reduzir danos, dar qualidade à vida.

Esse desafio exige uma nova postura por parte da medicina e de seus atores. A solução para os dentes não é o dentista, mas também a higiene bucal. A solução para o acidente vascular cerebral não é somente o medicamento para a hipertensão, é o controle do sedentarismo, do peso, do fumo. Assim, médico e remédio são necessários, porém em um novo arranjo, em que os profissionais da saúde participam ativamente da construção de uma relação não coisificada (confundir consumo “de” com saúde) dos pacientes com os medicamentos e a medicina, e introduzam a importância de um conhecimento tão vital quanto antigo que é a higiene em seu senso mais amplo e que tem sido chamada de medicina preventiva.

Parte dessa medicina preventiva é representada por ações que buscam proteger a saúde, como a imunoprofilaxia (vacinas), o uso de equipamento de proteção individual no trabalho, os exames do tipo papa-nicolau para detecção precoce de câncer colo uterino. Mas a parcela mais importante é aquele responsável pela promoção da saúde. E aqui, se bem é importante a ação educativa dos atores da saúde pública, é imprescindível a ação de cada um. O principal ator da promoção da saúde é o próprio sujeito.

A promoção da saúde representa um desafio para a saúde publica na medida em que não temos receitas prontas e o mundo está em um estagio semelhante de desenvolvimento de sua capacidade de intervir na área da promoção. Portanto, não existe o que copiar. Como fazer para que as pessoas sejam protagonistas da construção de sua saúde, de sua qualidade de vida? Educação, intersetorialidade, são partes da resposta. O uso do marketing para o bem (!) é um dos desafios.

Assim, a integralidade é resultado de uma articulação entre um projeto de atenção à saúde voltado para evitar a doença, reduzir danos, tratar a doença, adaptar o paciente frente a seqüelas. Assim, o desafio é reestruturar o setor saúde brutalmente voltado para tratar doenças, hospitalocêntrico, voltado para atender somente a demanda.

Não se está negando a importância de atender a demanda. O que se propugna é pela ação consecutiva de dar resposta à demanda, mas não somente a ela. E essa ação requer uma nova visão do papel do setor e dos seus profissionais. O médico na área da promoção não é o maestro que é na área da medicina curativa, aqui é o espaço do conhecimento multiprofissional, da ação da equipe, da liderança compartilhada. Temos que repensar o funcionamento de todas as nossas unidades de saúde e o papel de cada profissional no conjunto de atividades que nelas desenvolvemos.

Sem dúvida, essa reorganização passa também pelo paciente que tem que nesse processo ser transformado. Cada vez mais a medicina moderna pode mais, porém na justa medida em que cada um de nós souber e quiser mais. Portanto, existe uma transformação no papel do paciente, que passa a ser agente, sujeito, dessa transformação. Esse é um novo papel que a moderna saúde pública e a sociedade terá que construir com os cidadãos.

Mas, não param aí as indagações. A busca de saúde e qualidade de vida não aceita perplexidades. E com isso quero me referir a frases do tipo: “a gente paga imposto e não tem saúde de volta! Cadê o doutor? Quanta maca nesse corredor!”.
Sim, é verdade que temos um problema de gerenciamento no Brasil, porém também temos um problema de sub-financiamento. A questão é: quem determina como deve funcionar o estado no gerenciamento, nesse caso, da saúde? Quem define o quanto de recursos vai para a saúde? Quanto de recursos vai para a educação? Quanto vai para pagar juros? Quem?

Quando a Constituição brasileira define como diretriz da construção do Sistema Único de Saúde a participação popular na verdade está apontando para essa pergunta. Se nós não conseguirmos aumentar a participação da população no SUS, não creio que as elites irão permitir que o SUS com o qual sonhamos e ao qual temos direito seja cons-truído. O SUS é uma política inclusiva e portanto transformadora.
Qualidade de vida e saúde portanto tem tudo a ver, se a sociedade que nos quisermos construir decidir que essa relação deve ser construída. Essa é a graça da contemporaneidade. Não existem mais heróis, não existe quem decida por cada um. É a nova utopia – teremos o que formos capazes de querer e construir. O SUS é tarefa de todos.


Contato: gvecina@uol.com.br             
                                                      

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