Professor
da Faculdade de Saúde Pública da USP, ex-presidente da Anvisa
e
ex-secretário de Saúde da cidade de São Paulo
Os
municípios e a saúde dos brasileiros
Como
construir um modelo de gestão a partir da agenda do Conasems
A
partir da Constituição de 1988 e da lei 8.080/90, que instituíram
o Sistema Único de Saúde (SUS), os municípios vêm
ganhando cada vez mais responsabilidades na prestação de
serviços de saúde. A antiga lei 6.229/76, que ordenava o
então Sistema Nacional de Saúde, somente atribuía
responsabilidades aos municípios nas áreas de urgência
e atenção básica.
O
novo ordenamento jurídico tem como uma das suas principais diretrizes
a descentralização do sistema de saúde, o que coloca
o município em evidência. A verdade é que o legislador
não inovou. Somente observou experiências que desde a década
de 70 vinham se cristalizando pelo Brasil afora: Londrina, Campinas, Itu,
Niterói, Montes Claros, Sobradinho, entre outras. É no município
que vive o cidadão, onde o serviço deve ser prestado, cobrado
e avaliado. E é assim que vem se construindo o SUS nestes últimos
15 anos. Certo que o modelo geopolítico brasileiro é um
elemento complicador, pois esta construção se realiza sobre
três autonomias: federal, estadual e municipal. Difícil,
não impossível.
Foi
com este objetivo que em 1988 estruturou-se o Conselho Nacional de Secretários
Municipais de Saúde (Conasems) que vem lutando para ajudar a construir
um sistema de saúde melhor a partir dos municípios. Em junho
de 2005, o conselho produziu o documento “Teses e Plano de Ação
– 2005-2007” (www.conasems.org.br), que será usado
para orientar e dar transparência a sua ação política,
que aponta para cinco grandes desafios no caminho da construção
do SUS e propõe diretrizes para orientar esta ação.
Esses desafios são:
- Financiamento
da saúde – O gasto público com saúde
representa cerca de 3,2% do PIB, ou U$125/habitante/ano. Esse gasto
é 42% do gasto total em saúde. Do próprio bolso
e com a medicina supletiva os brasileiros gastam outros 58%. Comparado
com qualquer país de igual estágio de desenvolvimento,
o Brasil gasta pouco e faz bastante. As taxas de internação,
de consultas por habitante, o grau de incorporação tecnológica
etc. são comparáveis a de outros países. Existem
problemas de eficiência, de filas. Muito há por fazer
– apesar do sucesso do tratamento da Aids, dos transplantes,
dos processos de atenção a patologias de alta complexidade.
O certo é que não se tem mais tanta corrupção
na saúde e é cada vez menos verdade que se gasta mal.
Gasta-se pouco. A sociedade não quer gastar mais? Então
deve se discutir fazer menos e a entrega que a Constituição
aponta – “saúde como direito do cidadão
e dever do Estado” – fica impossível.
A
emenda constitucional 29 melhorou o financiamento da saúde, mais
do ponto de vista da estabilidade do financiamento do que do aumento de
recursos. Ele está estável nos últimos três
anos (em dólares) e com crescente participação dos
municípios. Muitos dos médios e grandes municípios
já estão aplicando mais do que a lei ordena, ou seja, os
15% da receita própria. Se o país quer diminuir a exclusão
social terá que aumentar os gastos com saúde e educação.
Assim,
a luta pela aprovação do PLC 01/03 (que propõe novas
bases para o financiamento federal da saúde) tem que ser encampada
por toda a sociedade. Paralelamente e também para melhorar o nível
de informação da sociedade sobre o SUS, deve-se estudar
e compreender seu funcionamento e custos em todos os níveis e atividades.
