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Docente
da Faculdade de Saúde Pública da USP e
e consultor da Pró-Saúde
Saúde
e Qualidade de Vida:
quem faz o que?
Se não aumentar a participação popular, as
elites não
irão que o SUS com o qual sonhamos seja construído
Ao
discutir este tema, que está sendo o mote de algumas conferências
municipais de saúde, a primeira questão, hoje já
ultrapassada, é se saúde tem a ver com qualidade de vida.
Certamente tem, embora deva ter suas ações acompanhadas
por outros setores, como a educação, cultura, lazer, trabalho
etc. Ou seja, pela saúde dos idosos, temos que realizar uma ação
conjunta entre a saúde e os setores do estado que são responsáveis,
por exemplo, por lazer, atividades culturais, pois sem essas ações
o idoso terá maior probabilidade de desenvolver quadros depressivos
que aparecem associados à maioria dos quadros mórbidos dessa
faixa etária.
Outro exemplo importante, é o da gravidez na adolescência,
ou o da drogação. É fundamental educar, distribuir
métodos anticoncepcionais, mas se o jovem, principalmente da periferia
das grandes cidades, não tiver acesso a um conjunto de atividades
para se desenvolver (de novo esporte, cultura, lazer, escola em tempo
integral), certamente não se conseguirá êxito em diminuir
o aparecimento de gravidez na adolescência e/ou droga-adictos.
É óbvio que são fenômenos complexos. Porém,
não é somente com a ação do setor da saúde
que se poderá combatê-los. Principalmente na periferia das
grandes cidades, onde existe uma ausência quase total da presença
da sociedade estruturada – seja através do estado –
escolas, postos de saúde (quando existe estado é apenas
sensível pela presença da polícia), seja através
da presença de estruturas sociais como agência bancárias,
por exemplo. No bairro do M’Boi-Mirim, na zona sul de São
Paulo, residem quase 500 mil habitantes e não existe sequer uma
agência bancária. As únicas presenças sensíveis
da sociedade são a polícia e as igrejas das mais diversas
propostas teológicas. Sem ações intersetoriais será
praticamente impossível ter a ação da saúde
gerando qualidade de vida. Nesse sentido, o estado é fundamental
para articular ações dentro e com a sociedade. Sociedade
sem estado leva à barbárie.
Nessa linha de raciocínio, ou seja, a da construção
da relação entre saúde e qualidade de vida, quero
trazer o que dentro do setor da saúde representa um dos maiores
desafios (o maior certamente é o da equidade – dar de acordo
com a necessidade, sem cair no foquismo – ação focal)
que é o da integralidade da ação. É muito
insuficiente tratar doentes e doenças. Temos que evitar, controlar,
reduzir danos, dar qualidade à vida.
Esse desafio exige uma nova postura por parte da medicina e de seus atores.
A solução para os dentes não é o dentista,
mas também a higiene bucal. A solução para o acidente
vascular cerebral não é somente o medicamento para a hipertensão,
é o controle do sedentarismo, do peso, do fumo. Assim, médico
e remédio são necessários, porém em um novo
arranjo, em que os profissionais da saúde participam ativamente
da construção de uma relação não coisificada
(confundir consumo “de” com saúde) dos pacientes com
os medicamentos e a medicina, e introduzam a importância de um conhecimento
tão vital quanto antigo que é a higiene em seu senso mais
amplo e que tem sido chamada de medicina preventiva.
Parte dessa medicina preventiva é representada por ações
que buscam proteger a saúde, como a imunoprofilaxia (vacinas),
o uso de equipamento de proteção individual no trabalho,
os exames do tipo papa-nicolau para detecção precoce de
câncer colo uterino. Mas a parcela mais importante é aquele
responsável pela promoção da saúde. E aqui,
se bem é importante a ação educativa dos atores da
saúde pública, é imprescindível a ação
de cada um. O principal ator da promoção da saúde
é o próprio sujeito.
A promoção da saúde representa um desafio para a
saúde publica na medida em que não temos receitas prontas
e o mundo está em um estagio semelhante de desenvolvimento de sua
capacidade de intervir na área da promoção. Portanto,
não existe o que copiar. Como fazer para que as pessoas sejam protagonistas
da construção de sua saúde, de sua qualidade de vida?
Educação, intersetorialidade, são partes da resposta.
O uso do marketing para o bem (!) é um dos desafios.
Assim, a integralidade é resultado de uma articulação
entre um projeto de atenção à saúde voltado
para evitar a doença, reduzir danos, tratar a doença, adaptar
o paciente frente a seqüelas. Assim, o desafio é reestruturar
o setor saúde brutalmente voltado para tratar doenças, hospitalocêntrico,
voltado para atender somente a demanda.
Não se está negando a importância de atender a demanda.
O que se propugna é pela ação consecutiva de dar
resposta à demanda, mas não somente a ela. E essa ação
requer uma nova visão do papel do setor e dos seus profissionais.
O médico na área da promoção não é
o maestro que é na área da medicina curativa, aqui é
o espaço do conhecimento multiprofissional, da ação
da equipe, da liderança compartilhada. Temos que repensar o funcionamento
de todas as nossas unidades de saúde e o papel de cada profissional
no conjunto de atividades que nelas desenvolvemos.
Sem dúvida, essa reorganização passa também
pelo paciente que tem que nesse processo ser transformado. Cada vez mais
a medicina moderna pode mais, porém na justa medida em que cada
um de nós souber e quiser mais. Portanto, existe uma transformação
no papel do paciente, que passa a ser agente, sujeito, dessa transformação.
Esse é um novo papel que a moderna saúde pública
e a sociedade terá que construir com os cidadãos.
Mas, não param aí as indagações. A busca de
saúde e qualidade de vida não aceita perplexidades. E com
isso quero me referir a frases do tipo: “a gente paga imposto e
não tem saúde de volta! Cadê o doutor? Quanta maca
nesse corredor!”.
Sim, é verdade que temos um problema de gerenciamento no Brasil,
porém também temos um problema de sub-financiamento. A questão
é: quem determina como deve funcionar o estado no gerenciamento,
nesse caso, da saúde? Quem define o quanto de recursos vai para
a saúde? Quanto de recursos vai para a educação?
Quanto vai para pagar juros? Quem?
Quando a Constituição brasileira define como diretriz da
construção do Sistema Único de Saúde a participação
popular na verdade está apontando para essa pergunta. Se nós
não conseguirmos aumentar a participação da população
no SUS, não creio que as elites irão permitir que o SUS
com o qual sonhamos e ao qual temos direito seja cons-truído. O
SUS é uma política inclusiva e portanto transformadora.
Qualidade de vida e saúde portanto tem tudo a ver, se a sociedade
que nos quisermos construir decidir que essa relação deve
ser construída. Essa é a graça da contemporaneidade.
Não existem mais heróis, não existe quem decida por
cada um. É a nova utopia – teremos o que formos capazes de
querer e construir. O SUS é tarefa de todos.
Contato: gvecina@uol.com.br
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