OUTUBRO
DE 2005
NÚMERO 48
ANO 4

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Paulo Camara
Administrador Hospitalar e superintendente da Pró-Saúde
ADMINISTRAÇÃO


Eduardo Martinho
Professor de Administração
Hospitalar e Saúde Pública

Poder ou autoridade:
o que usar

O verdadeiro papel do líder é servir a comunidade, mesmo com sacrifício pessoal

Está fazendo muito sucesso atualmente, o livro “O Monge e o Executivo”, do especialista em liderança James Hunter. Baseado nessa obra, podemos analisar se para atingir sua missão dentro dos hospitais filantrópicos, os líderes devem utilizar o poder ou autoridade? Hunter é bem claro. A base da liderança não é o poder e sim a autoridade, conquistada com amor, dedicação e sacrifício.

O respeito, a responsabilidade e cuidado com as pessoas são virtudes indispensáveis a um grande líder. Ou seja, para liderar é preciso estar disposto a servir, principalmente nos hospitais, cuja derivação da palavra vem de hospitalium, hospitalidade, hospitaleiro (ou atendimento humanizado a quem não conhecemos).

Exercer influência sobre os outros, que é a verdadeira liderança, está ao alcance de todos, mas requer uma enorme doação pessoal. É pena que a maioria dos cargos de liderança assuste as pessoas por causa do grande esforço necessário para exercê-lo. De acordo com o livro, gerência não é algo que você faça para os outros. Você gerencia seu inventário, seu talão de cheques, seus recursos. Você pode até gerenciar a si mesmo. Mas você não gerencia seres humanos. Você gerencia coisas e lidera pessoas.

Portanto, liderança é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente, visando atingir os objetivos identificados como sendo para o bem comum. Para compreender melhor como se desenvolve esse tipo de influência é fundamental compreender a diferença entre poder e autoridade. O poder é, em re-sumo, a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer. Como cita Hunter, “todos sabemos como é o poder, não é? O mundo está cheio disso. Faça isso ou despedirei você. Faça isso ou bombardearemos você. Em outras palavras, faça isso senão...”. Já a autoridade é diferente. É definida como a habilidade de levar as pessoas a fazerem de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal.

Assim, o poder é definido como uma faculdade, enquanto autoridade é definida como uma habilidade. A autoridade não pode ser comprada nem vendida. A autoridade diz respeito a quem você é como pessoa, a seu caráter e a influência que estabelece sobre as pessoas.

Para Hunter, não há ninguém, vivo ou morto, que possa chegar mais próximo da definição de autoridade do que Jesus Cristo. Sem dúvida, no mundo de hoje mais de dois bilhões de pessoas se consideram cristãos. O islamismo tem menos da metade dos fiéis do cristianismo. O Natal e a Páscoa, considerados as maiores datas santas em muitos países, são eventos ligados à vida Jesus. O calendário ocidental até conta os anos a partir do nascimento dele.

Daí vem o conceito central do livro, de que para liderar é preciso antes de tudo, servir. “Jesus disse que para liderar você deve servir. Lembre-se, Jesus não usava o estilo de poder simplesmente porque não tinha poder. O rei Herodes, Pôncio Pilatos, os romanos, toda aquela gente tinha poder. Mas Jesus possuía muita influência, o que na realidade é autoridade, e é capaz de influenciar pessoas até os dias de hoje. Ele nunca usou o poder, nunca forçou ou coagiu ninguém a segui-lo”.

Hunter cita diversos casos de outros líderes históricos que tiveram autoridade mas nenhum poder. “Gandhi que declarou que obteria a independência da Índia da Inglaterra sem recorrer à violência. A maioria das pessoas zombou, mas ele conseguiu, servindo pessoalmente a causa e se sacrificou muito por ela. Foi preso e açoitado por seus atos de desobediência civil. Em 1947, não apenas o Império Britânico deu a independência à Índia como recebeu Gandhi em Londres, com uma parada de herói. Ele fez tudo sem re-correr a armas, violência ou poder. Ele usou apenas influência”.

Um segundo exemplo típico é o do reverendo americano Martin Luther King. “Nos Sul dos Estados Unidos, os negros tinham que se sentar na parte de trás dos ônibus, entre outros preconceitos. King reconheceu que não tinha poder para fazer nada a respeito disso. Alguns como Malcolm X e os Black Panthers tentaram contrapor poder com poder. A genialidade do Dr. King consistiu em afirmar que podia conquistar direitos civis para os negros sem usar violência. Muitos riram dele, também. Ele sofreu ameaças de morte, de violência à sua família, passou tempo na prisão por sua desobediência civil, e até sua casa e sua igreja foram bombardeadas. E vejam o que ele conseguiu em poucos anos – O Dr King foi o homem mais jovem a ganhar o Prêmio Nobel da Paz”.

Outro ponto que Hunter destaca nos líderes citados é a visão do bem comum. No caso de Jesus, o mandamento de amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei (João15:12-13). Em Gandhi era fundamental a crença na bondade do homem. Gandhi acreditava que as pessoas queriam trabalhar para o bem comum. Por isso, ele lhes dizia que fizessem sacrifícios para conquistar a independência do seu País. Por isso, ele falava à consciência e ao senso de honra daqueles que faziam oposição. Num exército ortodoxo, existe uma distinção clara entre oficiais e soldados. Num exército não violento, o general é apenas o servidor-chefe – o primeiro entre os iguais. Para Luther King, era a visão do sonho. “Ainda tenho um sonho, um sonho profundamente enraizado no sonho americano: o de que, um dia, esta nação se erga e passe a viver o verdadeiro sentido de sua crença. A resistência não-violenta não deve procurar derrotar ou humilhar o oponente mas ganhar sua amizade e compreensão. O resultado posterior da não-violência é a criação da comunidade baseada no amor, enquanto o resultado da violência é a trágica amargura”.

Acreditamos que para os hospitais filantrópicos atingirem sua missão de servir a comunidade os administradores devem exercer autoridade que é a verdadeira liderança, voltada para o serviço. Só assim é possível cumprir seu real papel.
                                                               

Contato: paulo@prosaude.org.br
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