OUTUBRO/NOVEMBRO
DE 2002
NÚMERO 39
ANO 4
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Newton Quadros
Administrador, especialista em Qualidade Hospitalar, sócio-diretor da Newton Quadros - Administração em Saúde e diretor da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado da Bahia.

A gestão compartilhada


As relações entre as operadoras de planos de saúde e os prestadores de serviços de saúde, sejam eles hospitais, clínicas médicas, laboratórios clínicos e até os próprios médicos, sempre foram conflituosas. Um pouco menos no passado inflacionário, onde o ganho financeiro coexistia com o ganho operacional, sendo o primeiro merecedor de uma maior atenção por parte dos compradores de serviços de saúde, um pouco mais no presente, onde a viabilidade operacional passou a ser a alternativa quase única de lucro.

O governo, que algumas vezes esquece de fazer contas de receita e despesa, interferiu nesta relação com a lei 9.656, que regulamenta o funcionamento desse mercado e acrescentou regras importantes entre as partes, principalmente perante o consumidor. No entanto, am-pliou os benefícios obrigatórios numa época de retração de mercado, decorrente do desempenho da economia brasileira e internacional, ampliando os custos e criando dificuldades para repassá-los.

Nesse ambiente, os agentes do mercado voltam-se para a otimização dos custos operacionais, visando manter a sobrevivência das empresas.

Surgem então, na prática, diversas metodologias e estratégias de gestão por parte das empresas de planos e seguros saúde, com o objetivo de controlar e reduzir os custos com a assistência, sendo algumas: porta de entrada, auditoria preventiva, pacotes cirúrgicos e de atendimento, redução da rede credenciada, direcionamento de demanda, descontos, parcerias e as já conhecidas glosas. Os ajus-tes atingiram também as corretoras de seguros, que estavam acostumadas a altas taxas de comercialização das apólices, que eram repassadas, obviamen-te, para os preços dos produtos.

Do lado das empresas prestadoras de serviços, verificou-se uma verdadeira corrida para a profissionalização nunca antes vista. Investimentos em profissionais mais capacitados, reciclagem de pessoal, sistemas de informações, marketing, custos e na gestão propriamente dita. As empresas que não acompa-nharam essa tendência simplesmente passaram a ter problemas graves de sobrevivência no presente e terão chances igual a zero de sobreviverem no futuro. A auditoria médica surge com veemência e diversas empresas especializadas nessa área passaram a disputar o mercado e a irritar profundamente médicos, donos e gestores de hospitais, clínicas médicas e laboratórios clínicos.

Por um momento a lógica do mercado era a total desconfiança entre compradores e prestadores de serviços de saúde, promovendo conflitos constantes e a discussão básica estava concentrada nas tabelas de preços. Apesar da desvalorização do real pe-rante o dólar e do conseqüente aumento dos insumos importados e nacionais e da própria taxa inflacionaria do setor saúde, pouco ou nenhum aumento foi dado nas tabelas de preços dos serviços médicos, hospitalares e laboratoriais, nestes últimos anos. Ao contrário, os descontos chegaram a todo vapor e em troca da permanência do credenciamento, em alguns casos, tive-ram de ser aceitos pelos prestadores de serviços.

A expectativa de crescimento do mercado das classes C e D não aconteceu no prazo previsto e o mercado de 35 milhões de usuários do sistema privado de saúde e que consome cerca de 17 bilhões de reais por ano permaneceu basicamente o mesmo para infelicidade das operadoras de planos de saúde e dos prestadores de serviços de saúde.

Por outro lado, verificou-se o crescimento da grande cirurgia ambulatorial e o conseqüente processo de “desospitalização”, com o surgimento dos hospitais-dia, que passaram a competir com as estruturas convencio-nais. A verdade é que todos os integrantes desse macro-am-biente operacional da área de saúde estavam sofrendo de alguma maneira. Os prestadores de serviços, com o aumento da inflação interna e impossibilidade de repasse. As empresas de autogestão, na sua maioria do setor público, devido ao congelamento de salários, a impossibilidade de contratar novos funcionários e o envelhecimento dos beneficiários, ocasionando aumento de custos e dificuldades de reajustes internos.

As empresas seguradoras, cooperativas e de medicina de grupo, enfrentaram um mercado recessivo, que não aceitava aumentos e não apresentava sintomas de crescimento. A comunidade passou a ser mais exigente, o governo disponibilizou instrumentos mais eficazes de cobrança e controle e os advogados já perceberam o mercado que está diante deles. Nunca foi tão difícil administrar o sistema privado de saúde no Brasil co-mo nesse período.

Todavia, a constatação mais coerente é a de que os integrantes desses sistemas precisam sobreviver e conviver de uma forma mais harmônica, principalmente em benefício à comunidade. A questão social é muito forte e todos os esforços possíveis devem ser feitos em prol desse objetivo. A principal questão passou a ser a seguinte: como garantir uma prestação de serviços de saúde de qualidade com custos competitivos?

O caminho não é outro há não ser o da gestão compartilhada. Gestão compartilhada significa estabelecer uma sinergia entre os agentes do sistema privado de saúde, visando a coexistência conjunta e com objetivos compartilhados e complementares. Significa otimizar os custos operacionais sem comprometer a qualidade e dignidade da assistência à saúde da comunidade. Significa também reduzir os processos burocráticos, a incompetência gerencial de ambas as partes e a má-fé, que por ventura possa existir.

Com a gestão compartilhada surgem temas comuns, tais como medicamentos genéricos, compra conjunta, protocolos médicos e de enfermagem, me-dicina preventiva, qualidade de vida, fluxo de pagamento mais adequado, interatividade atra-vés da internet, sistemas de custos e redefinição de valores de diárias e taxas hospitalares, dentre outros. O mercado tenderá a direcionar investimentos com base na relação oferta e procura e sempre com estudos de viabilidade econômico-financeira muito bem desenvolvidos. Os investimentos serão mais coe-rentes com a realidade e necessidades de mercado.

A integração entre o setor público e o setor privado é condição essencial para o equilíbrio do sistema de saúde nacional, em respeito à população brasileira, que não suporta mais a ineficácia e ineficiência dos tecnoburocratas. O conceito de gestão compartilhada deverá surgir como fruto do amadure-cimento da relação entre as operadoras de planos de saúde, os prestadores de serviços de saúde e o governo e da constatação lógica que cada parte precisa da outra para sobrevi-ver, em um mercado cada vez mais exigente e competitivo.

Caminhos existem. Resta saber se existirão pessoas dispostas e interessadas em percorrê-los, pois o compromisso daqueles que atuam na área de saúde é muito elevado e os resultados de suas ações repercutirão na vida de muitos, inclusive deles próprios.