OUTUBRO/NOVEMBRO
DE 2002
NÚMERO 39
ANO 4
>>

PRINCIPAL

SALA DE ESPERA
EDITORIAL
ENTREVISTA
EM DIA
CAPA
SAÚDE GERAL
PRÓ-NOTÍCIAS
OPORTUNIDADES
ARTIGOS
.ADMINISTRAÇÃO
.MOTIVAÇÃO
.MBA
.INFRA-ESTRUTURA
.INTERFACE
.SERVIÇOS
.HOSPITAIS FILANTRÓPICOS
.JURÍDICO
.SERVIÇOS ASSISTENCIAIS
.SAÚDE COMPLEMENTAR
CRÔNICAS MÉDICAS
EM ÚLTIMA ANÁLISE
EXPEDIENTE
EDIÇÕES ANTERIORES
FALE CONOSCO
CRÉDITO
 
Clique para ampliar
SERVIÇOS ASSISTENCIAIS
 
Lore Marx
Enfermeira e presidente da LCM Assessoria e Consultoria em Saúde

Resposta aos administradores para solução da problemática assistencial

Como em todos os serviços e departamentos, a solução de um problema acaba sempre envolvendo situações conflitantes até se conseguir chegar a um denominador comum. Não poderia ser diferente com a área de Enfermagem, inserida no macro e complexo sistema hospitalar, bem como na atual situação do sistema de saúde como um todo, que depende de sua capacidade de alinhar e harmonizar diferentes processos e responder a cons-tantes desafios para atingir o produto final desejado, cuja razão fundamental se projeta na qualidade da assistência.

A problemática que envolve a área de Enfermagem vem se arrastando há anos em quase todos os hospitais do Brasil, salvo raras exceções que apresentam viabilidade resolutiva não apenas momentânea, mas, sobretudo, ações e atitudes consistentes que as habilitam a enfrentar e atender às necessidades futuras.

Essas exceções são definidas por filosofia e princípios próprios e cultura interna atualizada, embasadas nas novas teorias de gestão de serviço compartilhado, cujos compromissos estão na confiança, fidelidade, delegação de poder, divisão de responsabilidades e comprometimento com os resultados.

Por ser o hospital um complexo tão gigantesco como se apresenta, pela enorme diversificação de ações, processos e procedimentos, e por depender de resolução emergente, com di-namismo e agilidade para mu-danças, é que necessita investir em seus profissionais e va-lorizar seus talentos. “O desafio mais importante de nossos dias é o encerramento de uma época de continuidade – época em que cada passo fazia prever o passo seguinte – é o advento de uma era de descontinuidade, onde o imprevisível é o pão de cada dia para os homens, para as organizações e para a humanidade como sistema” (Peter Drucker).

Duas palavras nos alertam ao atentarmos para o texto acima: descontinuidade e imprevisível. O mundo atual, se modifica a cada dia e a uma enorme velocidade, e para sobreviver às estas mudanças e atender às novas exigências, temos que necessa-riamente que aprender a lidar com esse processo de descontinuidade e imprevisibilidade.

Em todos os serviços e setores ocorreram mudanças, incluindo o da saúde, nos âmbitos intra ou extrahospitalar. Forças externas exigem adaptações e inovações, formas e práticas mais ágeis e resolutivas.

Para atendimento a esses novos padrões, há necessidade premente de uma maior atenção à força de trabalho da área hospitalar em todos os seus segmentos e dentre eles a Enfer-magem que, tardiamente, vem se posicionando, se reorganizando e se reestruturando para oferecer aos clientes/pacientes e clientes/administradores um dife-rencial pela eficiência no traba-lho e eficácia no resultado.

Hoje, não é possível se falar em sobrevivência, se não houver capacidade empresarial em investir em qualidade, cujos padrões se elevaram e cujos clientes estão cada vez mais exigentes e conscientes de seus direitos. Principalmente quando abordamos a prestação de serviços não podemos deixar de observar que a grande diferença são as pessoas.

A ênfase a ser dada situa-se no modo de pensar de muitos administradores e, por mais perplexos que fiquemos, até mesmo de muitos enfermeiros, que optam pela contratação de mão-de-obra mais barata, porém, pseudo-econômica.

O fato é que o quantitativo de enfermeiros atuantes, não cor-responde às reais necessidades para a garantia de uma assistência qualificada. A realidade nos mostra que o despreparo profissional e a ausência de um sistema que valorize o aprendizado e crescimento contínuos são fato-res de perda sem precedentes.

As organizações envolvidas com processos de qualidade, atentas às tendências de mercado e entusiasmadas com o aprendizado e qualificação de pessoal, irão sem dúvida abarcar um maior número de profissionais capacitados, para atender mais prontamente às novas necessidades.

