OUTUBRO
DE 2005
NÚMERO 48
ANO 4

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CRÔNICAS MÉDICAS
 
Stanley Baptista de Oliveira
Médico e escritor

Ceia de Natal com Odete Roitman

Então, Tereza teve a infeliz idéia de comparar a tia, abaixada ao lado do fogão, com a personagem da novela

Convidei meu irmão para a ceia de Natal no meu apartamento. Seria uma festinha simples, com poucas pessoas, somente eu, minha mulher, ele, a mulher dele e sua filha, Tereza. Disse-lhe que meu filho não poderia vir, pois iria cear na casa da sogra e que eu e Marilu estávamos sós. Falei que seria um pouco triste ficarmos eu e minha mulher sozinhos numa noite de Natal, data em que as famílias comemoram juntas o nascimento de Cristo e que a companhia dele, da sua mulher e filha iriam alegrar muito a nossa ceia. Ainda disse o que iríamos servir: lombo de porco bem corado, farofa, arroz à grega e peru assado.

Tomaríamos um uisquinho antes e um bom vinho chileno durante o jantar. Fiz tudo para seduzir meu irmão, mas ele raspou a garganta, gaguejou um pouco e desculpou-se: já estava comprometido com o irmão da sua mulher, o Carlinhos. Iria cear na casa dele. Lamentou muito, disse que seria muito bom passar o Natal na minha casa, os únicos irmãos de uma família quase em extinção, mas... – O Carlinhos insistiu muito, havia convidado com antecedência, a Tânia estava empolgada com a casa nova, ela mesma iria preparar o jantar...

Tudo bem, minha noite de Natal foi ao lado da Marilu, só nós dois no apartamento, isolados na cidade grande. Mas foi um jantar gostoso, comemoramos a data com alegria, fomos dormir cedo.

No dia seguinte, encontrei-me com meu irmão.

- Puxa vida! Eu devia ter aceitado o seu convite, falou ele. A nossa ceia de Natal foi terrível! Terrível! Chegamos à casa do meu cunhado, eu, a Lourdes e nossa filha, Tereza. O Carlinhos estava muito alegre, mostrou a casa nova, tudo muito chique e bem mobiliado. A Tânia, a mulher dele, também estava alegre, empolgada, recebeu-nos muito bem. Ela falou que ela mesma estava assando o peru e preparando outros pratos.

- Enquanto a comida não ficava pronta, começamos a tomar uísque, vinho branco e comer uns petiscos. Minha mulher e minha filha não tomam bebida alcoólica, ficaram no refrigerante. A Taninha tomava uns bons goles de uísque e, de vez em quando, ia à cozinha dar umas verificadas nas panelas e no forno. Depois ela foi aumentando as doses de uísque, começou a rir muito, falar em voz alta, resolveu tocar pandeiro, cantar e rebolar. Ficou descalça e tocava pandeiro, cantava e rebolava, animadíssima. A minha mulher ficou com a cara fechada, sentindo-se desconfortável diante da evidente embriaguez da Taninha. Minha filha foi para outra sala e ligou a televisão.

- Carlinhos, também já bem tocado pela bebida, dava gargalhadas, acompanhando a dança da mulher. Eu, calado, meio cabreiro, tomando meu uisquinho devagar. De repente, veio da cozinha um cheiro forte de carne queimada. A Taninha deu um grito: - Ai, meu Deus! O peru está queimando! Fomos todos correndo para a cozinha. Ela abriu o forno, saiu aquela fumaceira preta do peru esturricado. A Tânia começou a chorar e gritar: - Ai, o peru queimou! O meu peru queimou!

- Nós, consternados, em silêncio, vendo o desconsolo da dona da casa. Minha filha, Tereza, parada na porta da cozinha, teve a infeliz idéia de brincar com a tia e falou: - Bem feito. Você está parecendo a Odete Roitman (que, na época, era personagem de uma novela da TV que vivia embriagada). Ah, meu irmão, a Taninha, que estava agachada diante do forno, levantou-se num pulo, cambaleando, e berrou para minha filha: - Odete Roitman? Você está me chamando de Odete Roitman? Você está me chamando de bêbada? Não admito isto! Pra fora da minha casa! Não admito ser ofendida dentro da minha casa! Pra fora todo mundo! Passa fora! E soltou um monte de palavrões. Fomos embora com o rabo entre as pernas e tivemos que comer pizza com guaraná na cozinha da nossa casa, em plena noite de Natal.


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