- Gestão
do trabalho no SUS – Aqui são dois os principais
problemas: as questões relativas à lei de responsabilidade
fiscal que impedem os municípios de contratar, por um lado,
e o entendimento que o Ministério Público do Trabalho
tem sobre precarização das relações de
trabalho. Aliás, esse fato tem dado oportunidade a ações
oportunistas, de caráter corporativista, por parte de alguns
sindicatos e conselhos de categoria. É óbvio que não
se está defendendo a relação de trabalho por
meio de contratações via cooperativas ou autônomos
– isto sim é precarização. Mas a utilização
de parcerias, em particular com entidades filantrópicas, realizadas
com contratos transparentes que exigem a contratação
através de CLT. Essa é a única saída para
que os municípios consigam manter funcionando programas como
Ser-viço de Atendimento Móvel de Urgência, Programa
de Saúde da Família, Programa de Agentes Comunitários
de Saúde etc.
Há que se colocar em discussão a revisão das
leis que regulam as relações de trabalho no SUS. Tem-se
que estudar e melhorar o conhecimento sobre a estrutura da força
de trabalho nos estados e municípios e criar espaços
de debates para esses temas.
-
Formas de alocação dos recursos disponíveis no
SUS – A questão mais importante é o fracionamento
dos repasses dos recursos federais. Hoje são 101 tipos de repasses,
com múltiplas exigências para que esses ocorram, o que
submete os municípios a manter uma pesada burocracia. O que
o plano federal busca é gerar induções com essa
forma de repasse e revela a grande desconfiança existente na
capacidade dos municípios darem respostas adequadas às
suas realidades. Outro problema é a baixa participação
dos estados no co-financimento das ações municipais.
Tem-se que diminuir essa desconfiança, capacitar os municípios
e rever o artigo 35 da lei 8.080 (que disciplina a forma de repasse
e que por ser inexeqüível não vem sendo cumprida)
e, de novo, tem-se que aprovar o PCL 01/03. Com relação
à capa-cidade de indução de políticas
deve-se estudar propostas mais adequadas para evitar o brutal fracionamento
hoje existente. Os estados têm que comparecer para solidariamente
financiar programas municipais.
- Descentralização
e municipalização – Municipalização
autárquica, prefeiturização, são algumas
maneiras de se de tratar o movimento de descentralização
nos anos mais recentes. O que ocorreu foi que o sistema de saúde
andou mais rápido do que a construção de instrumentos
legais e financeiros adequados para re-solver a questão da
execução das políticas de saúde. Muitos
dos problemas de saúde pública fogem do controle das
fronteiras geográficas (epidemias como a dengue, serviços
de alta complexidade) e não se desenvolveram instrumentos políticos
e de financiamento adequados para a sua gestão. A estratégia
é construir, em conjunto com os Estados, propostas para abordar
os problemas regionais. Nesse sentido também deve se estimular
a universidade a estudar esses problemas e debatê-los.
- Modelo
de atenção à saúde - O grande
desafio aqui é dar concretude aos princípios do SUS
– integralidade, universalidade e eqüidade. Além
do que a integralidade tem que ser olhada através do eixo da
complexidade das ações e do tipo destas (promoção,
proteção e recuperação da saúde).
Natural, também, o reconhecimento de que sem vencer as barreiras
a intersetorialidade ficará muito difícil avançar
nas ações de promoção da saúde.
No campo do eixo da complexidade o desafio é o da regulação,
ou seja, de poupar os cidadãos da loteria da saúde.
Tem-se que buscar uma solução para adequar demanda versus
oferta versus necessidade. As estratégias passam por construir
políticas de educação permanente, priorizar agendas
de políticas de promoção da saúde, discutir
e criar protocolos clínicos, gerar capacidade de regular o
sistema, enfim, buscar diminuir sua excessiva medicalização.
Como
se demonstrou, Teses e Planos de Ação é uma agenda
dos secretários municipais para conduzir sua luta na construção
do SUS. Mas toda a sociedade tem que adotar essa agenda para discuti-la
e transformá-la em vontade de mudar. Ou não teremos uma
sociedade melhor.
Contato: gvecina@uol.com.br
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