Os hospitais que possuem um maior quantitativo de enfermeiros situam-se entre os de primeira linha, apresentando melhores resultados e assegurando um atendimento mais consistente à população atendida. Apresentam-se também economicamente mais viáveis, pois a capacitação profissional conseqüentemente implicará na redu-ção de perdas pelo retrabalho, desperdício de materiais e inadequação no uso de equipamentos.

A globalização da economia vem sendo a principal determinante da qualidade, através das exigências das ISO e pela acre-ditação dos serviços. Para tanto, as organizações têm que necessariamente se transformar e es-timular seus funcionários a colaborar com todo o seu potencial e criatividade, mas para que isso ocorra deverá saber também recompensá-los e conduzi-los a acreditar nos princípios que devem nortear a filosofia institucional interna, em que as decisões, a responsabilidade, o comprometimento e os resultados, são compartilhados. Cabe aqui citar duas colocações de Peter Ducker: “Quem sabe faz e quem não sabe manda”, ou “Quem sabe menos, faz”.

Ao abordarmos o aspecto específico da recompensa, te-mos que integrá-lo em vários contextos da motivação huma-na, que nos faz mover em direção a uma realização pessoal ou profissional. Assim, as organizações devem atuar como facilitadoras na liberação do potencial de seus profissionais, adequando salário, benefícios e proporcionando-lhes condições para que possam auto-investir em seu aprimoramento educacional, assegurando-lhes uma qualidade de vida digna, sem que necessite manter dois ou mais empregos para sobreviver; o que é comum na área da Enfermagem.

Outro fator a ser abordado, refere-se à forma como os serviços de Enfermagem são estruturados. Observa-se que grande parte dos hospitais ainda hoje trabalha dentro do “Sistema Integral”, em que cada funcionário presta atendimento individual ao paciente durante um mesmo dia e período de trabalho, sem entretanto haver uma seqüência e um acompanhamento nos dias subseqüentes.

Cabe ao Departamento de En-fermagem zelar para que a assistência a ser oferecida aos pacientes seja de qualidade e atenda às exigências legais em vigor, conscientizando a admi-nistração quanto à importância e necessidade de manter ao menos um enfermeiro durante as vinte e quatro horas do dia e os sete dias da semana, em cada unidade onde exista atendimento ao paciente.

Ressaltamos que deve existir continuidade no atendimento ao paciente, que não é grave apenas das sete às dezessete horas, de segunda a sexta-feira, mas das sete às sete horas do dia seguinte e de segunda a segunda-feira. E mais: paga a mesma diária, de segunda a segunda-feira, às vezes até mesmo com acréscimo nos finais de semana e feriados, em especial nos procedimentos.

A partir dessas considerações, entendemos que o paciente tem direito e merece esse respeito, por meio da garantia de uma assistência prestada por equipe qualificada de trabalho também aos finais de semana. Para manter essa continuidade, que atenda também aos padrões qualitativos, basta dimensionar o quadro efetivo.

Temos a considerar que, no âmbito internacional, já está demonstrado que o sistema de “Cuidados Integrais e Seqüenciais”, além de personalizar o atendimento, também corres-ponde a um fator de fidelização do cliente, pelo resultado qualitativo que oferece.

Seus benefícios são claramente observáveis, pois facilita a aplicação da sistematização da assistência de Enfermagem, propiciando a seqüência da observação diária e a evolução de seu estado físico, em resposta à sua recuperação. Suas possibilidades são inúmeras. Além do amplo benefício assistencial que proporciona; inclui também o fator econômico-financeiro, que talvez seja o que mais alerte o administrador, cuja atenção é mais focada na otimização de recursos e resultados. Conduz concomitantemente à adequação do dimensionamento do quadro de pessoal, pois os profissionais passam a associar conhecimentos técnico-científicos à habilidade prática no desempenho mais ágil de suas ações, com racionalização do tempo e material.

Ressaltamos sobretudo a ênfase dada à humanização da assistência, considerando o res-peito à individualidade e privacidade do paciente, que se traduz na ética institucional, oferecendo maior segurança, no tratamento pelo conhecimento mais próximo e amplo do pa-ciente, evitando incorrências em erros, encaminhamentos inadequados, aperfeiçoando técnicas utilizadas nos procedimentos e, conseqüentemente, evitando ações legais ao profissional e Instituição.

O sistema, ao qual nos referimos, é denominado Primary Nursing, tendo origem nos Estados Unidos e sendo difundido em vários outros países, entre eles, o Brasil, onde foi traduzido como “Enfermeiro do Paciente”, cujo principal benefício está no fortalecimento do vínculo criado entre profissional-paciente-instituição.